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Padre Aranha: o sacerdote que utiliza histórias de heróis para conectar jovens à fé em Mato Grosso

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2026

Vestido com a fantasia do Homem-Aranha, o padre Renan da Silva Cunha poderia passar por mais um personagem de um evento de cultura pop. Em Cuiabá, porém, o herói que aparece em vídeos publicados nas redes sociais tem outra missão: convidar jovens para um encontro com a fé. A estratégia chamou atenção na internet e ajudou a esgotar as vagas de um retiro promovido pela paróquia do sacerdote.

Mais do que uma ação de divulgação, no entanto, a iniciativa revela uma característica que acompanha Renan há muitos anos: o interesse pelo universo dos super-heróis e a tentativa de encontrar, nas histórias dos heróis, caminhos para falar sobre valores da fé.

“Eu sempre gostei desse universo de super-heróis, da Marvel e da DC. A partir de uma leitura de fé, é possível extrair muitas virtudes que servem de exemplo para os jovens. Dá para conectar os dois universos: a fé católica e as histórias em quadrinhos”, explica o sacerdote em entrevista ao Portal Primeira Página.

A ideia de vestir a fantasia surgiu de maneira quase espontânea. Com o retiro se aproximando e os lançamentos cinematográficos recentes de produções relacionadas ao universo dos super-heróis, Renan decidiu conversar com os integrantes do grupo de jovens sobre a possibilidade de gravar um vídeo caracterizado como o Homem-Aranha.

A fantasia, inclusive, já estava disponível. Bruno Leite, coordenador do grupo de jovens, tinha uma e se ofereceu para emprestá-la ao padre. A relação com o personagem também não era completamente nova: Bruno é fã do herói e já havia chegado ao Brasil vestido de Homem-Aranha depois de um intercâmbio nos Estados Unidos.

A parceria entre os dois ajuda a explicar como as ideias do “Padre Aranha” saem do papel. Segundo Bruno, Renan costuma ser o responsável pelas propostas mais inusitadas, enquanto ele ajuda a viabilizar as gravações com os recursos disponíveis.

“Ele mandou a ideia e disse que precisava de uma fantasia do Homem-Aranha. Eu falei: ‘Eu tenho, padre, vamos fazer esse vídeo’. A maioria das ideias é dele. Ele é o maluco das ideias e eu fico com a parte de colocar tudo para funcionar”, contou Bruno.

O resultado foi uma sequência de vídeos que rapidamente chamou a atenção nas redes sociais e ajudou a impulsionar as inscrições para o retiro.

Um dos vídeos publicados pelo padre nas redes sociais com ajuda dos integrantes do grupo de jovens da comunidade. – Vídeo: Arquivo Pessoal

Para Bruno, porém, o impacto da iniciativa não está apenas nos números. A fantasia também ajuda a quebrar a imagem excessivamente formal que alguns jovens podem ter de um sacerdote.

“Às vezes, o jovem olha para o padre como alguém que não tem amigos, que é muito sério e que só sabe dar bronca ou falar de Igreja. Quando o padre faz isso, o jovem pensa: ‘Nossa, que padre legal’. Ele se sente mais acolhido e percebe que a Igreja não é só algo sério”, afirma.

A lógica também aparece na própria visão de Renan sobre o uso das redes sociais e da cultura pop. Para ele, o Homem-Aranha pode ser uma porta de entrada para o jovem.

“Isso é uma isca. Jesus nos chama de pescadores de homens, então precisamos de uma isca. Mas não podemos parar aí. Podemos usar essas ferramentas para atrair, mas depois é preciso levar os jovens para algo mais profundo”, afirma.

Linguagem para alcançar uma nova geração

A preocupação com a linguagem utilizada para conversar com os jovens aparece como um dos principais elementos da atuação do padre. Para Renan, a Igreja precisa reconhecer que diferentes sacerdotes possuem diferentes habilidades e formas de se comunicar.

Ele rejeita, porém, a ideia de que todos os padres precisem adotar estratégias semelhantes. Na visão dele, o trabalho deve ser coletivo, com cada sacerdote contribuindo a partir dos próprios talentos.

“Não é todo padre que vai ter essa habilidade, mas todo padre tem um dom a oferecer. É importante não criar comparações entre os sacerdotes. Cada um tem sua habilidade, seu valor e sua contribuição”, destaca.

O próprio Renan utiliza uma comparação retirada dos filmes de super-heróis para explicar essa dinâmica. Para ele, assim como acontece com os Vingadores ou os X-Men, diferentes pessoas podem contribuir para uma missão comum a partir de suas próprias capacidades.

“Somos como os Vingadores. Os X-Men são uma equipe, e cada um tem seu talento, sua habilidade. Na Igreja também é assim. Eu posso ter uma facilidade maior para me conectar com determinados jovens, enquanto outros padres podem ter uma abordagem mais intelectual e profunda”, afirma.

O Homem-Aranha e a rotina religiosa

A ligação entre super-heróis e a fé não surgiu apenas para promover o retiro. Ela faz parte da formação intelectual e religiosa de Renan e aparece em suas homilias e catequeses.

O sacerdote cita, por exemplo, o livro “Catequese dos Super-Heróis”, do escritor Carlos Neiva. A obra analisa personagens conhecidos do universo dos heróis e relaciona com as virtudes do heroísmo e à busca pela santidade.

