Eventos

Fotógrafo mato-grossense vence prêmio nacional com ensaio sobre ballroom: uma celebração de corpos, gestos e identidade

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

Um ensaio fotográfico sobre a cena ballroom de Cuiabá colocou Mato Grosso em destaque no principal prêmio brasileiro dedicado à antropologia visual. O fotógrafo, pesquisador e artista visual Fred Gustavos foi um dos vencedores da categoria Ensaio Fotográfico do Prêmio Pierre Verger (PPV), realizado pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), com um trabalho “O Ano da Onça: ballroom em Cuiabá”.

Criado em 1996, durante a Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), o prêmio é considerado uma das principais premiações nacionais da antropologia visual. Inicialmente voltado a filmes etnográficos, o festival passou a contemplar ensaios fotográficos em 2002 e, ao longo de seus 30 anos de realização, ampliou as categorias para incluir desenhos, outras grafias e, nesta edição de 2026, experimentação fotográfica.

O anúncio dos vencedores da edição de 2026 foi feito na última segunda-feira (13). Para Fred, a premiação representa mais do que um reconhecimento individual. Segundo ele, o resultado também projeta nacionalmente a produção cultural desenvolvida pela comunidade ballroom de Cuiabá.

“O que mais me deixa contente é ver a ballroom de Cuiabá nessa cena, nesse destaque. Ballroom existe no Brasil todo, então é muito bonito perceber que a nossa está sendo vista por outras formas de produção artística e também pela antropologia”, afirmou o fotógrafo em entrevista ao Portal Primeira Página.

Da Praça da Mandioca ao prêmio nacional

O ensaio nasceu de forma espontânea. Fred conta que conheceu integrantes da cena ballroom enquanto frequentava a região da Praça da Mandioca, no Centro Histórico de Cuiabá. A curiosidade aumentou justamente quando ele iniciava o mestrado em Antropologia, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Convidado por amigos da comunidade para acompanhar uma vogue night, decidiu registrar toda a experiência, desde os bastidores até o encerramento da competição.

“Foi um ensaio muito extenso. Queria acompanhar tudo, entender como aquele universo funcionava. Na época, devolvi esse material para eles, publiquei algumas imagens, mas depois percebi que havia ali um potencial antropológico muito maior”, explica.

O trabalho permaneceu guardado enquanto o fotógrafo aprofundava seus estudos. A decisão de inscrevê-lo no Pierre Verger veio somente neste ano. Segundo Fred, diferentemente de outros eventos acadêmicos, o prêmio valorizava sobretudo a força narrativa das imagens.

Um olhar para a ballroom cuiabana

Embora a cultura ballroom tenha surgido entre pessoas negras e LGBTQIA+ em Nova York, nas décadas de 1970 e 1980, Fred destaca que a cena cuiabana desenvolveu características próprias, incorporando referências ao Cerrado, ao Pantanal, aos modos de falar e aos símbolos locais.

Durante a noite registrada pelo fotógrafo, categorias faziam referência à onça, ao bioma mato-grossense e a elementos da identidade regional. Para ele, esse processo mostra como uma manifestação global também ganha novos significados nos locais onde ela é praticada.

Ao contrário de buscar apenas figurinos ou cenários, Fred afirma que seu interesse estava concentrado na expressividade dos corpos dos participantes. Segundo ele, as imagens premiadas foram escolhidas justamente por traduzirem a potência dos gestos, das disputas e das relações construídas durante o baile.

“Quando estou fotografando, fico atento ao ápice da gestualidade. Quando o corpo vai ao chão, quando ergue o braço, quando acontece aquele momento de maior intensidade. É isso que procuro capturar”, contou.

Reconhecimento para Mato Grosso

Além do prêmio, Fred considera simbólico o fato de uma produção realizada em Mato Grosso ganhar espaço em uma das principais vitrines da antropologia e da fotografia brasileira.

Segundo ele, os estudos sobre o estado na área da antropologia costumam concentrar-se em povos indígenas e comunidades tradicionais. Com a premiação, o olhar passa também para as manifestações culturais urbanas contemporâneas.

“É importante perceber que a antropologia também está olhando para essas novas manifestações urbanas. A ballroom é um cenário fantástico e esse reconhecimento mostra que Mato Grosso também produz experiências culturais que merecem ser vistas”, finalizou.

Para acompanhar o ensaio completo, clique aqui.

Fonte: primeirapagina

Sobre o autor

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.