A ilha de Fernando de Noronha é um paraíso para mergulhadores. O mar quentinho, na casa dos 26 °C, esconde uma série de belezas, desde animais marinhos, como tartarugas e golfinhos, até gigantescas formações rochosas naturais. Um dos pontos de mergulho mais famosos, porém, foi criado por nós, humanos: o navio de guerra Corveta Ipiranga V-17, que naufragou em 1983.
Na ocasião, a embarcação da Marinha brasileira fazia uma viagem de patrulhamento na costa quando bateu no Cabeço da Sapata, uma montanha submersa que chega perto da superfície e ainda não havia sido registrada nos mapas da época. A Corveta permanece no oceano até hoje.
Com cerca de 56 metros de comprimento, a embarcação rende uma vista impressionante. O problema é sua localização: ela repousa a 62 metros de profundidade, o que faz com que o mergulho seja viável apenas para mergulhadores experientes dispostos a uma expedição mais radical.
Por isso, a beleza da Corveta fica restrita a poucos. As fotografias tampouco fazem jus à embarcação. Debaixo d’água, não é possível fotografar de muito longe para enquadrar o navio inteiro. E, quanto maior a distância entre a câmera e o objeto fotografado, mais água existe entre eles. Consequentemente, menos nítida é a imagem.
A maioria dos registros da famosa Corveta mostra apenas detalhes específicos: a proa, a hélice, o canhão e outros pontos da embarcação. Nunca o navio inteiro. As imagens não conseguiam transmitir ao público que nunca esteve ali a real grandiosidade do naufrágio – até agora.
Foi pensando nesse dilema que o casal de mergulhadores Fabi Fregonesi e Raphael Gatti, especialistas em fotografia subaquática, decidiu aprender a técnica da fotografia panorâmica. Com ela, produziram a primeira imagem panorâmica da Corveta, revelando em uma mesma imagem toda a embarcação.
O método consiste em registrar diversas fotografias de perto, capturando os detalhes com precisão, para depois uni-las em uma única imagem gigantesca, impossível de ser feita em um único clique distante. É o mesmo princípio das fotos panorâmicas dos celulares, em que é preciso mover lentamente a câmera pelo ambiente.
A diferença é que, no celular, o resultado não é nada profissional e geralmente rende imagens bem tortas.

No ambiente subaquático, a panorâmica permite finalmente obter uma visão ampla sem perder nitidez nem textura. O problema? A técnica exige um domínio enorme, e pouquíssimas pessoas no Brasil trabalham com esse tipo de fotografia.
“A técnica panorâmica já existe na fotografia de natureza, mas, na fotografia subaquática, ela é muito pouco ou quase nunca utilizada. Geralmente são fotógrafos internacionais; nunca vimos ninguém no Brasil falando sobre isso”, explica Fabi.
“Pesquisamos para encontrar brasileiros e descobrimos o Márcio Cabral, mas o foco dele é criar uma experiência de imersão, como se você navegasse dentro da foto usando um óculos de realidade virtual. É diferente do que estávamos propondo”, completa Raphael.

A jornada do casal até as panorâmicas
Antes mesmo de se conhecerem, Fabi e Raphael já mergulhavam. Eles começaram a fotografar sem experiência prévia na área, mas motivados em mostrar à família e aos amigos o que viam debaixo d’água. Conheceram-se justamente trocando experiências sobre fotografia e, juntos, foram aprendendo aos poucos como melhorar suas imagens e torná-las mais profissionais, conciliando tudo isso com a rotina de trabalho CLT.
Hoje, eles acumulam mais de 15 anos de mergulho. Fabi abandonou a carreira na publicidade em 2024 para se dedicar integralmente à fotografia subaquática e já conquistou mais de 30 prêmios internacionais. Raphael, por outro lado, ainda segue no mundo corporativo.
Um fato curioso é que Fabi tinha medo de peixes desde os 13 anos de idade, devido a uma experiência traumática durante um mergulho. Muitos anos depois, decidiu realizar um mergulho em mar aberto, veja só, em Fernando de Noronha. Ela sofreu uma crise de pânico e só concluiu a atividade com a ajuda de instrutores. Ironicamente, a experiência acabou transformando seu medo em paixão.
Entre livros e videoaulas, o casal conheceu a fotografia panorâmica numa aula de um fotógrafo estrangeiro que registrava cavernas. Isso deu um “clique” nos dois, rs.
“Às vezes olhávamos para uma foto e pensávamos: ‘Nossa, ela não mostra aquela imensidão que a gente vê lá embaixo’. Aí conectamos isso com a técnica panorâmica. Na hora, olhamos um para o outro e falamos: ‘A gente podia fazer isso em Noronha’. Conseguiríamos mostrar uma área muito maior e revelar uma beleza que uma única foto não consegue mostrar”, lembra Raphael.
Assim nasceu o projeto Panorâmicas de Noronha, que percorreu 16 dos principais pontos de mergulho do arquipélago, entre eles a Corveta, Pedras Secas I e II, Cabeço da Sapata e Trinta Réis.

