Nos recônditos de um antigo esboço de Jesus Cristo, cientistas afirmam ter encontrado rastros genéticos de um dos maiores nomes do Renascimento: Leonardo da Vinci.
Menino Jesus, como veio a ser chamado o desenho, foi feito no papel com giz vermelho entre os anos 1472 e 1476. A obra mostra a cabeça inclinada de um Cristo ainda em sua infância.
O papel é quase uma cápsula do tempo: nos poros de suas fibras, esse material absorve fragmentos de pele, suor e material genético de qualquer um que já o tenha manuseado. Analisando a superfície com um par de finos cotonetes – primeiro um úmido, depois outro seco – os cientistas coletaram amostras de DNA que podem pertencer ao próprio pintor renascentista.
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As pistas estão em sua linhagem paterna. Mais especificamente, no cromossomo Y, que (via de regra) é encontrado em pessoas sexo masculino, e é passado de pai pra filho – em certas partes, quase inalterado. Os pesquisadores afirmam ter identificado, na superfície do desenho, certas sequências do cromossomo Y condizente com aquelas encontradas em uma carta escrita por um primo do artista: ambas pertencem ao mesmo agrupamento genético de pessoas que compartilham um ancestral comum na região de Toscana, na Itália.
Mas vamos com calma: cravar as origens davincianas dessa nova amostra de DNA é uma tarefa bem complicada, e faltam muitas informações para dizer, com certeza, a quem pertencem esses rastros genéticos.
A própria autoria da obra é disputada: apesar de conter características do traço de Da Vinci, ainda é possível que ela tenha saído de um de seus aprendizes. Além disso, até encontrar sua morada atual, numa coleção privada na cidade de Nova Iorque, essa folha de modestas dimensões teve que passar pelas mãos de inúmeras pessoas.
Uma versão preliminar da pesquisa foi divulgada na plataforma BioRxiv, nesta última terça-feira (6), em formato preprint. Esse é o nome dado às publicações que ainda não passaram pela etapa da revisão de pares, na qual especialistas analisam e criticam o trabalho. No mesmo dia, um artigo da revista Science contou a história dessa empreitada.
O estudo é resultado de uma busca recheada de limitações e incertezas, conduzida pelo Leonardo da Vinci DNA Project (LDVP), um coletivo global de cientistas que, há uma década, corre atrás das pegadas genéticas deixadas por uma das pessoas mais influentes da História.
Há vários interesses por trás das investigações do LDVP. O principal tem a ver com a autenticação das obras no mercado das obras de arte. Hoje, para verificar se uma pintura é, de fato, um da Vinci, são necessários profissionais especializados no traço do artista, com o olho treinado para pegar as falcatruas. Mas algumas novas abordagens têm procurado encontrar as pegadas biológicas em suas telas.
Os cientistas também querem descobrir se o talento multidisciplinar do renascentista pode ser explicado, em parte, por algum traço genético.
Caçadores do DNA perdido
Da Vinci nasceu em 1452, no vilarejo de Anchiano, na Itália, e viveu até os 67 anos. Seu amplo legado, que vai da engenharia às artes finas, toma uma forma tácita nas 10 milhões de pessoas que, todo ano, aglomeram-se no salão que abriga a Mona Lisa, no Louvre – ou nas milhares de reproduções da Santa Ceia penduradas nas casas de vovós.
Ao todo, ele deixou no mundo menos de 20 pinturas, junto com algumas centenas de esboços, anotações e desenhos. Morreu em 1509 e foi enterrado em Amboise, na França.
E talvez estivesse aí, no cadáver, o ponto de partida mais óbvio para analisar a genética do Homem do Renascimento. Só tem um problema: durante a Revolução Francesa, seus ossos foram exumados e, provavelmente, embaralhados com os de muitos outros defuntos.
Restaram, em Amboise, apenas alguns fios de cabelo, possivelmente de sua barba grisalha – algo que o LDVP planeja averiguar. Se as idades baterem, a ideia é sacrificar mais um fio para extrair o DNA.
Na falta do corpo de Da Vinci, a outra opção mais fácil seria olhar para os genes de sua mãe, Caterina. É de nossas mães que herdamos o DNA mitocondrial, que é uma centena de vezes mais abundante que o DNA dos cromossomos. Bastaria bater o material genético das pinturas com as amostras de DNA da mãe do pintor.
O problema: quais amostras? Caterina morreu aos 16 anos, e seu túmulo nunca foi encontrado. A busca, agora, ficava em nome do pai; ou, mais precisamente, do que restou dos parentes masculinos de Da Vinci. A próxima pista estava guardada no Arquivo do Estado de Prato, na Toscana: uma carta do século 15 escrita por Frosino di ser Giovanni da Vinci, primo do avô de Leonardo da Vinci.
Quatro amostras coletadas, tanto na carta, quanto no Menino Jesus, podem conter sequências que caem no mesmo grupo de cromossomos Y: o E1b1b, uma linhagem encontrada na região de Toscana, de onde boa parte da família Da Vinci veio.
A partir daí, tudo cai na incerteza. O DNA pode pertencer ao pintor, mas também a outros vários curadores italianos que manusearam o esboço ao longo do último meio século. Não se sabe ainda.
Mesmo assim, a pesquisa ainda serve para contar a história desses artefatos e dos lugares por onde eles viajaram. Analisando a biodiversidade na superfície desses objetos, os cientistas afirmam também ter encontrado rastros genéticos de uma espécie de laranjeira muito comum nos jardins dos Médici durante o Renascimento, a Citrus sinensis. Além disso, sobre a carta, também sobraram alguns vestígios do parasita da Malária (Plasmodium malaria) endêmico na região da Toscana durante aquele período.
Fonte: abril






