Cenário Agro

Famato relata 25 km de fila em Miritituba, revelando crise no escoamento da soja em Mato Grosso

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A comitiva do Estradeiro BR-163 – Do Campo ao Porto, liderada pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso, esteve nesta segunda-feira (23) em Miritituba, distrito de Itaituba, para verificar in loco as condições de escoamento da safra de soja de Mato Grosso pelo Arco Norte. O grupo percorreu pouco mais de 30 quilômetros entre o KM 30 e os terminais portuários e encontrou uma fila superior a 25 quilômetros de caminhões carregados, revelando um cenário de colapso logístico em pleno pico da colheita.

A visita técnica reuniu presidentes de 20 sindicatos rurais e teve como objetivo pressionar por soluções estruturais diante do aumento das filas, da demora na triagem e das dificuldades enfrentadas pelos caminhoneiros.

“Não é possível aceitar 30 km de fila”, diz presidente da Famato

O presidente da Famato, Vilmondes Tomain, classificou a situação como inadmissível para o Brasil atual e cobrou ação direta do governo federal. “Não é possível que você enfrente uma fila de trinta quilômetros de caminhões aguardando para fazer uma triagem e depois ainda esperar para descarregar. Isso não tem lógica. No Brasil de hoje não podemos aceitar essas condições”, afirmou.

Tomain defendeu que o impasse envolvendo a navegabilidade do Rio Tapajós e o decreto que trata da melhoria do calado precisa de encaminhamento institucional. “É questão de segurança jurídica. O Ministério da Agricultura, o Ministério dos Transportes e o Governo Federal precisam vir aqui e ver de perto essa realidade. Não é embate, é diálogo. Precisamos respeitar os povos indígenas, mas também precisamos respeitar a economia do Brasil”, declarou.

O presidente da entidade ainda alertou para o efeito cascata do gargalo logístico em pleno período de colheita. “O produtor enfrenta dificuldade com clima, investe, colhe, comercializa e quando chega na hora de embarcar encontra esse descaso. Isso gera insegurança e prejuízo.”

Falta de armazenagem em Mato Grosso agrava pressão sobre o porto

Para Tomain, o problema não começa apenas no porto. Ele reforçou a necessidade de ampliar a armazenagem dentro de Mato Grosso e avançar nas ferrovias como alternativa ao transporte rodoviário. “Tem que começar lá atrás, na colheita. Se o produtor tiver onde armazenar, ele consegue distribuir melhor esse fluxo. Hoje existe excesso de carregamento porque falta estrutura de estocagem. É planejamento”, destacou.

Segundo ele, investimentos em infraestrutura portuária, melhoria do calado do rio, ampliação da capacidade de triagem e incentivo à construção de armazéns precisam caminhar juntos para evitar novos colapsos no Arco Norte.

Caminhoneiros relatam até 80 horas de espera

Na fila, o drama é diário. O caminhoneiro Luigi Brischiliari, que transporta soja de Sinop, relatou estar há dias aguardando para descarregar. “Se não precisar passar de novo na triagem, no mínimo quarenta horas. Mas tem colega aqui que já está passando de oitenta horas”, disse.

Ele descreve a situação como um colapso logístico e aponta falta de estrutura básica. “Aqui a gente está jogado. Não tem banheiro, não tem apoio. Se acabar a água que você trouxe, você passa sede. É muito desgaste psicológico. A pressão é grande, porque a gente tem compromisso, tem outra carga para puxar”, afirmou.

Ele também destacou que o aumento do número de caminhões na região, atraídos pelo frete, agravou o congestionamento. “Está recorde. Eu trabalho aqui há oito anos e esse ano está pior.”

“Estamos trabalhando como se fôssemos bandidos”, diz motorista

O caminhoneiro Lindomar Zamborchi, que saiu de Santa Helena com carga de soja, também relatou dificuldades. “Entrei na fila sexta-feira à noite e ainda estou aguardando. Isso é um desaforo. Não tem água, não tem banheiro. A gente sai de casa para trabalhar e levar sustento para a família”, afirmou.

Ele criticou a organização da triagem e a falta de soluções práticas para organizar o fluxo. “Quando não tinha fiscalização aqui, andava melhor. Agora a gente fica parado, multado e sem apoio.”

Foto: Lucas Nunes
Foto: Lucas Nunes

Gargalo logístico pressiona o agronegócio brasileiro

O Arco Norte se consolidou como rota estratégica para exportação da soja de Mato Grosso, reduzindo distâncias até os mercados internacionais. No entanto, o aumento do volume embarcado, somado a limitações estruturais, expôs fragilidades na capacidade operacional dos terminais.

Para a Famato, a visita do Estradeiro BR-163 reforça a urgência de medidas estruturais. “Nós precisamos unir forças. Governo do Mato Grosso, Governo do Pará, Governo Federal, federações e sociedade organizada. O Brasil que produz não pode ficar parado numa fila de 30 quilômetros”, concluiu Vilmondes Tomain.

O cenário observado em Miritituba evidencia que o desafio logístico vai além do porto: envolve planejamento, infraestrutura e coordenação entre os diferentes níveis de governo para garantir competitividade à soja mato-grossense no mercado global.

Fonte: cenariomt

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