“A gente achava que faltava essa visão mais ampla para as pessoas entenderem por que aquele ambiente precisa ser protegido. Nas fotos tradicionais você vê uma tartaruga, um tubarão, um cardume, mas não vê o ecossistema inteiro. Quando mostramos uma visão global do ambiente, que é fundamental para que todas essas espécies sobrevivam. A gente entendeu que era uma peça que talvez estivesse faltando, de conservação e de conscientização”, diz Fabi.
Mas nada aconteceu de uma hora para outra. Eles precisaram estudar muito e adaptar o método às dificuldades do ambiente marinho, que conta com correnteza, ondas e fatores diferentes de iluminação, posicionamento, entre outros. Lá, a precisão técnica deve ser ainda maior.
Depois de dominar a técnica e realizarem testes subaquáticos, partiram para Noronha. O projeto foi realizado de forma independente, sem patrocínio, contando apenas com o apoio de uma empresa para a logística da expedição, que durou três semanas.
Como foi desbravar a Corveta V-17
Para Raphael, a Corveta é o “Santo Graal” do mergulho em Noronha, e ele e Fabi nunca haviam mergulhado ali. Porém, também é o local que exige mais preparação técnica. Inicialmente, o barco nem sequer fazia parte do projeto, mas acabou sendo impossível deixá-lo de fora.
O maior desafio era o tempo. Eles tinham apenas 65 minutos contados no relógio para descer até os 60 metros, realizar todas as fotografias da Corveta e retornar com segurança à superfície. O problema maior nem era a descida, mas a subida, que ocupava mais de 40 minutos do tempo.
O tempo maior se deve ao fato de que não é possível voltar de uma só vez à superfície. É preciso realizar diversas paradas de descompressão no meio do caminho para que o corpo se adapte gradualmente à redução da pressão. “É um mergulho em que você simplesmente não pode ter margem para erro em relação ao tempo”, explica Raphael.
Por isso, eles elaboraram um planejamento detalhado junto ao instrutor, obrigatório em todos os mergulhos em Noronha. Naquele dia, por exemplo, não poderia haver outros mergulhadores no naufrágio, para não interferirem na sequência das panorâmicas. Durante as fotos, também era preciso controlar os movimentos para evitar bolhas. Correnteza, nebulosidade e outros fatores ambientais também poderiam comprometer tanto a qualidade das imagens quanto a segurança da operação.
Fabi, Raphael e o instrutor desceram juntos. No barco ficaram o capitão (que, inclusive, presenciou o naufrágio da Corveta em 1983) e um segundo instrutor de segurança, que fazia descidas periódicas até cerca de 30 metros para verificar se tudo estava bem.
A descida levou dois ou três minutos. “Quando começamos a descer, vimos a silhueta da Corveta surgindo. É maravilhoso. O coração bate mais forte. Você fica emocionado”, disse Raphael.
Eles desceram guiados por um cabo que liga o naufrágio à superfície e serve como referência visual.
Já no fundo do mar, tinham apenas entre 15 e 17 minutos para fotografar tudo. O posicionamento já havia sido combinado: o instrutor permaneceu próximo à frente da Corveta, enquanto Fabi e Raphael fotografavam à distância. A presença dele servia como escala humana para destacar o tamanho da embarcação. Era um desafio extra, já que com a correnteza é impossível permanecer completamente parado (um terror para fotos panorâmicas).
A sessão de fotos consumiu cerca de dez minutos, cinco para Raphael e cinco para Fabi. Eles optaram pelo revezamento porque, caso fotografassem simultaneamente, um poderia aparecer na imagem do outro. Raphael começou primeiro, já com a câmera configurada durante a descida. Enquanto isso, Fabi ajustava seus próprios equipamentos.
Cada um possui seu conjunto preferido de câmera e combinações de lente. Raphael fotografa com uma Nikon D850 equipada com lente olho de peixe. Fabi utiliza uma Canon 5D Mark IV e ainda conta com um flash subaquático. São câmeras e lentes profissionais normais, usadas na superíficie. No ambiente aquático, a única diferença é que o equipamento deve ficar protegido dentro de caixas estanques próprias para câmeras, impedindo que água entre.
Os 7 minutos restantes foram dedicados a outras imagens do naufrágio, também previamente combinadas, como no canhão e na casa de máquinas, iluminados pelo instrutor. Nesses momentos, Fabi e Raphael fotografavam simultaneamente, enquanto o instrutor os mantinha a par do tempo restante.
Depois, partiram para a subida, que demorou mais de 40 minutos, devido às pausas de segurança. Em uma delas, encontraram o instrutor de segurança, que levou cilindros de oxigênio extras.
“Parecia que tudo tinha passado como um raio. Nem dava para perceber o tempo. Quando subimos no barco, foi muito maneiro, estava todo mundo comemorando, sorrindo de orelha a orelha”, lembra Raphael.
Para Fabi, a sensação foi semelhante. “A gente até brinca que nem teve tempo de contemplar o naufrágio direito. Estávamos tão focados em executar o projeto que agora precisamos voltar lá.”
Mesmo assim, eles só tiveram certeza de que a panorâmica havia funcionado quando chegaram ao hotel e abriram as imagens no computador. Depois veio outra etapa igualmente trabalhosa: montar a panorâmica.
Do oceano para a tela do PC
Eles utilizaram o software PTGui, específico para panorâmicas. Basicamente, as fotos devem ter pontos de interseção entre si, para permitir a continuidade. O software reconhece esses pontos comuns e une as fotografias em uma única imagem. Depois, ainda é necessário um longo trabalho manual para corrigir imperfeições, além dos ajustes de cor e textura.
É um processo ainda mais delicado nesse caso. A água provoca pequenas distorções nas bordas das imagens, que podem ser maiores dependendo da câmera. Por isso, é importante ter ainda mais pontos que se sobrepõem entre as imagens. Para ajudar, também tirar diversas vezes fotos no mesmo local, para ter material suficiente.
Assim nasceu a panorâmica da Corveta, construída a partir de apenas três fotografias. “Não é que a Corveta precisasse de uma foto dessas: ela merecia uma foto dessas. Pela imponência, pela história e por tudo o que representa”, resume Fabi.

