Agora, nas eleiçÔes de 2026, a relevĂąncia desses autodeclarados bastiĂ”es da verdade parece ter diminuĂdo sensivelmente. Um exemplo Ă© o sistema do Google que analisa tendĂȘncias de buscas na internet. A ferramenta mostra que a quantidade de pesquisas sobre uma dessas agĂȘncias de checagem, a Lupa, atingiu seu pico entre 30 de setembro e 31 de outubro de 2022. Em 2026, o ĂĄpice foi em julho, e ainda assim com um volume de buscas 68% menor.Â
Uma das maiores mentiras propagadas no primeiro turno das eleiçÔes envolveu uma suposta medida que seria tomada por FlĂĄvio Bolsonaro caso o candidato do PL vença as eleiçÔes: tirar de Nossa Senhora Aparecida o tĂtulo de Padroeira do Brasil.Â
Repetida Ă exaustĂŁo por perfis alinhados Ă campanha de Lula, a promessa fake nĂŁo despertou o Ămpeto investigatĂłrio das agĂȘncias independentes de checagem brasileiras. A Comprova, formada por veĂculos de imprensa, publicou um artigo sobre o boato chamando a mentira de âdesinformação religiosaâ e dizendo que FlĂĄvio nĂŁo fez tal afirmação nem indicou ter feito tal movimento.Â
A agĂȘncia Aos Fatos seguiu a mesma linha, publicando um breve artigo no qual chamou o caso de uma tentativa de ârepaginar narrativas falsas de 2018 e 2022â. A mentira, porĂ©m, nĂŁo recebeu o selo de fake news, como feito com um suposto apoio do PCC e do Comando Vermelho a Lula.Â
A Lupa parece ter ignorado completamente a histĂłria, e nĂŁo traz nenhuma referĂȘncia clara em seu site ao episĂłdio envolvendo Aparecida. Em resumo: as principais agĂȘncias independentes de checagem do paĂs nĂŁo checaram uma mentira Ăłbvia, apenas comentaram o fato como mais um dos tantos temas na eleição de 2026.Â
Essa transparĂȘncia â ou a falta dela â nos critĂ©rios de anĂĄlise e julgamento do que Ă© ou nĂŁo fake news foi o tema de um estudo conduzido pelos pesquisadores Daniel de Rezende Damasceno e Edgard PatrĂcio e publicado em 2020 na revista Brazilian Journalism Research.Â
No artigo âJornalismo e Checagem dos Fatosâ, apĂłs analisarem verificaçÔes publicadas pelas agĂȘncias Lupa e Aos Fatos, os autores concluĂram que as organizaçÔes nĂŁo explicitavam adequadamente quais critĂ©rios orientavam a classificação do material verificado como verdadeiro ou falso.Â
Um dos principais resultados do trabalho foi a identificação de um problema metodolĂłgico: a dependĂȘncia extrema de dados produzidos por fontes oficiais. Para os pesquisadores essa nĂŁo deveria ser considerada como uma fonte automĂĄtica de verdades, sendo necessĂĄria muita anĂĄlise e contextualização dos dados.Â
Em resumo, o artigo aponta que sem critĂ©rios de seleção suficientemente claros, o pĂșblico tem menos condiçÔes de avaliar por que determinada declaração foi escolhida para verificação enquanto outras, potencialmente relevantes, ficaram de fora.Â
AgĂȘncia de checagem criticou serviço âanti fake newsâ criado pelo governo LulaÂ
A falta de clareza no embasamento da classificação de algo como fake news foi alvo da prĂłpria agĂȘncia Lupa em 2023. Na ocasiĂŁo, as crĂticas foram direcionadas ao portal âBrasil contra fakeâ, lançado pelo governo Lula menos de trĂȘs meses apĂłs a posse em 2023.Â
Nos primeiros sete meses de funcionamento do serviço, a agĂȘncia identificou que mais da metade das notas de esclarecimento nĂŁo seguiam princĂpios bĂĄsicos da checagem de fatos. Segundo a Lupa, as classificaçÔes nĂŁo tinham os links para as fontes utilizadas na anĂĄlise.Â
Por isso, para a Lupa, as classificaçÔes feitas pelo serviço do governo Lula nĂŁo eram transparentes quanto Ă origem da informação usada para desmentir um boato. Outro ponto levantado foi o uso extensivo de sites do prĂłprio governo para se tirar conclusĂ”es sobre a veracidade de um assunto â algo que a prĂłpria agĂȘncia foi criticada por fazer pelos pesquisadores acadĂȘmicos.Â
Protagonismo das agĂȘncias em 2022 foi baseado em bloco de âverdades estabelecidasâÂ
