O número recorde de eleitores com deficiência nas eleições de 2026 evidencia a ampliação da participação política desse público, mas também expõe dificuldades de acessibilidade nos locais de votação. Mesmo com adaptações e prioridade no atendimento, eleitores ainda enfrentam escadas, deslocamentos desnecessários e longas filas para exercer o direito ao voto.
Um dos casos é o de Alexandre Prudente, cadeirante que saiu cedo de casa para votar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no Maracanã, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ao chegar ao prédio, precisou subir rampas e utilizar um elevador até o oitavo andar, onde descobriu que sua seção eleitoral havia sido transferida para outro endereço.
Alexandre contou que, na eleição anterior, havia sido direcionado à Uerj, embora sua seção funcionasse anteriormente na Igreja Metodista, em Vila Isabel. Sem conseguir consultar o local de votação pela internet antes de sair de casa, ele precisou refazer o trajeto.
Depois de descer do prédio, o eleitor seguiu com o filho até a igreja, localizada a cerca de 1,5 quilômetro da universidade. No local, enfrentou filas e esperou aproximadamente uma hora para votar, apesar da prioridade assegurada às pessoas com deficiência.
O eleitor relatou que nunca havia demorado tanto para votar, mas comemorou ter conseguido concluir o procedimento. A experiência mostra que o aumento da participação eleitoral precisa ser acompanhado de medidas capazes de garantir condições adequadas de acesso e atendimento.
Recorde de eleitores com deficiência
De acordo com os dados da Justiça Eleitoral, o número de eleitores que declararam alguma deficiência passou de 1,3 milhão, em 2022, para aproximadamente 1,9 milhão em 2026, o maior contingente já registrado.
Para atender a esse público, a Justiça Eleitoral ampliou a quantidade de locais acessíveis e cadastrou 220,5 mil seções eleitorais adaptadas. No pleito anterior, eram 156,2 mil seções com essas condições.
Entre os registros de 2026, 617 mil eleitores declararam dificuldades de locomoção. Outros 319 mil informaram deficiência visual, enquanto 182 mil registraram deficiência auditiva. Além disso, 64 mil pessoas indicaram dificuldades para exercer o voto. A categoria denominada “Outros” concentrou 994.472 registros.
As adaptações têm como objetivo ampliar a autonomia dos eleitores e facilitar a participação no processo democrático. Os relatos registrados durante a votação, entretanto, indicam que a existência de seções adaptadas não elimina todos os problemas de infraestrutura e organização.
Eleitores enfrentam escadas e falta de estrutura
Na Zona Sul do Rio de Janeiro, Isaura dos Santos, de 77 anos, também encontrou dificuldades para votar. Apesar de apresentar limitações de locomoção e utilizar bengala, ela precisou subir escadas no Colégio Estadual Senor Abravanel, onde não havia elevador disponível para facilitar o acesso.
A eleitora também criticou a falta de iluminação no local e questionou as condições oferecidas às pessoas com mobilidade reduzida. Segundo ela, embora compareça regularmente às eleições, não percebe melhorias suficientes na estrutura de atendimento.
Na mesma escola, a atriz Isabela Quadros acompanhou a mãe, Maria Lídia Gomes de Matos, de 85 anos. A psicóloga apresenta limitações na fala e nos movimentos desde que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), mas decidiu participar da votação.
Isabela afirmou que o prédio não oferecia estrutura adequada às necessidades da mãe. Apesar das dificuldades, Maria Lídia conseguiu votar com a ajuda de outras pessoas e do atendimento prestado pela mesária. Emocionada ao sair do local, ela afirmou que tudo havia dado certo.
Medidas de acessibilidade da Justiça Eleitoral
A Justiça Eleitoral reconhece que garantir acessibilidade nos locais de votação é um desafio. Em informações divulgadas antes do pleito, o órgão explicou que muitos dos imóveis utilizados nas eleições pertencem a escolas públicas ou a instituições parceiras, cujas condições físicas podem sofrer alterações ao longo do tempo.
Para acompanhar essas mudanças, os tribunais regionais eleitorais (TREs) e as zonas eleitorais realizam vistorias periódicas. O objetivo é atualizar os dados sobre os prédios e identificar as condições de acessibilidade oferecidas aos eleitores.
As pessoas com deficiência têm direito a atendimento prioritário e podem entrar na cabine de votação acompanhadas por alguém de sua escolha, mesmo sem solicitação prévia. O acompanhante deve ter pelo menos 18 anos e não pode estar a serviço da Justiça Eleitoral, de partidos políticos ou de coligações.
As urnas eletrônicas também oferecem recursos de acessibilidade. Entre eles estão o teclado em braile, destinado a pessoas cegas ou com baixa visão, e um sistema de áudio que fornece instruções para a votação. Para utilizar o recurso sonoro, o eleitor deve usar os fones de ouvido fornecidos pela Justiça Eleitoral.
As informações desta reportagem têm como fonte a Agência Brasil. Os dados e os relatos apresentados reforçam a importância de manter vistorias, aprimorar a infraestrutura e assegurar que a acessibilidade seja efetiva em todas as etapas do processo eleitoral.
Fonte: cenariomt





