– O tenente da Polícia Militar Rennan Albuquerque de Melo será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri pela tentativa de homicídio de um motorista após um desentendimento no trânsito, em Cuiabá. A decisão é do juiz André Barbosa Guanaes Simões, da 12ª Vara Criminal da Capital, que também manteve o militar preso preventivamente. A sentença foi proferida na última sexta-feira (28).
O crime ocorreu em dezembro de 2025, no bairro Goiabeiras. Conforme a acusação, Rennan teria se desentendido com D.V.S. depois de ser fechado no trânsito. A discussão evoluiu para uma perseguição, durante a qual o tenente teria atingido propositalmente o veículo da vítima com o próprio carro.
Na sequência, ainda segundo a denúncia, o policial efetuou vários disparos contra o motorista. A vítima foi atingida na perna e na cabeça, mas sobreviveu.
Além da tentativa de homicídio, a investigação identificou uma suposta articulação para dificultar a apuração do caso. Rennan e a esposa, a advogada Karoline Pereira Miranda, são acusados de tentar criar uma versão falsa sobre o veículo utilizado no crime, inclusive com o registro de um boletim de ocorrência comunicando um furto que não teria ocorrido.
Outros policiais militares também teriam participado de atos destinados a sustentar a narrativa apresentada após o crime.
Durante o processo, a defesa de Rennan pediu uma perícia para comparar imagens e registros dos veículos envolvidos. O objetivo era confrontar os danos existentes nos automóveis e sustentar a versão apresentada pelo tenente sobre as colisões.
O juiz André Barbosa reconheceu que a análise poderia ter alguma utilidade, mas considerou que ela não era indispensável para que o processo prosseguisse.
“Há, portanto, diferença entre prova potencialmente útil e prova imprescindível. Não demonstrado que a diligência constituísse meio indispensável à sustentação da versão defensiva, nem evidenciado prejuízo concreto decorrente de sua ausência, não há nulidade a reconhecer”, registrou.
A esposa do tenente também é alvo da ação penal. De acordo com o Ministério Público, Karoline teria utilizado conhecimentos relacionados à profissão de advogada para tentar interferir na produção de provas e afastar a responsabilização criminal do marido.
Em junho, a juíza Mônica Perri já havia rejeitado a possibilidade de acordo de não persecução penal no caso. Na ocasião, a magistrada destacou a forma como a suposta fraude teria sido praticada.
“No caso em apreço, o Ministério Público fundamentou concretamente a negativa de proposta: a denunciada Karoline, advogada inscrita na OAB, valeu-se do conhecimento técnico inerente à sua profissão para praticar o crime de fraude processual qualificada com o objetivo de induzir a erro juiz e perito, em processo criminal, a fim de exonerar seu cônjuge — policial militar — dos crimes graves que perpetrou”, consta da decisão.
A manutenção da prisão de Rennan também leva em consideração a gravidade atribuída ao episódio e outros processos envolvendo o militar. Para a Justiça, o fato de a violência ter ocorrido após uma discussão de trânsito e a suposta tentativa posterior de esconder provas reforçam o risco representado pela liberdade do acusado.
Em decisão anterior, Mônica Perri apontou que a tentativa de criar uma versão falsa para o desaparecimento do veículo demonstraria uma ação planejada para prejudicar a investigação.
“A conduta subsequente de simular o furto do próprio veículo e cooptar terceiros para reforçar a falsa narrativa revela dolo intenso e deliberada intenção de obstruir a investigação penal”, afirmou.
Rennan acumula outros episódios sob investigação ou que já resultaram em ações judiciais. Ele responde a processo por homicídio na própria 12ª Vara Criminal de Cuiabá, além de uma ação por tortura na 8ª Vara Criminal. Também há registro de procedimento por ameaça e investigação na Justiça Militar por lesão corporal.
No início de 2025, o tenente chegou a ser afastado após se envolver em uma ocorrência de violência contra um adolescente dentro de um condomínio no bairro Santa Rosa. Segundo as informações do caso, o policial suspeitava que seu veículo tivesse sido riscado e teria agredido o jovem enquanto exigia que ele apontasse o responsável.
Outro episódio ocorreu em março de 2024. Rennan foi denunciado por agredir Lourival Valério de Farias, de 60 anos, depois de entrar na residência do idoso, no bairro Goiabeiras. O militar alegou na ocasião que investigava uma denúncia relacionada ao tráfico de drogas e que a vítima estaria interferindo na ação.
O tenente também responde pela morte de Ítalo Rafael Almeida Rocha, ocorrida em novembro de 2022, na região central de Cuiabá. Conforme a acusação, Rennan e outros dois policiais realizavam patrulhamento quando abordaram um homem, que teria indicado uma residência próxima como ponto onde havia comprado drogas. Ítalo acabou morto durante a ocorrência.
Com a decisão de pronúncia no processo relacionado à briga de trânsito, caberá agora ao Tribunal do Júri decidir se Rennan é culpado ou inocente da tentativa de homicídio. A data da sessão ainda será definida pela Justiça.
Fonte: odocumento





