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Entrevista exclusiva: Nany People compartilha sua jornada inspiradora e transgressora

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2026

A atriz e humorista Nany People retorna a Campo Grande com um espetáculo que mistura humor, memória e identidade, mas sua ligação com a capital sul-mato-grossense vai muito além de uma simples passagem artística. Em entrevista exclusiva ao Primeira Página a artista conta sua história com Campo Grande, Minas Gerais e os palcos pelo Brasil e o mundo.

Ao longo de décadas, a artista construiu vínculos afetivos com o público local, especialmente em um período em que a cena cultural LGBTQIA+ ainda era mais restrita e marcada pela resistência.

Antes mesmo do reconhecimento nacional, Nany já circulava pela cidade em apresentações menores, muitas vezes em espaços alternativos, onde o contato com o público era mais próximo e direto.

Essas experiências, segundo ela, ajudaram a consolidar não apenas sua carreira, mas também relações pessoais que permanecem até hoje.

“Eu tenho um caso de amor com Campo Grande. Conheço desde os 9 anos e já fui chamada para fazer um show de última hora. Vim várias vezes fazer shows em boates gays que tinham aqui. Tenho grandes amigos… pessoas que me veem e lembram que eu já fiquei na casa delas, troquei de roupa para show. E é isso que fica: as pessoas que a gente vai se aproximando.”

“Para uns fui inspiração, para outros transgressão”

Ao longo de sua trajetória, Nany People construiu uma imagem pública marcada pela autenticidade e pela quebra de padrões. Em um cenário artístico que, por muito tempo, ofereceu pouco espaço para a diversidade, sua presença se tornou simbólica, tanto como referência quanto como provocação social.

A artista reconhece que sua caminhada foi percebida de diferentes formas pelo público, especialmente por ter se colocado de maneira firme em relação à própria identidade.

Para ela, assumir quem é sempre foi uma escolha consciente, que influenciou diretamente sua trajetória profissional e pessoal.

“Pra alguns eu fui inspiração e pra outros eu fui transgressão. Uma coisa que me orgulho muito é que eu sempre fui como eu quis, o que quis e como quis. As pessoas fazem com a gente o que a gente deixa.”

Nany People

Esse posicionamento, no entanto, também exigiu renúncias importantes ao longo da vida, principalmente no âmbito pessoal, em meio ao processo de afirmação de identidade.

Do interior de Minas aos palcos do Brasil

A história de Nany People começa longe dos grandes centros, no interior de Minas Gerais, onde a arte surgiu de forma espontânea, quase como uma necessidade natural de expressão.

Ainda criança, ela já demonstrava inclinação para o palco, mesmo sem acesso a estruturas formais ou formação artística naquele momento.

O ambiente simples não foi obstáculo para a criatividade. Pelo contrário, foi ali que nasceram as primeiras experiências performáticas, improvisadas e carregadas de imaginação, que mais tarde se transformariam em profissão.

“Quando eu era criancinha lá no interior de Minas Gerais eu queria fugir com o circo. A mais remota lembrança que eu tenho é de fazer apresentações para o galinheiro”.

A infância, marcada por características que hoje poderiam ser interpretadas de outra forma, também revela um perfil singular desde cedo.

“Eu não falava, eu era uma criança que hoje talvez fosse taxada como autista ou TDAH. Tinha 3 anos e não falava. Quando comecei a falar, não tinha pra ninguém”.

A caminhada até o reconhecimento, no entanto, não foi imediata. Antes de viver exclusivamente da arte, Nany precisou conciliar diferentes trabalhos para se manter próxima do que realmente desejava.

“Eu carreguei bandeja por sete anos, porque não queria ter uma vida CLT e perder oportunidade de show, teatro e peças”.

Ela relembra o momento em que cantava em um bar hetero em São Paulo entre intervalos de shows apenas para fazer o que gostava.

Na época cantava do sertanejo ao rock para agradar o público, e destaca a música “Doida demais”. Agora, Nany People canta a mesma música como convidada de um espetáculo.

