Enquanto o debate sobre o avanço da inteligência artificial ganha os bastidores da internet mundial, os administradores de sites no Brasil já tomaram partido sobre quem pode ou não fuçar em seus conteúdos. Uma ampla pesquisa global realizada pela Hostinger — empresa de hospedagem e soluções tecnológicas que mapeou 66,7 bilhões de solicitações de web crawlers em 5 milhões de sites ao redor do planeta — revela que o Brasil adota uma postura seletiva: há muito mais espaço para robôs que respondem a usuários do que para aqueles focados no treinamento de novos modelos de IA.
Os dados do levantamento mostram que essa diferenciação de tratamento existe em escala internacional, mas ganha contornos bem mais marcados por aqui. No comparativo brasileiro (com base nos registros de novembro de 2025), plataformas digitais nacionais abrem as portas de forma muito mais agressiva para os assistentes virtuais do que a média global.
O ChatGPT e os assistentes lideram a preferência
O estudo aponta que o bot do ChatGPT, da OpenAI, marca presença em 15% dos sites brasileiros analisados, quase o dobro dos 9% registrados na média mundial. O OpenAI SearchBot (utilizado para buscas em tempo real dentro da ferramenta) empata com o cenário global, rastreando 68% das páginas do país.
Outro destaque é o Amazonbot, associado à assistente Alexa, que aparece em 8% dos domínios nacionais, superando com folga a média mundial de 4,67% — uma discrepância gritante quando comparada a mercados como o da Índia, onde esse mesmo rastreador despencou para apenas 1% dos sites.
Para Rafael Hertel, Country Manager da Hostinger no Brasil, o comportamento dos gestores de conteúdo demonstra que o mercado não é avesso à tecnologia, mas aprendeu a impor limites e a filtrar permissões.
“Os dados mostram que os sites brasileiros já tratam de forma diferente os diversos tipos de robôs de inteligência artificial. Crawlers ligados a ferramentas que entregam respostas diretamente aos usuários encontram maior abertura do que aqueles voltados exclusivamente ao treinamento de modelos. É um sinal de que, com o avanço da IA, cresce também a preocupação sobre como o conteúdo publicado na internet é acessado e utilizado”, aponta Hertel.
Buscadores tradicionais firmes, mas SEO perde fôlego
Se por um lado os assistentes ganham terreno, os mecanismos de busca tradicionais continuam firmes, embora com variações de comportamento. O Googlebot rastreia 68% dos sites do país — índice ligeiramente abaixo da média mundial de 72%, mas compensado por uma intensidade de solicitações muito maior, refletindo o apetite digital do público brasileiro.
Em contrapartida, as ferramentas voltadas à otimização de buscas (SEO) registram uma desaceleração mais acentuada por aqui do que no exterior. O AhrefsBot circula por 40% das páginas nacionais (frente a 60% da média global), enquanto o SemrushBot marca presença em apenas 14% dos sites brasileiros, ante 25% no panorama internacional.
Redes sociais acima da média
O estudo também mapeou a pegada digital dos aplicativos de mensagens e redes sociais, que continuam ditando o ritmo de acesso no país. O WhatsApp, por exemplo, responde por rastreamentos prévios em 7% dos sites nacionais, superando os 5% da média global — um reflexo direto da centralidade do aplicativo no compartilhamento de links e na comunicação diária do brasileiro.
O conjunto das informações desenha um novo ecossistema digital, onde o tráfego de dados deixa de ser generalizado e passa a ser rigorosamente segregado entre aquilo que entrega valor prático imediato (como respostas, buscas e prévias) e o escaneamento em massa voltado a alimentar os algoritmos de aprendizado de máquina.
Fonte: cenariomt





