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Descubra: Amazônia abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes

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2026

A Bacia Amazônica abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce, número equivalente a cerca de 15% das espécies conhecidas no mundo. Aproximadamente dois terços desses peixes são encontrados exclusivamente na região.

Os dados estão na quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, elaborado pela The Nature Conservancy (TNC) com a participação de mais de 50 especialistas de 30 organizações. O levantamento reúne evidências científicas e conhecimentos ecológicos tradicionais para analisar a importância dos peixes e dos rios amazônicos.

De acordo com os autores, a Amazônia está entre as últimas grandes bacias hidrográficas do mundo onde ainda existe a possibilidade de evitar uma perda de biodiversidade em larga escala e preservar extensos sistemas de rios conectados. A cientista da TNC e autora principal do relatório, Fernanda Silva, defende que as medidas de conservação sejam ampliadas antes que sejam necessárias ações de restauração mais complexas e caras.

“Em todo o mundo, os esforços de conservação estão cada vez mais voltados à restauração dos ecossistemas depois que os danos já ocorreram. A Amazônia oferece uma oportunidade diferente: proteger um sistema de água doce de importância global enquanto ele ainda está em pleno funcionamento”, disse Fernanda.

Peixes contribuem para o equilíbrio da floresta

O relatório aponta os peixes como indicadores da saúde dos ecossistemas amazônicos. Eles também desempenham funções importantes para o funcionamento da floresta, além de influenciarem a alimentação, a cultura, os meios de subsistência e a economia das populações locais.

Tambaquis, pacus e matrinxãs, por exemplo, entram em áreas de floresta alagada para consumir frutos e podem transportar sementes por grandes distâncias. Outras espécies levam nutrientes e energia entre ambientes aquáticos e terrestres.

A redução das populações de peixes pode provocar efeitos em cadeia na vegetação e afetar animais que dependem deles, entre os quais estão botos, ariranhas e diversas aves.

A conectividade dos rios também é considerada fundamental. A dourada, uma das espécies analisadas, realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada. Um único exemplar pode percorrer mais de 11 mil quilômetros ao longo de seu ciclo de vida, ligando regiões de cabeceiras próximas aos Andes ao estuário do Amazonas.

Quando os rios são interrompidos, os impactos podem ser significativos. No rio Madeira, barragens bloquearam antigas rotas de migração da dourada e contribuíram para a diminuição dos estoques de peixes. O processo também levou, na prática, ao desaparecimento de uma atividade pesqueira histórica na região da Cachoeira do Teotônio.

Biodiversidade enfrenta diferentes ameaças

Apesar da grande diversidade, o estudo identifica lacunas relevantes no conhecimento sobre as espécies amazônicas. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) registra 144 espécies ameaçadas na região, enquanto outras 334 aparecem na categoria de Dados Insuficientes.

A ausência de monitoramento adequado e de maior cooperação entre os países que compartilham a Bacia Amazônica pode fazer com que os riscos sejam superiores aos atualmente conhecidos.

As ameaças ocorrem de maneira combinada. Hidrelétricas, desmatamento, poluição e pesca excessiva podem interromper a conexão entre os rios, fragmentar habitats, alterar os regimes naturais de vazão e comprometer a qualidade da água.

As mudanças climáticas podem intensificar esses problemas. Projeções reunidas no relatório indicam que a descarga anual dos rios pode cair mais de 40% em algumas áreas importantes, como as cabeceiras do Madeira.

Períodos prolongados de seca podem prejudicar a reprodução e a migração dos peixes, diminuir a quantidade de oxigênio na água e favorecer a concentração de contaminantes. Nos Andes, o aumento das temperaturas também representa uma ameaça para espécies endêmicas adaptadas a águas frias.

O garimpo representa outra fonte de pressão. Conforme os dados reunidos no estudo, a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões provocadas por atividades humanas de mercúrio na América do Sul. O contaminante pode se acumular na cadeia alimentar, e o consumo de pescado é apontado como a principal forma de exposição humana ao mercúrio na Amazônia.

Pesca é importante para a segurança alimentar

A preservação dos rios amazônicos também tem relação direta com a alimentação das comunidades. Em algumas localidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado supera 600 gramas por pessoa por dia.

O peixe está entre as fontes de proteína animal mais acessíveis para famílias de baixa renda e oferece nutrientes importantes para a saúde e o desenvolvimento.

A pesca também movimenta a economia regional. Parte expressiva dessa atividade, porém, não aparece nas estatísticas oficiais por ser artesanal, realizada em pequena escala ou destinada à subsistência.

Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente. Já a pesca ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares por ano e sustenta milhares de famílias. O relatório também destaca a participação das mulheres em diferentes etapas da cadeia produtiva e em organizações comunitárias.

Conhecimento indígena ganha destaque

O levantamento também valoriza o conhecimento acumulado por povos indígenas e comunidades tradicionais sobre os rios e os peixes amazônicos. Segundo Fany Kuiru Castro, coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), práticas locais de governança contribuem para proteger os rios e preservar sua conectividade diante das pressões existentes.

“Para os povos indígenas, os peixes não são simplesmente um recurso. Eles fazem parte da nossa identidade, dos nossos sistemas alimentares, das nossas histórias e da nossa relação com os rios vivos”, afirmou Fany.

Ela também destacou que estratégias de conservação da Amazônia devem reconhecer os direitos territoriais indígenas, respeitar os conhecimentos ancestrais e fortalecer a participação dos povos indígenas na proteção das águas que atravessam a bacia.

O relatório identificou pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. Em conjunto, essas iniciativas abrangem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores.

Segundo o estudo, essas experiências estão associadas ao aumento da abundância de peixes e da diversidade de espécies, além de benefícios econômicos e sociais para as comunidades participantes.

Conservação depende de ações integradas

Entre as medidas defendidas pelo relatório estão a proteção de rios de fluxo livre, a recuperação dos regimes naturais de vazão, a restauração de habitats e espécies, a melhoria da qualidade da água e a prevenção da expansão de espécies não nativas.

Como rios, peixes, sedimentos e nutrientes atravessam fronteiras nacionais, os pesquisadores defendem que as ações de conservação sejam planejadas em escala de toda a Bacia Amazônica. O estudo também recomenda a participação formal de povos indígenas e comunidades locais na gestão dos rios.

Para Paula Caballero, diretora administrativa regional da TNC para a América Latina, a proteção dos sistemas de água doce também produz efeitos econômicos e sociais.

“O relatório deixa claro que proteger os sistemas de água doce da Amazônia não é apenas um imperativo ambiental, mas também uma necessidade econômica e social”, afirmou.

Crédito: Agência Brasil.

Fonte: cenariomt

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