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Descubra o Sabor Único do Churrasco Japonês em Cuiabá – Cliente prepara própria comida com brasa na mesa

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Desde que abriu o Kimura Izakaya, no bairro Coophema, em Cuiabá, há quatro meses, o empresário Renato Tomohira Kimura, de 49 anos, percebeu que a churrasqueira no centro da mesa tem aproximado os clientes, reduzindo o tempo no celular e incentivando a conversa. Para ele, é uma retomada ao costume primitivo de se reunir em torno do fogo. Na brasa, cada um pode preparar sua própria porção de carne, com temperos e acompanhamentos escolhidos livremente. Além disso, o arroz japonês é servido à vontade. 


“Uso alcatra, contra filé e maminha, tenho também o yakitori que é o espetinho de frango agridoce, a língua, espetinho de coração e de peixe. Tenho legumes também: cenoura, cebola, abobrinha, berinjela e repolho, que são coisas que os japoneses comem assado. De molhos temos o japonês que é mais agridoce e o coreano, que já é mais picante. O que fiz para abrasileirar foi colocar hambúrguer”. 
Para o churrasco japonês é necessário fazer reservas e o valor é de R$ 50, sendo que os clientes podem comer à vontade. Em japonês, Izakaya significa “boteco” ou “pub”, em japonês, por isso, os clientes podem pedir pequenas porções de comida para compartilhar, acompanhadas de saquê, cerveja ou outras bebidas como o soju, que apesar de ser coreano, está entre as garrafas servidas no Kimura. 
Desde a inauguração, há quatro meses, o restaurante tem atraído visitantes de longe, impulsionado pelo boca a boca e pelas redes sociais. No início, o movimento inesperado trouxe desafios, mas, com ajustes diários, o serviço foi aprimorado, conta Renato, que não esperava a intensa movimentação de clientes. 
“No começo foi muito difícil para atender todo mundo, no primeiro dia quase fiquei louco, a casa está sempre cheia. Estamos tentando melhorar a cada dia, consertando os erros e fazendo os ajustes, estamos evoluindo”. 
“São pratos diferentes e individuais, que você tem que trabalhar em cima, não é só um buffet que você coloca e a pessoa serve. Se você vier quatro pessoas, serão quatro pratos preparados individualmente. A cada dia faço um prato diferente, mas tenho o cardápio fixo, que é o yakisoba, karague e o yakimeshi”, continua. 
Além do churrasco japonês e do cardápio fixo, Kimura também trabalha com os pratos do dia. Por exemplo, toda quarta é dia de lámen, enquanto karê é o escolhido das quintas, na sexta Renato serve guydon e katsudon. Já aos sábados, os clientes podem degustar o sobá e o zaru sobá, uma versão vegana e fria do sobá. 
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“Não tem nada de proteína animal, é um prato refrescante por ser gelado, cai bem aqui em Cuiabá por ser quente. O zaru sobá é um prato de verão lá no Japão, o sobá de Okinawa é o que fazem muito em Campo Grande (MS), é uma região que nunca morei, então fui comer esse sobá aqui, o que eu costumava comer lá era gelado”. 
Já no sushi, a proposta segue fiel à tradição japonesa, com combinações clássicas e um foco especial no atum, ao contrário da popularidade do salmão no Brasil. “Estou relutando em colocar os sushis gourmetizados, coloquei os que os japoneses comem mesmo. Coloco cream cheese se a pessoa pedir, mas tenho os combinados tradicionais, lá no Japão a variedade não é desses ingredientes como cream cheese ou geleia, a variação é o peixe”. 
A ideia de Renato é valorizar os pratos tradicionais do Japão, os que ele costumava comer quando eram preparados pela avó materna, já que teme que a cultura gastronômica seja perdida com o tempo. 
“Quero colocar mais pratos tradicionais, tem muita comida para ser apresentada e está se perdendo. Não acho as adaptações ruins, mas a gente não pode deixar o original de lado”.

