Economia

Herança fiscal: impacto de R$ 1,4 trilhão em gastos extras para os próximos governos

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

Os próximos presidentes da República terão de lidar com uma herança fiscal sem precedentes. Estudo dos economistas Fábio Serrano e Samuel Pessoa, do BTG Pactual, estima que as regras de reajustes automáticos retomadas ou ampliadas no terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocarão um aumento acumulado de R$ 1,397 trilhão nos gastos federais entre 2027 e 2034.

O valor equivale a quase um PIB da Argentina e deve pressionar juros, dívida pública e a capacidade de investimento do Estado nos próximos anos. O cenário é resultado da volta de uma estrutura rígida de gastos semelhante à que existia antes do teto de gastos, derrubado pela PEC da Transição no fim de 2022.

Com a retomada de regras de indexação automática, uma parcela crescente das despesas voltou a crescer de forma quase obrigatória, acompanhando o avanço da arrecadação, do salário mínimo e das vinculações constitucionais.

Segundo o estudo, cerca de 45% de todo o gasto primário federal hoje está atrelado a mecanismos automáticos de correção. São exemplos os benefícios vinculados ao salário mínimo, pisos de saúde e educação e emendas parlamentares.

A vinculação reduz progressivamente o espaço do governo para investimentos e despesas discricionárias, além de pressionar os juros e a dívida pública. Para Pessoa, a reindexação foi uma decisão consciente do governo atual.

“A manutenção da indexação atendeu ao apelo de popularidade e aos interesses sociais e políticos”, disse à Gazeta do Povo. “Por isso que eu sempre digo que a gente não pode chamar a indexação de gastança. É uma escolha política.”

Já Alexandre Manoel, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), é mais crítico. “O que o Lula fez foi voltar para a regra que vigia na era da Dilma”, afirma o economista. “Em vez de ir para o meio-termo, o governo resolveu jogar tudo [que o teto havia conquistado] no lixo”, disse.

O salário mínimo na berlinda fiscal

O principal foco de pressão está na política de aumento real do salário mínimo, que, em 2019, havia sido interrompida, mantendo apenas a correção pela inflação.

Com a volta dos ganhos atrelados ao crescimento do PIB, a pressão sobre as contas públicas aumentou. Mesmo após o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, convencer Lula a limitar o crescimento real a 2,5% ao ano, o impacto continuou elevado.

Como o salário mínimo corrige automaticamente benefícios previdenciários, abono salarial, seguro-desemprego e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o custo adicional para os cofres públicos entre 2027 e 2034 será de R$ 747 bilhões, pelos cálculos do BTG.

Na prática, isso significa que períodos de forte crescimento de receitas elevam automaticamente os gastos no ano seguinte, criando um efeito pró-cíclico, com ampliação das despesas em momentos de bonança. Por outro lado, mantém-se a rigidez quando a economia desacelera, obrigando a cortes mais profundos em investimentos e áreas não protegidas do Orçamento.

Além disso, segundo Pessoa, a política fiscal expansionista acaba produzindo efeitos sobre a política monetária. O aumento persistente dos gastos pressiona inflação, juros e dívida pública, levando o Banco Central a manter taxas de juros mais elevadas por mais tempo. “O ganho concedido pela política de reajuste é retirado com a outra mão, pelos juros mais altos.”

Salto das emendas impactou Orçamento

O estudo destaca que as emendas parlamentares também passaram a funcionar como fonte permanente de expansão de despesas. Desde 2018, os valores saltaram de cerca de R$ 10 bilhões para R$ 50 bilhões anuais.

Parte desse crescimento decorre de mudanças constitucionais aprovadas pelo próprio Congresso, como a ampliação das emendas individuais para 2% da Receita Corrente Líquida (RCL) e a vinculação das emendas de bancada a 1% da RCL.

Também há pressões adicionais vindas do Fundeb e do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF), ambos atrelados à arrecadação. O próprio Haddad tentou limitar o crescimento do FCDF ao teto de 2,5% previsto no arcabouço fiscal. O ministro, contudo, sofreu derrotas fiscais no Congresso, tanto na tramitação do novo regime quanto no pacote enviado em 2024.

Ainda assim, a própria dinâmica fiscal aponta que os ajustes acabarão se impondo ao próximo governo, independentemente de quem vencer a eleição. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 já projeta crescente compressão das despesas discricionárias nos próximos anos, mas não detalha de onde serão cortados os recursos.

A proposta do governo prevê transformar o déficit primário de 0,4% do PIB — estimado para 2026 — em um superávit de 1,3% em 2027. A mudança está prevista sem que haja aumento da carga tributária, mantida em 23,5% do PIB.

Na prática, isso exigiria uma forte redução dos gastos federais, de 19,3% para 18% do PIB. “O problema é que o plano não detalha o ajuste, o que gerou forte perda de credibilidade”, diz Manoel.

Medidas do governo vão na contramão do ajuste

Na contramão desse ajuste, o governo projeta cerca de R$ 140 bilhões em medidas de estímulo visando ao impacto eleitoral. Só as medidas de expansão de crédito para pessoas físicas somaram R$ 76,2 bilhões.

A mais recente foi o Desenrola Brasil 2.0, com até R$ 15 bilhões em garantias da União para renegociar dívidas de famílias, pequenos negócios e produtores rurais.

Além disso, o Planalto apoiou o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria um gasto mínimo obrigatório para a assistência social, com potencial retorno político.

Na prática, a medida amplia o engessamento do Orçamento. O modelo já existe para saúde e educação, o que, segundo o estudo do BTG, deveria entrar na pauta de revisão do próximo governo.

O estudo de Serrano e Pessoa sugere mudar a regra dos pisos constitucionais. De acordo com os economistas, os da saúde e educação deveriam ser corrigidos apenas pela inflação e pelo crescimento populacional. Dessa forma, o gasto per capita é preservado sem ser vinculado automaticamente ao avanço da arrecadação.

Outra proposta seria congelar nominalmente as emendas parlamentares, permitindo redução gradual de seu peso no Orçamento ao longo do tempo. Já o salário mínimo e o Fundeb passariam a ter reajustes apenas pela inflação, sem ganhos reais automáticos.

Herança fiscal: medidas são inevitáveis

Alexandre Manoel afirma que alguma mudança na política do mínimo será inevitável. “Alguma mudança nessa regra vai ter de existir, é o ponto pacífico.”

A tendência é que a nova fórmula fique entre o modelo adotado nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro — reajuste apenas pela inflação — e a regra atual, já limitada pelo próprio governo Lula a um ganho real máximo de 2,5%.

Outra alternativa seria atrelar o aumento ao crescimento do PIB per capita, reduzindo a pressão estrutural sobre Previdência e benefícios assistenciais.

Sem isso, a avaliação é que o arcabouço fiscal sozinho dificilmente conseguirá estabilizar a dívida pública. Somente nesta gestão, a dívida subiu mais de oito pontos percentuais, passando de 71,2% do PIB em 2022 para os atuais 79,2% do PIB, segundo dados do Banco Central.

No estudo do BTG, Serrano e Pessoa estimam que, se o gasto federal voltar a crescer em ritmo semelhante ao observado durante o teto de gastos, a taxa de juros real neutra poderia cair até 1,5 ponto percentual.

Caso estados e municípios também moderassem os gastos, a redução chegaria a 2,5 pontos percentuais. Nesse cenário, a dívida pública poderia encerrar 2034 em 83% do PIB, contra níveis próximos de 95% caso as regras atuais sejam mantidas.

Entrave político precisa ser enfrentado

A resistência política às medidas, no entanto, é imensa. Qualquer tentativa de desacelerar essas despesas envolve enfrentar grupos amplos do eleitorado e desmontar benefícios altamente populares.

“Quando você assume essa desvinculação, está basicamente impactando toda a população”, afirma Manoel. “Só de beneficiários da Previdência e do BPC são cerca de 45 milhões, além de mais de 165 milhões de usuários do SUS.”

Nesse cenário, o tema tende a ser evitado durante a campanha presidencial de 2026. “É infantil politicamente achar que alguém vai discutir isso em campanha”, diz Manoel.

Para Pessoa, porém, o problema deveria ser enfrentado, sob risco de repetição de promessas incompatíveis com a realidade fiscal. “A dificuldade que eu vejo é que, se a disputa eleitoral fizer com que os candidatos prometam o impossível, independentemente de quem ganhe, ele vai ter que entregar.”

Isso pode gerar, segundo o economista do BTG, um cenário de estresse fiscal muito maior. “Caso os candidatos evitem discutir os limites fiscais reais do país e mantenham promessas de expansão simultânea de gastos e redução de impostos sem indicar fontes de financiamento, o debate de 2026 pode acabar marcado por um novo estelionato eleitoral, como foi em 2014 [com a eleição de Dilma Rousseff].”

Ele se refere ao fato de Dilma ter feito campanha contra medidas de austeridade — criticando propostas de ajuste fiscal, corte de gastos e alta de juros defendidas pelo adversário Aécio Neves. Logo após a eleição, contudo, ela adotou políticas semelhantes às que criticou na campanha.

Para Pessoa, “faltam lideranças dispostas a defender com a sociedade medidas impopulares, mas necessárias para estabilizar as contas públicas”.

Fonte: gazetadopovo

Sobre o autor

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.