Cenário Agro

FICO: Novela dos 290 km até o fim do ano deixa Mato Grosso refém de logística sem trilhos no Brasil

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2026

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) soltou mais uma nota otimista nesta sexta-feira (8), afirmando que a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO) deve concluir a infraestrutura de 290 quilômetros até o fim de 2026. Para quem olha de longe, parece um avanço; para quem vive em Mato Grosso, é apenas mais um capítulo de uma novela de descaso que já dura décadas.

O projeto pretende ligar Mara Rosa (GO) a Água Boa (MT), prometendo conectar o coração da nossa produção aos portos do Norte e Nordeste. No entanto, o que o Governo Federal chama de “estratégico”, o setor produtivo mato-grossense conhece como “atraso estrutural”. O Brasil, que deveria ter uma malha ferroviária continental desde o século passado, prefere se perder em burocracia, trocas de gestão e promessas que raramente saem do papel no tempo do campo.

O custo da inércia governamental

Mato Grosso carrega o PIB do país nas costas, mas o retorno em infraestrutura é pífio. A FICO, que agora corre para entregar o Lote 1, é o exemplo clássico de como o governo mais atrapalha do que ajuda. Enquanto autoridades se reúnem em Brasília para alinhar “perspectivas para 2026”, o caminhoneiro e o produtor sofrem com o frete caríssimo e rodovias destruídas.

A sinergia celebrada pelos diretores da ANTT e representantes da Vale ignora o fato de que cada ano de atraso nessa obra custa bilhões em competitividade perdida. O “rolo” jurídico e político que envolve as concessões ferroviárias no Brasil transformou o que deveria ser engenharia simples em um campo de batalha de interesses que ignora a urgência de quem planta e colhe.

Números que expõem a dependência do agro

Estudos da Infra S.A. indicam que, quando (e se) estiver operando plenamente, 80% da movimentação da FICO será de granéis vegetais. A soja deve representar 46% da demanda, seguida pelo milho (28,5%). Ou seja: Mato Grosso tem a carga, tem o dinheiro, mas não tem o trilho.

  • Demanda reprimida: A projeção é de 41 milhões de toneladas úteis transportadas até 2060;
  • Conexão falha: A integração com a FIOL (Bahia) e a Norte-Sul é vital, mas segue em passos lentos;
  • Custo Brasil: A ausência da ferrovia força o uso de modais menos eficientes, encarecendo o alimento na mesa;
  • Superestrutura: A promessa de entrega do primeiro grande marco físico é para outubro deste ano, mas o histórico pede cautela.

Chega de consenso de gabinete

O discurso oficial fala em “segurança jurídica” e “busca por consenso”. Para o mato-grossense, isso soa como desculpa para a lentidão. Uma ferrovia de 366 km levar décadas para ser concluída em um terreno predominantemente plano é um atestado de incompetência logística nacional. O Governo Federal atual, assim como os anteriores, trata a infraestrutura do Centro-Oeste como um favor, quando, na verdade, é a única coisa que mantém a balança comercial positiva.

Enquanto os 290 km previstos para dezembro não se transformarem em locomotivas apitando em Água Boa, a FICO continuará sendo um projeto no papel de um país que se recusa a entrar no século XXI sobre trilhos.

Perspectivas ou apenas mais uma promessa?

O cronograma atual diz que em outubro teremos a superestrutura do Lote 1. O produtor de Mato Grosso, calejado por promessas de ferrovias como a Ferronorte e a Ferrogrão (esta última ainda travada por ideologias e liminares), só vai acreditar quando o primeiro vagão de soja seguir rumo ao Porto Sul, na Bahia, sem as interrupções e os pedágios da ineficiência estatal.

Editorial CenárioMT

Fonte: cenariomt

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