A história por trás desse restaurante se conecta à trajetória de imigração dos avós paternos e maternos do proprietário, que deixaram o Japão em busca de melhores condições de vida. Quando recebe a reportagem do Olhar Conceito, Renato segura uma panela de arroz, já amassada pelo tempo de uso. Apesar de parecer um simples utensílio de cozinha, ela foi presente de casamento da bisavó para a avó dele. A panela foi passando pela família até, agora, pertencer ao empresário, que faz questão de usá-la. 
Em uma das paredes do restaurante há outra marca da história da imigração japonesa no Brasil, contada através da certidão de registro emitida em 1939, pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo. Em 1918, o avô paterno de Renato, o agricultor Saneo Murayama desembarcou em terras brasileiras na embarcação Hakata-Maru. 
“Meu avô paterno é de Hiroshima e minha avó paterna é de Kyushu, a maior parte da minha família era camponesa. Eles se espalharam pela região de São Paulo e Paraná, trabalhando em lavouras. Nós viemos para Mato Grosso, porque era uma terra promissora, estava difícil para trabalhar lá no Sul, eu nasci no Paraná”. 
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Com cinco anos, Renato, a irmã e os pais embarcaram em um pau de arara, termo usado para descrever caminhões adaptados para transportar passageiros de forma precária. Esses veículos, comuns no Brasil até algumas décadas atrás, eram utilizados principalmente por trabalhadores rurais e migrantes em busca de melhores condições de vida.
“Na época era ditadura militar, para atravessar de uma ponte para outra passava por barreiras, era toda uma aventura. Eu tinha cinco anos, mas lembro bem, minha irmã já era nascida também. É uma coisa que exige muita força e eu não teria coragem de fazer”. 
Seu pai trabalhou em garimpos, enfrentando as dificuldades de um ofício incerto, enquanto sua mãe era cabeleireira e ajudava a sustentar a família. Com a crise do garimpo nos anos 1990, a família aderiu ao movimento dekassegui, e o pai foi para o Japão trabalhar em fábricas. 
“É uma coisa complicada, você está procurando uma coisa que não é sua. Minha mãe sempre foi cabeleireira, às vezes ele tinha que pagar os peão e tinha que pegar do salão, era aquele sofrimento. Ele trabalhou no Jatobá, Poconé, Praia Grande… foram muitos. O garimpeiro encontra muito ouro, mas o ouro para garimpeiro não vira nada, não sei o que acontece, é um negócio amaldiçoado, é igual dinheiro de jogo. Você já viu jogador rico?”. 
Caminho que Renato também seguiu quando completou 16 anos. A experiência foi importante para que ele se afirmasse enquanto brasileiro ao entender a dura realidade da vida do imigrante.
“Foi uma escola da vida, fiquei lá até os meus 30 anos, aprendi bastante coisa, trabalhava em fábrica, em tudo que aparecesse, fui chapa, descarregava caminhão, não tinha educação financeira, tinha mês que no final não tinha mais dinheiro, no começo foi bem difícil. Me viciei em jogo, porque lá tem cassino, foi um mês só, depois aprendi, um tio me chamou e me aconselhou, mas naquele mês foi terrível, chegou a última semana não tinha dinheiro para comer. Perdi tudo no jogo, achava que iria recuperar. Depois disso nunca mais, fiquei só trabalhando”. 
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No Japão, percebeu que o imigrante é útil enquanto tem saúde para trabalhar, mas, ao envelhecer ou adoecer, a realidade muda. Com parte do dinheiro que ganhou no Japão, Renato conseguiu comprar uma mercearia no Coophema, bairro onde cresceu quando a família chegou ao Brasil, que mais tarde se tornaria o Empório Kimura, localizada ao lado do Izakaya.
Com essa mistura de história, cultura e gastronomia, o churrasco japonês tornou-se um ponto de encontro para quem busca uma experiência autêntica, unindo a tradição familiar à culinária japonesa.
“Com 20 anos voltei para Cuiabá, fiquei um tempo aqui e conheci minha esposa, voltei para lá e fiquei mais um tempo, depois casamos e fomos juntos. Temos dois filhos, daqui dois dias vamos fazer quase 30 anos de casados. Sempre nessa luta”.

 

Fonte: Olhar Direto

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