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Descubra as histórias centenárias dos casarões no Centro Histórico de Cuiabá

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2026

A partir das igrejas, casarões e becos, o Centro Histórico de Cuiabá guarda as marcas de uma cidade que começou a se desenhar ainda no século XVIII, quando ocupar esse território era também uma estratégia da Coroa portuguesa, muito além da mineração. 

Na semana em que a capital completa 307 anos, percorremos ruas estreitas para encontrar as histórias escondidas atrás de janelas fechadas, rachaduras expostas e memórias que ainda insistem em atravessar o tempo.

Nada ali surgiu por acaso. As ruas alinhadas, as casas lado a lado e os prédios administrativos mostram que Cuiabá foi pensada para durar e também foi marcada por uma formação colonial. 

“A gente tá falando de um centro histórico que ele é diferenciado […] não é qualquer cidade que está sendo construída e nem de qualquer jeito. Aqui a gente tem uma demarcação também, uma segregação racializada. Do lado de lá [Igreja São Benedito] a gente tem a população negra, que ajudou a construir toda essa arquitetura do Centro”, explica a historiadora Ana Carolina da Silva Borges, em entrevista ao Primeira Página.

Veja as entrevistas na íntegra:

Esse cenário também carrega deslocamentos. A partir do século XIX, com a mudança do eixo econômico para a região do Porto, o Centro Histórico começou a se esvaziar.

O que antes era ocupado por uma elite colonial, passou a ser reconfigurado por populações negras e grupos marginalizados, uma transformação que também redefiniu seus usos e suas memórias, hoje em boa parte abandonadas e escoradas por estacas de madeira. 

O Misc 

O atual Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc) ocupa um casarão erguido no século XVIII, um dos poucos que ainda preservam características originais como os dois pavimentos de madeira e a estrutura em formato de “U”, elementos pensados para enfrentar o calor característico da região. As paredes feitas de adobe, grossas, não são apenas uma solução técnica: carregam também saberes e técnicas de ancestrais africanos. 

No período colonial, o prédio concentrava uma das funções mais estratégicas da cidade: a cobrança de impostos. Um dos moradores emblemáticos e também responsável pela cobrança foi Alferes Joaquim Moura. 

O espaço também abrigou militares e outras autoridades, além de passar pela gestão de famílias italianas, como a Família Verlangieri, que em 1875 chega a Cuiabá e transformou o ‘Sobrado de Alferes’, como também era conhecido o casarão, no formato arquitetônico que conhecemos hoje. 

Entre seus vestígios mais simbólicos está um dos 23 poços que abasteciam Cuiabá no período, sobrevivente silencioso de uma cidade que dependia da água subterrânea para existir. Mas o Misc não se resume ao passado colonial: ele também é espaço de reinvenção.

A partir dos anos 2000, o prédio passou por abandono, chegou a ser ocupado por pessoas em situação de rua e só a partir da década de 90 é adquirido pela prefeitura e passa por um processo de revitalização em 2006. 

Hoje, abriga o acervo de Lázaro Papazian, fotógrafo armênio que registrou a cidade ao longo do século XX. Conhecido como Chau, o também cineasta chegou na capital ainda em meados de 1926, depois de um convite do Dr. Mário Correa da Costa, médico cuiabano, que durante uma passagem pelo Rio de Janeiro, conheceu as fotografias de Lázaro e o convidou para trabalhar na capital. 

O que seria uma passagem rápida se transformou em uma relação de décadas, sendo ele responsável por boa parte dos registros fotográficos da capital entre as décadas de 1960 e 1970. Todo esse material, guardado ao longo das décadas, chegou até a prefeitura em 2007, em sistema de comodato, sob a condição de receber o tratamento técnico adequado de digitalização e acondicionamento

Após abrigar militares, alferes e diferentes famílias, o agora Misc, abriga um olhar que se desloca da administração colonial para uma memória viva de uma cuiabania efervescente. 

Casarão Pedro Celestino

Também construído no século XVIII, o casarão de pé-direito alto, está localizado na na esquina da Rua 7 de Setembro, no cruzamento com a rua Voluntários da Pátria, próximo ao Misc. A arquitetura da casa também guarda estratégias para amenizar o calor, mas evidencia as camadas políticas da história cuiabana. 

O nome remete a Pedro Celestino: figuras que atravessam diferentes tempos. De um lado, o político do século XIX, ligado a disputas que marcaram a autonomia política de Mato Grosso. Entre elas a guerra pelo controle do estado que resultou na morte do então governador Totó Paes. 

De outro, o morador do século XX que, por um breve período, ocupou o espaço e transformou a própria casa em um refúgio de memórias da cultura popular e da fé. Para além de um colecionador de memórias, Celestino mantinha uma relação íntima com a religiosidade local, especialmente com a Igreja Senhor dos Passos.

“Ele era um comerciante, um curioso, que viu essa propriedade abandonada e decidiu investir, comprando vários produtos antigos. Ele guardava uma relação muito viva com a religiosidade local, sobretudo com a igreja, então lá era feitas festas que envolviam a elite cuiabana, como o chá com bolo ”, relata Ana ao retomar a história mais recente do casarão. 

Era no casarão que as festas aconteciam, desde encontros simples, com chá e bolo, até manifestações maiores que guardavam a devoção de diferentes fieis.

