Saúde

Descubra qual órgão humano some com o tempo e seu impacto na longevidade

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2026

No meio do peito, atrás do osso esterno e logo na frente do coração, fica uma estrutura que, na opinião dos gregos antigos, era o lugar onde a alma se sentava: o timo. A ciência moderna demorou alguns séculos para descobrir a real utilidade nesse órgão. Mas isso tem mudado.

O timo, hoje sabemos, é uma glândula crucial do sistema imune. Ele é dotado de uma particularidade bem curiosa: ao longo da vida, ele atrofia, encolhe, e, após certa idade, praticamente desaparece. Não à toa, estudos mais recentes sugeriram que a saúde desse órgão poderia servir como um indicador da saúde geral de uma pessoa. Com base nisso, o timo agora se encontra no centro de uma nova leva de pesquisas e empreendimentos farmacêuticos que procuram, na restauração dessa estrutura efêmera, a chave para uma vida mais saudável e longeva.

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Foram necessárias duas grandes reviravoltas científicas até que o timo conquistasse os olhares de pesquisadores. Nas décadas anteriores a 1960, imperava a ideia de que esse órgão não tinha função alguma, sendo apenas uma estrutura vestigial. Em outras palavras, um órgão “ultrapassado” que, em algum ponto da evolução, foi útil para a sobrevivência da espécie, mas hoje teria perdido toda ou quase toda sua função.

Pesava nessa hipótese o fato de que, em animais adultos que tiveram o timo cirurgicamente removido, a resposta imune do corpo parecia continuar muito-bem-obrigado, com a vida seguindo sem grandes transtornos. Remover o timo, segundo essa lógica, seria tão inconsequente quanto arrancar os dentes do siso.

Esse entendimento foi virado do avesso no começo dos anos 1960, quando o imunólogo franco-australiano Jacques Miller olhou para o efeito que a remoção do timo teria não só em animais adultos, mas na saúde de camundongos recém-nascidos. A princípio eles pareciam perfeitamente saudáveis. Acontece que, algumas semanas após o desmame, eles começavam a perder peso e morriam. Os pequenos que passaram pela cirurgia, Miller descobriu, acabavam altamente suscetíveis a infecções, e tinham muito menos linfócitos – um dos tipos de célula responsável pela defesa do corpo.

Assim, ele concluiu que o timo deveria estar envolvido no desenvolvimento das células do sistema imunológico durante o começo da vida. Após outros estudos, já no final da década, Miller comprovou que o timo era responsável pela produção das chamadas células-T (de timo), componentes essenciais da resposta imune do corpo. Além de prevenir infecções, essas são as células responsáveis por atacar células cancerígenas.

Era fácil assumir, então, que o corpo não precisaria mais produzir novas células-T durante a vida adulta (afinal, o timo vai atrofiando com o tempo). Logo após a puberdade em humanos, grande parte das células do timo se transformam em tecido fibrogorduroso, que não tem função alguma. A produção das células-T afunda junto: aos 40 anos, cai para um quarto da capacidade; aos 65 anos, produz apenas 10% do que conseguia originalmente.

Daí, outra reviravolta. Em 2023, pesquisadores descobriram que pessoas que tiraram o timo depois de adultas tinham três vezes mais chances de morrer, e uma probabilidade duas vezes maior de desenvolver câncer após cinco anos da cirurgia.

Em 2026, dois estudos lançados em conjunto na revista Nature revelaram ainda mais prejuízos.

Analisando os dados de mais de 31 mil pessoas, a equipe de pesquisadores mostrou, em um dos artigos, que timos mais encolhidos estavam ligados a riscos maiores de morte, de desenvolvimento de câncer de pulmão e de problemas cardiovasculares. No outro, eles observaram que pacientes com câncer que tinham timos menores tendiam a responder pior à imunoterapia, morrendo mais após o tratamento.

Os estudos apontam correlações, então ainda não é possível dizer se foi a atrofia do timo, especificamente, que levou a essas pioras na saúde. Ainda assim, os achados despertaram o interesse de diversos pesquisadores, com uma suspeita tentadora: se o timo for mesmo esse grande marcador da saúde geral, regenerar esse órgão poderia trazer muitos benefícios à saúde.

É nisso que muitas empresas têm apostado, durante uma nova onda de investimentos que tem mirado o desenvolvimento de tratamentos capazes de rejuvenescer o timo. Nos EUA, a biofarmacêutica Intervene Immune tem desenvolvido diversos ensaios clínicos sob o comando científico do criobiólogo Gregory Fahy – que, em 1996, injetou hormônios do crescimento em si mesmo na tentativa de regenerar o próprio timo.

Nos ensaios clínicos, o protocolo é parecido (mas dessa vez em um cenário bem mais controlado, claro). Hormônios do crescimento e outros compostos são administrados em participantes quatro vezes por semana, enquanto os pesquisadores monitoram marcadores químicos do envelhecimento em seus cromossomos. Esses têm sido os testes mais promissores até agora: os participantes demonstraram uma reversão de, em média, dois anos e meio nesses marcadores.

Segundo apuração da Nature, investimentos em pesquisas nessa área já somam algumas dezenas de milhões. Em outubro do ano passado, a firma de biotecnologia Zag Bio injetou 80 milhões de dólares nessas iniciativas. Em janeiro, mais 12,4 milhões foram investidos pela empresa suíça TECregen. Fundos de investimento e empresas farmacêuticas também têm demonstrado interesse em novos possíveis tratamentos.

Por enquanto, porém, os métodos para regenerar o timo são limitados, e muitos ainda são caros ou complexos demais. Com mais destaque, a terapia de privação de andrógeno, um tipo de hormonioterapia para o tratamento do câncer de próstata, consegue aumentar a produção de células-T, e o mesmo vale para a restrição de calorias.

Outros desafios também estão postos. Terapias que envolvem hormônios do crescimento podem trazer junto os riscos maiores de câncer e picos de glicemia associados a esses fármacos, e muitos dos compostos sendo testados são injetados direto nas veias – uma inconveniência a mais. Além disso, é difícil desenvolver um tratamento que atinja apenas o timo, já que o órgão, em sua maioria, não é composto de nenhuma proteína específica apenas a ele.

Ainda assim, mesmo que pesquisadores consigam regenerar de maneira segura o timo, as pesquisas ainda não respondem qual é o real impacto que o aumento da produção de células-T poderia ter na saúde.

“É fácil perceber que o tamanho foi restaurado, mas é menos evidente se toda a funcionalidade também foi recuperada”, disse à Nature a microbiologista Ann Griffith, da Universidade do Texas. “Ainda não compreendemos plenamente como essas intervenções realmente regeneram o tecido, e estamos apenas começando a explorar esse processo. Estamos bem no início dessa jornada.”

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo