Cientistas registraram pela primeira vez em vídeo o nascimento de um cachalote (Physeter macrocephalus) na natureza. O episódio raro foi filmado em julho de 2023, nas águas da Dominica, no Caribe, e deu origem a dois estudos científicos publicados nas revistas Science e Scientific Reports.
As imagens mostram, com um nível de detalhe inédito, como uma família inteira de baleias coopera durante o parto e nos primeiros minutos de vida do filhote. Os dados também sugerem a existência de assistência coletiva ao parto entre animais não primatas.
Durante décadas, o nascimento dessas baleias permaneceu praticamente invisível para a ciência. Apesar de mais de meio século de estudos sobre cachalotes, havia apenas um relato científico documentado do evento, observado à distância. Isso porque esses animais passam grande parte da vida em regiões remotas do oceano, mergulham a grandes profundidades e raramente são vistos durante momentos tão específicos de seu ciclo de vida.
A nova observação ocorreu por acaso. Em 8 de julho de 2023, pesquisadores do Projeto CETI (Cetacean Translation Initiative), que estuda comunicação de cachalotes, navegavam perto da Dominica quando perceberam um comportamento incomum em um grupo de baleias já conhecido pelos cientistas.
Normalmente, os animais estariam espalhados pelo oceano em busca de alimento. Naquele dia, porém, todos estavam agrupados e voltados para uma única fêmea chamada Rounder. Pouco depois, os pesquisadores viram um jorro de sangue na água e a ponta da cauda de um filhote emergindo. A baleia estava em trabalho de parto.
A equipe passou cerca de seis horas acompanhando o grupo, usando drones, câmeras e hidrofones (microfones subaquáticos capazes de registrar sons emitidos pelas baleias). O momento do nascimento em si durou cerca de 34 minutos, desde o instante em que as nadadeiras caudais apareceram até o filhote se desprender totalmente do corpo da mãe.
Assim como ocorre em muitas espécies de baleias, o filhote nasceu primeiro pela cauda. Isso reduz o risco de afogamento, já que o recém-nascido só precisará respirar quando sua cabeça estiver fora do corpo da mãe.
Mas o desafio começa logo depois. Diferentemente de mamíferos terrestres, um filhote de cachalote não consegue nadar imediatamente após nascer. Se não chegar rapidamente à superfície, pode se afogar.
Foi nesse momento que os pesquisadores observaram um comportamento coletivo impressionante. Em menos de um minuto após o parto, várias baleias adultas se aproximaram e ergueram o recém-nascido até a superfície, apoiando-o com a cabeça e as costas para que ele pudesse respirar pela primeira vez.
Durante cerca de três horas, diferentes membros do grupo se revezaram nessa tarefa, mantendo o filhote flutuando enquanto ele ganhava força para nadar sozinho.
Além disso, enquanto o parto acontecia, um grupo de baleias-piloto e vários golfinhos-de-Fraser se aproximaram. Os cachalotes adultos formaram uma espécie de barreira ao redor da mãe e do filhote até que os intrusos se afastassem.
“Essas descobertas reformulam fundamentalmente a maneira como entendemos a sociedade das baleias”, disse David Gruber, fundador e presidente do Projeto CETI, em comunicado. “O que estamos vendo é um cuidado social profundamente coordenado durante um dos momentos mais vulneráveis da vida.”
Rede de apoio
O nascimento ocorreu dentro de um grupo chamado pelos pesquisadores de “Unidade A”. Ele é composto por 11 baleias e inclui duas linhagens familiares diferentes, descendentes de duas matriarcas conhecidas como Lady Oracle e Fruit Salad.
As sociedades de cachalotes são organizadas principalmente em torno de fêmeas aparentadas – mães, filhas e avós que permanecem juntas por toda a vida. Já os machos costumam deixar o grupo ao atingir a maturidade e passam a viver de forma mais solitária.
No nascimento observado, havia representantes das duas linhagens femininas. Isso permitiu aos cientistas observar algo particularmente interessante: tanto parentes quanto baleias sem parentesco direto participaram do cuidado com o filhote.
O artigo publicado na Science examinou a posição, orientação e interação de cada animal durante o evento. Foi possível identificar quais baleias estavam mais próximas da mãe, quais ajudaram a sustentar o filhote e como o grupo reorganizou sua atenção ao longo do tempo.
A mãe, Rounder, permaneceu sempre próxima ao filhote. Ao lado dela estavam a avó do recém-nascido, Lady Oracle, e uma tia chamada Aurora, que participaram ativamente do apoio ao bebê. Uma baleia jovem chamada Ariel, sem parentesco com o filhote, também permaneceu por perto durante grande parte do tempo, possivelmente observando e “aprendendo” comportamentos maternos.
O único macho presente no grupo, um jovem chamado Allan, tentou se aproximar do recém-nascido logo após o parto. As fêmeas mais velhas, porém, o mantiveram na periferia do círculo.
Os dados sugerem que, entre os cachalotes, ajudar no cuidado com filhotes pode funcionar como uma espécie de “moeda social”. Ao colaborar com outros membros do grupo, as baleias fortalecem laços de confiança e aumentam as chances de receber ajuda no futuro.
Além das interações físicas, os pesquisadores também registraram mudanças nas vocalizações das baleias durante o nascimento.
Cachalotes se comunicam por meio de sequências de cliques chamadas codas. Esses padrões funcionam como uma espécie de assinatura vocal do grupo. Durante o parto, os cientistas detectaram um aumento na frequência desses cliques e alterações em seu ritmo.
Um dos padrões mais comuns registrados foi chamado de coda 1+1+3: dois cliques seguidos de três em rápida sucessão. Estudos anteriores indicam que esse tipo de vocalização pode servir para reforçar a identidade social do grupo.
Os cientistas também identificaram sons inéditos nas gravações, semelhantes a vogais humanas como “A” e “I”. A hipótese é que essas mudanças vocais estejam relacionadas à coordenação social durante o parto. Confira:
Os próximos estudos pretendem correlacionar os sons gravados com o comportamento observado nos vídeos. A ideia é descobrir o que as baleias podem estar “dizendo” umas às outras em diferentes situações.
O nascimento registrado também ajuda a entender a evolução desses comportamentos. Levantar coletivamente um filhote recém-nascido já foi observado em algumas outras baleias dentadas, como orcas, belugas e falsas-orcas. A análise evolutiva sugere que essa estratégia pode existir há mais de 30 milhões de anos, desde os primeiros ancestrais desse grupo de cetáceos.
Um ano após o nascimento, os pesquisadores voltaram a avistar o filhote junto com parte da família. O sexo do animal ainda não foi determinado com certeza, mas o fato de ter sobrevivido ao primeiro ano é considerado um bom sinal.
Essa fase inicial é uma das mais perigosas da vida de uma baleia. Filhotes enfrentam ameaças como colisões com embarcações, redes de pesca e poluição plástica.
Fonte: abril





