Que o Brasil anda chamando a atenção do mundo e do cinema internacional, não é novidade. Depois do caminho aberto por Ainda Estou Aqui no ano passado, 2026 começou com novas expectativas – e elas se confirmaram quando O Agente Secreto, de Kleber Mendonça, venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e garantiu a Wagner Moura o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama. Mas o impacto do longa vai além das estatuetas. Em O Agente Secreto, Recife não é pano de fundo, é o Brasil em seu estado mais puro.
Ambientado nos anos 1970, em plena ditadura militar, o filme acompanha Marcelo (Wagner Moura), professor e pesquisador que retorna à capital pernambucana tentando escapar da repressão. O que encontra, no entanto, é uma cidade atravessada por tensão política e ruídos do cotidiano. Fusca amarelo, ruas cheias durante o Carnaval, filas, cinemas de rua, prédios antigos… Tudo se articula para construir uma Recife que respira história e resistência.
Além de cinematográfica, Recife pode ser percorrida a pé. A seguir, veja as principais locações do filme:
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Parque Treze de Maio
É no Parque Treze de Maio que O Agente Secreto flerta de forma mais aberta com o fantástico. Em uma das áreas verdes mais tradicionais do Centro do Recife, o filme conta com uma sequência inspirada na lenda da Perna Cabeluda, um mito urbano que atravessou gerações e marcou o imaginário pernambucano nos anos 1970.
À primeira vista, a cena registra pessoas envolvidas em relações sexuais ao ar livre. Aos poucos, porém, o filme escorrega para o estranho: a narrativa passa a ser tomada por uma perna que ataca os frequentadores do parque, até que fica claro que tudo nasce da leitura de uma notícia de jornal – o que não surpreende, já que histórias como essa, ou como o célebre caso do bebê-diabo do ABC, eram comuns nas páginas impressas da década de 70.
Inaugurado em 1939, o Parque Treze de Maio surge no filme como um espaço de convivência, mas também de projeção dos medos coletivos. Lá, o extraordinário se mistura à rotina, reforçando a ideia de que, naquela Recife, a sensação de ameaça vinha também do que se dizia e se acreditava.

Cinema São Luiz
Ícone do cinema de rua recifense, o Cinema São Luiz também funciona como um personagem em O Agente Secreto (e também do longa anterior do diretor, Retratos Fantasmas). Inaugurado em 1952, ele aparece em momentos decisivos da narrativa, sendo inclusive o local de trabalho do projecionista Seu Alexandre (Carlos Francisco), sogro de Marcelo. Não por acaso, foi ali que aconteceu a pré-estreia nacional do filme.
Há uma cena especialmente marcante vista de dentro da sala, onde a janela do cinema se transforma numa espécie de tela, enquadrando a cidade de Recife em movimento. A cidade pulsa do lado de fora enquanto, por dentro, o São Luiz reafirma seu papel como arquivo vivo
Com letreiro branco e letras vermelhas, o São Luiz mantém intacto o charme art déco. As duas colunas da entrada conduzem a um interior marcado por poltronas vermelhas, vitrais coloridos que emolduram a tela e uma arquitetura pensada para impressionar antes mesmo do filme começar.
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Ginásio Pernambucano
No filme, o Ginásio Pernambucano assume o papel de local de trabalho do protagonista. Fundada em 1825, fora das telas a instituição funciona como a escola mais antiga em atividade no Brasil.
Localizado na Rua da Aurora, o prédio chama atenção pelas linhas retas e pelas janelas curvas. Em O Agente Secreto, corredores, salas e o pátio interno da escola são usados como locações para cenas centrais da trama. É ali que começa a cena de perseguição final.
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Chá Mate Brasília
Entre prédios antigos e ruas movimentadas do Centro do Recife, o Chá Mate Brasília também aparece no filme durante o momento de perseguição. Em funcionamento desde 1984, o filme se aproveitou da estética simples e do clima cotidiano do lugar para construir uma cena com o matador contratado para assassinar Marcelo.