Hoje, o imóvel enfrenta incertezas. Após a morte de seu último morador, em 2025, permanece sem definição sobre seu futuro. Entre a possibilidade de virar museu e a falta de recursos, o casarão sintetiza um dilema ainda maior em todo o Centro Histórico: o destino das memórias quando não há políticas contínuas de preservação.

Casa Barão de Melgaço

Construída no século XIX e revitalizada pelo PAC Cidades Históricas, a Casa Barão de Melgaço carrega o peso de um personagem que extrapola a escala local: o almirante Augusto Leverger, o Barão de Melgaço.

Militar, geógrafo e historiador, ele foi figura central na defesa territorial durante a Guerra do Paraguai, além de responsável por mapear e interpretar a região do Pantanal. 

“A gente tá falando de alguém que fez vários diários, alguém que fez vários mapas […] que contribuiu para a construção dos espaços. Ele foi uma das pessoas que mobilizou significativamente o cenário político, porque chegou a ser um político de representatividade provincial no cenário nacional”, revela a historiadora Ana Carolina. 

O casarão também foi palco da institucionalização do conhecimento em Mato Grosso. Ali se consolidaram iniciativas como o Instituto Histórico e Geográfico (IHGMT), fundado em 1919 e a Academia Mato-Grossense de Letras, fundada pouco tempo depois, em 1921. 

A instituição desses dois espaços é apontada pelos especialistas como um marco para a entrada da produção intelectual local no cenário nacional.

Apesar da imponência, o espaço não se limita à memória das elites. Ele dialoga com o cotidiano cuiabano, especialmente por meio dos quintais, elemento comum aos casarões do centro. 

“Nos quintais acontecem os trabalhos coletivos, a preparação das festas, as religiosidades e os festejos, sejam eles católicos ou afro-brasileiros. O que é proibido na rua vai para dentro de casa, mas não deixa de existir”, compartilha Ana. 

Tombado como patrimônio histórico em 1998, o espaço é um dos poucos casarões que tiveram suas obras de preservação finalizadas a partir do PAC. Uma vez por mês também recebe diferentes pessoas durante os eventos “de portas abertas” da Academia, liderada por Luciene Carvalho, a primeira mulher negra eleita presidente de uma Academia de Letras no Brasil. 

Casa de Bem-Bem

Se alguns casarões guardam a memória das elites e da administração, a Casa de Bem-Bem pulsa a partir das histórias de um povo por vezes anônimo. Erguida no início do século XIX, na antiga Rua do Campo, o espaço ficou marcado pela figura de Constança Figueiredo Palma, a Dona Bem-Bem.

Tida como acolhedora e festeira, ela transformou a casa em um dos principais pontos de celebração de São Benedito a partir da década de 1970. Segundo a superintendente do Instituto Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), Ana Joaquina, no amplo quintal, tipicamente cuiabano, as festas chegavam a durar semanas e reunia diferentes camadas sociais em nome da fé e da celebração.

“A Dona Bem-bem é descrita como uma pessoa que gostava muito das festividades, era considerada uma pessoa muito receptiva. E aqui no final da década de 1970 abrigou a festa de São Benedito, realizada aqui neste grande quintal”, conta Ana.

O casarão foi uma das cidades contempladas no PAC, juntamente com a Casa Barão de Melgaço, mas em meados de de 2017 sofreu um desmoronamento severo, após um problema de execução nas obras de restauração. Na época a prefeitura chegou a ser notificada e obrigada a fazer a reconstrução do imóvel. 

A obra foi feita com o objetivo de reconstituir todas as características originais da casa, incluindo as paredes de adobe, hoje ostentada em uma moldura em uma das paredes do casarão. Durante as obras, diferentes frentes de um trabalho de arqueologia foram feitas, em especial a partir do Complexo Arqueológico do Centro Histórico. 

Entre os achados, um chaveiro da marca Ford com uma inscrição de Pedro Biancardini, francês que entre 1900 e 1920 chega a Mato Grosso e abre uma oficina mecânica na capital. Em seguida, abre uma Agência Ford, com venda autorizada de automóveis e inaugura ainda a primeira companhia de transportes terrestres da região, a Expresso Cuiabano. 

Segundo os estudos desenvolvidos ao longo da reforma, os fragmentos de louça representam a segunda maior coleção do acervo coletado durante as pesquisas arqueológicas, no casarão, demonstrando a importância desse objeto na rotina da casa. 

Ainda em entrevista ao Primeira Página, a superintendente do Iphan aponta que a arqueologia é um dos elementos que ajudam a contar uma história ainda subterrânea. 

“A gente tá num lugar que guarda muito dessa história, da formação da cidade de Cuiabá. E, durante essas pesquisas arqueológicas, o que é interessante é que a arqueologia permite acessar histórias que a historiografia tradicional, que a gente vê escrita, muitas vezes não permite. Então, aqui, os objetos retirados da casa falam muito sobre os grupos que moraram e habitaram esse espaço ao longo do tempo”, reforça Ana Joaquina. 

Entre festas, fé e cotidiano, a Casa de Bem-bem  sintetiza que por debaixo de cada casarão e na dobra de cada janela existe uma cuiabania que se revela a cada olhar atento de quem busca a história que nos constitui em 307 anos.

Fonte: primeirapagina

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