As outras fotos do projeto “Panorâmicas de Noronha”
Cada cenário apresentou um desafio diferente. As panorâmicas do projeto exigiram entre 3 e 24 fotografias. Nas maiores, a etapa de edição chegou a consumir até 6 horas de trabalho.
Todas contam com um mergulhador na composição para servir de escala e revelar a dimensão do ambiente.
O posicionamento dessa pessoa também era cuidadosamente planejado. Em geral, ela aparecia contrastando com o azul do oceano para facilitar sua identificação. A lanterna também fazia parte da composição estratégica, ajudando o olhar do público a encontrar rapidamente a figura humana.

Mas nem todas as imagens deram certo na primeira tentativa. Muitas vezes, quando chegavam em casa, viam que o resultado não estava exatamente como o esperado, e tinham que retornar para o local.
“Uma das minhas favoritas é a do Pedras Secas II, onde existe um ponto chamado Caveirão porque, dependendo do ângulo, a formação parece um crânio. Fizemos as fotos, mas, quando fui montar a panorâmica, percebi que tinha quebrado a mandíbula da caveira. Ela ficou torta. Tivemos que voltar”, conta Fabi.

O Caveirão, aliás, nem fazia parte do planejamento inicial. Ele foi indicado pelos moradores da ilha, que participaram do projeto sugerindo pontos de mergulho importantes para quem vive em Noronha.
“A gente quis entender o que era importante para a população local em termos de mergulho. Perguntávamos: ‘O que vocês gostariam de ver retratado em um projeto desse?’. Teve lugar que nem sabíamos que existia.”
Fonte: abril