A rua onde fica o estabelecimento, cercada por bares e comércio popular, também aparece em cenas de perseguição, ampliando a sensação de movimento e urgência do final do longa. Embalado pela repercussão do filme, o dono do local, José Pinheiro, criou uma bebida em homenagem à produção: o Agente Secreto, cuja receita leva dois ingredientes mantidos em sigilo.
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Vila Santo Antônio
Quase escondida na Rua do Riachuelo, no bairro da Boa Vista, a Vila Santo Antônio costuma passar despercebida por quem cruza o Centro do Recife. No filme, o local abriga a vila dos refugiados, onde o protagonista encontra acolhimento. Formado por um conjunto de casas construídas nos anos 1940, o espaço preserva um ritmo próprio.
A vila ganha força especialmente nas cenas com Dona Sebastiana (Tânia Maria). Com atuação natural e bem-humorada, a personagem marcou o público ao surgir na entrada do local, fumando com elegância – uma imagem que remete aos clássicos do cinema.
Embora a comunidade seja representada pela Vila Santo Antônio, o apartamento do protagonista fica no Edifício Ofir, na Zona Norte do Recife. No filme, Marcelo chega ao prédio durante o Carnaval, com uma orquestra de frevo invadindo o quintal.

Porto do Recife
O Porto do Recife também faz parte dos cenários, servindo como ponto de encontro para personagens chave. As cenas foram gravadas no terminal marítimo e em um dos armazéns do ancoradouro. É ali que a trama reúne Augusto (Roney Villela), Bobbi (Gabriel Leone) e Vilmar (Kaiony Venâncio).
Edifício Trianon
O Edifício Trianon aparece quando Marcelo observa a paisagem de Recife pela janela do cinema São Luiz. De frente para o Rio Capibaribe, na Avenida Guararapes, o prédio surge colado à Ponte Duarte Coelho, estando integrado à paisagem central da cidade.
O local já abrigou a Transportadora Campina Grande, ponto de saída de viagens rumo ao interior da Paraíba. O endereço é marcado por deslocamentos e partidas, e o filme recupera isso como um fragmento da memória urbana.
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Explore o cinema de Kleber Mendonça numa rota por Recife
É possível explorar a capital de Pernambuco pela rota cinematográfica “A cidade no cinema de Kleber Mendonça Filho”, disponível no aplicativo Roteo (disponível para iOS e Android). O percurso reúne nove pontos icônicos de Recife, conectando o visitante às cenas de O Agente Secreto e de outros filmes do diretor, como Retratos Fantasmas, Aquarius e Recife Frio. Veja os locais:
- Parque Treze de Maio – O Agente Secreto;
- Cinema São Luiz – O Agente Secreto e Retratos Fantasmas;
- Cine Teatro do Parque – palco da pré-estreia de O Agente Secreto junto com o Cinema São Luiz;
- Edifício Trianon – O Agente Secreto e Retratos Fantasmas;
- Cine Veneza – Retratos Fantasmas;
- Cine Art Palácio – Retratos Fantasmas;
- Ponte da Boa Vista – O Agente Secreto, Recife Frio e Retratos Fantasmas;
- Cinema Moderno – Aquarius e Retratos Fantasmas;
- Restaurante Leite – Aquarius.
No app, cada ponto traz um vídeo com detalhes do local e imagens das cenas dos filmes. Recursos de realidade aumentada permitem enxergar a cidade de maneira mais próxima, transformando ruas, praças, cinemas e edifícios históricos em memória viva.
A rota transforma o roteiro turístico numa imersão no Recife dos anos 1970 e nas obras do diretor. Para acessar, basta baixar o Roteo e buscar “A cidade do cinema de Kleber Mendonça Filho”, depois disso é só seguir os passos do cinema pelas ruas da capital pernambucana.
Além do Roteo, a agência La Ursa Tours oferece um roteiro que passa pelo Parque Treze de Maio e pelo Cinema São Luiz, incluindo também paradas no Ginásio Pernambucano e no Chá Mate Brasília, com histórias e curiosidades da cidade contadas por um guia de turismo (R$ 40 por pessoa).
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Fonte: viagemeturismo