No caso do Homem-Aranha, Renan identifica uma conexão. O personagem é marcado pela ideia de responsabilidade associada aos poderes que possui. Para o padre, essa noção encontra paralelo em um ensinamento presente no Evangelho.

“Em Homem-Aranha, existe aquela ideia de que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. No Evangelho encontramos algo muito semelhante: ‘a quem muito foi dado, muito será cobrado’. É possível estabelecer essa conexão e utilizá-la para conversar com os jovens”, explica o padre.

Ele também cita referências cristãs presentes em produções recentes de super-heróis. Em “X-Men ’97”, por exemplo, destaca o personagem Noturno, que é apresentado como um sacerdote.

Para Renan, essas conexões ajudam a demonstrar que temas como sacrifício, responsabilidade, coragem, altruísmo e busca pelo bem não estão distantes dos super-heróis, podendo ser utilizados como ponto de partida para uma reflexão religiosa.

A jornada do jornalista que virou padre

Antes de vestir a fantasia do Homem-Aranha, Renan já havia passado boa parte da vida estudando e pensando sobre a figura do herói.

Nascido no Paraná, ele se mudou para Londrina em 2010 para cursar Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Foi durante a faculdade que entrou em contato com “O Herói de Mil Faces”, obra do mitólogo Joseph Campbell que analisa padrões presentes nas histórias sobre heróis em diferentes culturas.

A leitura acabou tendo impacto na forma como o então estudante compreendia a figura de Cristo e chegou a fazer parte de seu Trabalho de Conclusão de Curso.

“Estudando esse livro, percebi o quanto Cristo reúne aquilo que podemos chamar de heroísmo de verdade. Todos esses heróis podem ser vistos, de alguma maneira, como imagens de Cristo. Essa pesquisa me tocou bastante e esteve presente também no meu TCC”, conta.

Naquele período, Renan já tinha uma vida ativa na Igreja. Mas uma viagem a Roma, em 2012, seria decisiva para sua escolha pelo sacerdócio.

A experiência com Bento XVI

Renan participou de um congresso universitário em Roma e, como admirador do então papa Bento XVI, tinha grande expectativa de encontrá-lo. A experiência que mais o marcou, porém, aconteceu durante a Via-Sacra no Coliseu.

O local, carregado de referências à história dos primeiros cristãos e aos martírios ocorridos durante o período do Império Romano, ganhou um significado ainda maior para o jovem jornalista ao observar Bento XVI durante a celebração.

O papa, então com mais de 80 anos, permaneceu de joelhos durante parte da oração. Para Renan, aquela imagem representava uma forma concreta de heroísmo.

“Eu vi o Papa Bento XVI na parte de cima do Coliseu, durante a Via-Sacra, e ele ficou quase uma hora de joelhos rezando. Um senhor com mais de 80 anos, de joelhos, rezando. Aquilo, para mim, era muito heroico”, lembra.

A experiência provocou uma mudança de direção. Ao retornar da viagem, Renan decidiu iniciar um processo de discernimento vocacional.

De ‘Hobbit’ ao seminário em Cuiabá

A mudança para Mato Grosso também foi influenciada por uma história de heróis. Ao decidir seguir para Cuiabá, Renan encontrou inspiração em outro universo que já fazia parte de sua vida: a obra de J.R.R. Tolkien.

A referência vem de “O Hobbit”, quando o personagem Gandalf convida Bilbo Bolseiro para uma aventura. O personagem inicialmente demonstra resistência, mas sente que existe algo dentro dele que o chama para aquele caminho. Renan identificou-se com a situação.

“Eu li ‘O Hobbit’ antes de tomar a decisão de vir para Cuiabá. Pensei naquela aventura do Bilbo, quando Gandalf o chama para sair daquilo que ele conhecia. Eu pensei: ‘Vou para essa aventura e vamos ver o que vai dar’. E já estou aqui como padre há cinco anos”, conta.

Ele chegou a Cuiabá em 2014 e foi ordenado sacerdote em 2021.

A fantasia também é utilizada pelo sacerdote em alguns dos encontros promovidos junto dos jovens. – Vídeo: Arquivo Pessoal

Do Instagram para as telas

Com o alcance dos vídeos, uma pergunta permanece: o “Padre Aranha” continuará aparecendo?

Renan admite que gostaria de seguir explorando esse tipo de linguagem, embora ainda não exista um projeto definido para transformar o personagem em algo permanente. A iniciativa, segundo ele, surgiu muito mais de uma vontade genuína do que de uma estratégia de marketing.

“Foi algo muito genuíno. Eu achei legal, gosto de falar de Deus por meio desse universo e tenho consciência de que isso conecta com os jovens. O engajamento aconteceu, mas não foi apenas uma estratégia premeditada para atraí-los”, explica.

O sacerdote também tem outro projeto relacionado à comunicação: estudar roteiro. A intenção é fazer um curso e, futuramente, produzir histórias mais elaboradas.

“Tenho muita vontade de um dia escrever roteiros e trabalhar com essa parte da imaginação. Por enquanto, vou fazendo essas pequenas histórias para o Instagram, mas gostaria de fazer algo bem produzido um dia”, revela.

A fantasia pode chamar atenção. Os vídeos podem gerar compartilhamentos. Mas, para o padre, o objetivo é que a jornada ultrapasse os limites da tela.

Fonte: primeirapagina

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