Em tempos cronicamente on-line, a habilidade de mexer em telas parece ser o sexto sentido humano. Crianças que nasceram na Era Digital, perdem cada dia mais o lado sensorial da vida. Cansada de ver os pequenos se perderem no scroll, a artista Kelly Figueiredo, que dá vida à Palhaça Mixirica, decidiu propor um resgate de ritmo.
Para combater a desconexão humana causada pela tecnologia diária, lançou um projeto afetuoso e, digamos, ousado para os dias de hoje: convidar as crianças (e também adultos) a escreverem cartas no papel. A resposta, promete ela, será uma resposta a cada uma das correspondências recebidas.
A iniciativa nasceu de uma memória de infância da própria palhaça. Quando era pequena, a chegada de uma carta dos tios que moravam no exterior parava a casa e gerava um ciclo de expectativa e celebração.
“Hoje vivemos em um mundo onde tudo acontece muito rápido, uma mensagem chega em um clique. Mas existe algo diferente quando uma notícia vem através do papel, de uma letra, de uma escrita feita à mão. Existe uma espera, existe tempo e uma troca mais delicada e genuína”, explica a artista.
Com 26 anos de trajetória na palhaçaria em Mato Grosso do Sul, função que assumiu por acaso em um evento de família e transformou em missão de vida, a artista enxerga na escrita livre uma oportunidade de abrir “gavetinhas de memórias” e estimular a criatividade infantil fora do ambiente virtual.
Em uma das cartas que já recebeu, o relato simples de um leitor fez a palhaça recordar uma história sobre caracóis de quando morava em Portugal, transformando o papel em uma ponte de identificação real.
Além de desacelerar a rotina dos pequenos, o projeto também reflete a garra da artista em manter viva a cultura independente no Estado.
“A cultura ainda enfrenta a precariedade das políticas públicas e a falta de uma atenção maior aos artistas. Muitas vezes não sabemos como será o amanhã, mas seguimos porque acreditamos no encontro. Uma carta pode parecer pequena, assim como uma palhaça, mas é dessas pequenas coisas que nascem grandes transformações”, destaca.
Para participar e enviar uma correspondência para a Palhaça Mixirica, o público deve entrar em contato pelo perfil oficial no Instagram. Por lá, a artista fornece o endereço para envio e orienta os pais e crianças sobre como iniciar a troca de histórias.
Nasce a Mixirica
A trajetória que hoje busca resgatar o afeto nas cartas também nasceu de um acontecimento inesperado. Quando morava em Portugal, a artista viu a personagem surgir por um acaso em uma festa infantil promovida pela empresa de eventos de sua tia.
“Minha tia ficou doente e precisava de alguém para realizar um trabalho. Ela olhou para mim e disse simplesmente: ‘Vai você’. Eu fui sem saber nada, apenas segui meu tio e me diverti. Foi ali, naquela festinha, que a Mixirica nasceu”, relembra a artista.
Desde aquele improviso, já se passaram 26 anos dedicados à arte de encantar crianças e adultos, inventando brincadeiras e encontros. Para a artista, a palhaça tornou-se uma ferramenta de vida e um refúgio para os momentos difíceis.
“A Mixirica tem um jeito muito particular de entrar em cena quando a vida fica pesada. Quando o dia está triste, ela aparece e dá um jeito de deixar tudo mais leve, me ajudando a rir de mim mesma, respirar e continuar.”
Fonte: primeirapagina





