Muito além dos vestidos rodados, dos movimentos marcantes e das apresentações que costumam emocionar plateias, o tango é uma dança construída pela conexão entre duas pessoas. Nascido às margens do Rio da Prata e reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o ritmo argentino atravessa gerações ao unir arte, música, técnica e sentimentos em uma experiência que muitos definem como um verdadeiro estilo de vida.
Para quem vê de fora, a dança pode parecer difícil e reservada a bailarinos experientes. Porém, quem vive esse universo garante que a essência está justamente na simplicidade. Antes dos giros elaborados e figuras que encantam nos espetáculos, existe algo fundamental: o abraço, a caminhada e a conexão.
Foi essa combinação que transformou a relação da professora do Tango Vip, Camilla Marques, com a dança. Formada em Turismo e bailarina há mais de 15 anos, ela encontrou no tango uma paixão capaz de mudar os rumos da própria vida.
“Tango transformou a minha vida. Fui deixando outras atividades, passei a viver da dança e hoje ele faz parte dos meus pensamentos, do meu trabalho, do meu lazer. É muito mais do que algo que eu pratico, é um modo de vida”, afirma.
Quando a música toca, o tango fala por si. (Vídeo: Reprodução)
Embora seja conhecido pela elegância e intensidade, o tango não exige experiência prévia nem habilidades extraordinárias para quem deseja começar. Segundo Camilla, o aprendizado acontece gradualmente.
Os primeiros passos envolvem caminhadas, movimentos básicos e noções de condução. Com o tempo, o praticante passa a descobrir as diferentes vertentes da modalidade, como o tango tradicional, a milonga e a valsa argentina.
“Acho que para começar a gente só precisa vir para a primeira aula e começar”, resume.
A bailarina do grupo Tango Vip, Cristiele Rodrigues, que dança com a companhia desde 2019, acredita que a grande diferença da modalidade em relação a outros estilos está na profundidade da conexão construída durante a dança.
“O tango exige uma consciência muito grande. Você precisa estar conectada consigo mesma, com o outro parceiro e com o chão. É uma dança que trabalha muito a questão do abraço e da escuta corporal”, explica.
Tango como forma de pertencimento
A conexão emocional também é apontada como um dos motivos que levam tantas pessoas a permanecer no tango. Para o também bailarino do Tango Vip, André Reis, dançar é uma forma de expressão pessoal.
Ele reconhece que muitos homens ainda chegam à dança carregando inseguranças ou preconceitos construídos culturalmente, mas garante que essas barreiras costumam desaparecer com a prática.
“No começo existe uma dificuldade porque quem conduz precisa pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Mas depois o corpo começa a entender os movimentos e tudo passa a fluir naturalmente”, relata.
A força do tango está na conexão. (Vídeo: Reprodução)
Camilla compartilha da mesma visão e acredita que ainda existe uma resistência masculina relacionada a antigos estereótipos sobre a dança.
“Perdemos muitos homens por causa dessa ideia de que dançar não é coisa de homem. É uma pena, porque a dança oferece benefícios físicos, mentais e emocionais para qualquer pessoa”, aponta a professora.
Um espaço para todas as idades
Ao contrário do que muitos imaginam, a dança não impõe limite etário. Hoje, há praticantes de diferentes gerações compartilhando a mesma pista de dança. Entre os alunos atendidos por Camilla estão pessoas de 21 a 83 anos.
A modalidade também não exige roupas especiais para os iniciantes. O único cuidado recomendado está na escolha do calçado, já que vários movimentos exigem deslizar com facilidade pelo chão.
Mais do que técnica, quem frequenta os salões encontra oportunidades de convivência e novas amizades.
“Além das aulas, você conhece pessoas, participa de eventos e amplia seu círculo social. Dançar é vida, movimento é vida”, destaca Cristiele.
A arte de desacelerar
Em tempos marcados pela correria e pelo excesso de conexões digitais, o tango oferece justamente aquilo que muitas pessoas sentem falta: presença.
Para Camilla, a dança cria um espaço raro de atenção ao outro e a si mesmo.
“O tango é uma das poucas coisas que fazem a gente parar essa loucura do dia a dia e olhar para nós mesmos e para quem está ao nosso lado. Todo mundo deveria experimentar esse momento.”
Entre olhares, silêncios e movimentos, nasce a magia do tango. (Vídeo: Reprodução)
Entre música, tradição e movimento, a dança segue provando que sua maior força não está nos passos elaborados, mas na capacidade de transformar um simples abraço em linguagem, emoção e encontro humano.
Festival reúne campeões mundiais
Quem quiser conhecer mais de perto o universo do tango terá uma oportunidade especial entre os dias 10 e 13 de setembro, quando Campo Grande (MS) recebe a 5ª edição do Festival Caminhos do Tango.
A programação reúne alguns dos principais nomes da dança na América do Sul, incluindo os vice-campeões mundiais de tango Daniela Bravo e Lucas Guevara, da Argentina, além dos bailarinos Los Rosales, Vanessa Jardim e Mário Sérgio, Paula Emerick e Juliano Andrade, e os artistas Camilla Marques e Rafael Bittencourt.
Abertura será realizada no dia 10 de setembro, às 19h30, no Teatro Glauce Rocha, com apresentações dos casais convidados, participação da Orquestra Fontinele e da Cia Tango VIP, única companhia especializada em tango de Mato Grosso do Sul.
Nos dias 11 e 12 de setembro, o festival segue com aulas voltadas para diferentes níveis de experiência, além de jantares temáticos e bailes.
O encerramento acontece no domingo (13), na Morada dos Baís, com programação gratuita e aberta ao público, incluindo apresentações dos artistas convidados e espaço para quem desejar conhecer ou experimentar os primeiros passos do tango.
Mais informações sobre programação completa podem ser consultadas no perfil oficial do festival no Instagram, @caminhosdotangofestival, ou pelo telefone (67) 99122-6820.