Humor como sobrevivência

Mais do que uma ferramenta de entretenimento, o humor sempre ocupou um papel central na vida e na carreira de Nany People. Ao longo dos anos, ela desenvolveu uma linguagem própria, marcada pela inteligência, pela observação social e pela capacidade de transformar experiências pessoais em conexão com o público.

Para a artista, o riso tem uma função que ultrapassa o palco e se torna essencial na forma de lidar com a vida, especialmente diante de desafios e preconceitos.

“O humor é um ato de sobrevivência. Qualquer discurso para ter reconhecimento tem que ser bem-humorado. Você só vai se lembrar de quem te faz rir. O bom de rir de tudo é que você pode rir de tudo. Pode rir até do poder”.

Vida pública e limites

Apesar de ser uma figura pública consolidada, Nany People mantém uma postura clara em relação aos limites entre o profissional e o pessoal. Ao longo da carreira, ela aprendeu a lidar com a exposição, mas também a estabelecer fronteiras para preservar sua intimidade e as pessoas próximas.

Essa escolha não é apenas uma questão de preferência, mas uma estratégia de proteção diante de um ambiente que, segundo ela, pode ser invasivo e, muitas vezes, cruel.

“Eu aprendi uma coisa muito cedo: a vida pública é tóxica. Nem todo mundo tem pele pra isso. Não faria sentido expor quem eu amo a julgamentos e falácias. O que importa é o meu trabalho.”

Nany People

Resistência, propósito e longevidade

Chegar aos 60 anos, especialmente dentro da comunidade LGBTQIA+, é, para Nany, também um marco de resistência.

A artista destaca que sua trajetória não pode ser dissociada do contexto social em que foi construída, marcado por desafios estruturais e falta de representatividade.

Ainda assim, ela atribui sua longevidade na carreira à consistência e à fidelidade ao próprio propósito, elementos que considera fundamentais para se manter ativa ao longo das décadas.

“Estou há 40 anos no galope da vida. O que mais agradeço a Deus é ter me mantido fiel ao meu propósito. Chegar aos 60 anos, pra minha classe, não é fácil.”

A base dessa trajetória, segundo ela, sempre foi a decisão de viver da arte, independentemente das dificuldades.

“Tive o propósito de viver de arte e fui fiel a isso.”

Nany People

Ao revisitar a própria história, Nany People também projeta um olhar sobre o futuro, especialmente para quem está começando ou enfrentando obstáculos semelhantes aos que ela viveu no início da carreira.

A mensagem, direta e emocional, resume a filosofia que guiou sua trajetória e reforça a importância da tentativa, mesmo diante das incertezas.

“Se eu pudesse falar comigo no passado, diria: não desista. Tenha fé em Deus, na vida e, sobretudo, trabalhe. Confie na sua capacidade.”

Ela também alerta para os riscos de abrir mão dos próprios sonhos em troca de caminhos mais fáceis ou impostos.

“O pior é não tentar e se tornar um adulto frustrado, amargo e dono de uma verdade que não é sua.”

Nany People

Novo espetáculo chega a Campo Grande

Em clima de celebração, Nany People retorna aos palcos com um espetáculo que sintetiza sua trajetória e revisita momentos marcantes de sua vida pessoal e profissional.

A apresentação integra uma fase especial da carreira, em que a artista comemora seis décadas de vida e uma longa caminhada na arte.

A proposta do show é justamente transformar essa história em narrativa acessível, combinando humor, emoção e reflexão, características que sempre marcaram sua atuação.

“É um grande tributo à minha trajetória. Mais do que uma peça, é um mergulho divertido, emocionante e verdadeiro nas histórias que me transformaram na mulher que sou hoje.”

Serviço

  • Espetáculo: Ser Mulher Não é Para Qualquer Um
  • Data: 11 de abril de 2026 (sábado)
  • Horário: 20h
  • Local: Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo

Fonte: primeirapagina

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