A falta de transparĂȘncia apontada no trabalho acadĂȘmico tambĂ©m Ă© alvo de crĂticas do pĂșblico, o que poderia explicar a queda no interesse pelas agĂȘncias de checagem. Segundo o professor da PUC-PR e cientista polĂtico Mario Sergio Lepre, a principal diferença entre as duas eleiçÔes Ă© a origem das mensagens sujeitas a contestação.Â
Ă Gazeta do Povo, ele lembrou que em 2022 qualquer discurso sobre as urnas eletrĂŽnicas, tanto as crĂticas gerais quanto os questionamentos legĂtimos, eram tachados como discurso antidemocrĂĄtico e identificados pelas agĂȘncias de checagem como conteĂșdo falso.Â
âA direita queria respostas, mas as agĂȘncias viam nessas dĂșvidas uma tentativa de golpe. E, uma vez associadas Ă Justiça Eleitoral, elas forçaram esse protagonismo consolidado em um bloco de âverdadesâ estabelecidas. Jornais foram proibidos de falar que Lula era amigo de ditadores, e uma reuniĂŁo do presidente Bolsonaro com embaixadores foi visto como abuso de poder. O jogo estava desequilibradoâ, detalhou.Â
âDireita nĂŁo precisa de carimboâÂ
Para o cientista polĂtico, nas eleiçÔes de 2026 a esquerda estĂĄ sendo a principal origem das fake news. Segundo Lepre, a direita parece nĂŁo ter a mesma necessidade de um âchancelamento externoâ sobre o que Ă© ou nĂŁo verdade, e acaba recorrendo Ă discussĂŁo pĂșblica dos temas em vez de acionar as agĂȘncias de checagem.Â
A questĂŁo envolvendo uma possĂvel retirada de Aparecida como padroeira do Brasil, alardeada pela campanha de reeleição de Lula, foi um exemplo citado pelo especialista. âEra uma mentira que foi desmentida na conversa, nĂŁo precisou acionar as agĂȘncias. NĂŁo precisou ir âao cartĂłrioâ buscar essa certidĂŁo. Ă a esquerda quem adora isso, carimbos, chancelas. A direita nĂŁo precisa disso, nĂŁo precisa de carimboâ, completou.Â
De acordo com Lepre, a principal consequĂȘncia para quem falta com a verdade em uma campanha polĂtica Ă© mais grave do que receber um selo negativo de uma agĂȘncia de checagem. Para ele, o prĂłprio eleitor e o que ele chamou de âjogo democrĂĄticoâ se encarregam de desconstruir as mentiras.Â
âQuem fala inverdades em uma campanha acaba perdendo a credibilidade por si prĂłprio ao longo do tempo. E isso acontece sem a necessidade de uma tutela do estado ou mesmo dos âcarimbosâ das agĂȘncias de checagem. Em uma democracia, eles nĂŁo tĂȘm esse poder de ditar o que pode ou nĂŁo ser ditoâ, argumentou.Â
Presença obrigatória nos debates ao vivo para manter relevùncia
Uma possĂvel saĂda para retomar o protagonismo de antes foi apresentada pela AgĂȘncia Lupa em um editorial publicado no Ășltimo dia 19: suprir a ausĂȘncia de checagem ao vivo nos debates eleitorais. No texto, a agĂȘncia fala que tenta hĂĄ mais de uma dĂ©cada viabilizar esse modelo. A ideia, porĂ©m, nĂŁo prosperou nem entre os organizadores dos debates nem entre os representantes dos partidos.Â
Em um tom de lamento, que mais do que defender a democracia deixa transparecer a insistĂȘncia por protagonismo, a Lupa alega que âo risco de desagradar um candidato parece pesar mais do que o benefĂcio de informar corretamente milhĂ”es de eleitoresâ. Soa como se a presença de seus profissionais fosse a solução natural para os problemas do debate polĂtico.Â
O editorial ainda reclama de um possĂvel obstĂĄculo jurĂdico. Segundo o editorial, a legislação eleitoral exige tratamento isonĂŽmico dos candidatos e uma checagem ao vivo poderia produzir quantidades diferentes de correçÔes, alĂ©m de exigir tempos distintos para contextualizar cada declaração.Â
A legislação eleitoral, conforme explĂcito pelo TSE, prevĂȘ que os debates sejam organizados segundo regras acordadas entre os partidos e a emissora, com comunicação Ă Justiça Eleitoral. Isso nĂŁo equivale, por si sĂł, a uma proibição geral de toda e qualquer checagem ao vivo, mas estabelece um ambiente regulado em que a isonomia e as regras previamente pactuadas precisam ser respeitadas.
Fonte: gazetadopovo





