A mato-grossense Talita Santos de Jesus, de 33 anos, sempre teve o desejo de ocupar espaços que pareciam distantes de sua realidade. Com infância marcada por dificuldades financeiras, bullying e racismo na escola, a ponto de passar talco no corpo para tentar ficar ‘branca’ e ser aceita, teve uma mudança drástica de vida ao mudar de cidade e descobrir a beleza como forma de se empoderar e ajudar mulheres.
Após vencer o Miss Petite Rondonópolis, Miss Beleza Negra em Rondonópolis, Miss Beleza do Bem e outros concursos, deixou o estado de Mato Grosso e mudou-se para Santa Catarina, onde sonha em continuar a carreira de concursos de beleza e executar projetos sociais.
Nascida em Rosário Oeste (MT) Talita passou parte da infância em uma fazenda e depois se mudou com a família para Campo Novo do Parecis. Ao chegar na nova cidade, ainda criança, a família passou por muitas situações difíceis.
“Minha infância foi marcada por muita dificuldade. Vivenciamos violência, fome, tristeza e muitas discussões dentro de casa. Éramos uma família muito humilde, e naquele período apenas meu padrasto trabalhava. Eu precisei assumir responsabilidades que não eram comuns para uma criança”, conta.
Lita, como é conhecida, teve de cuidar dos seis irmãos e ajudar dentro de casa. Em determinado momento, precisou trabalhar para ajudar a família para que não passassem necessidade.
EntrevistaFoi uma infância sofrida, mas também foi onde eu desenvolvi muita força, responsabilidade e capacidade de lutar. Hoje, olhando para trás, eu percebo que aquelas experiências, apesar de muito dolorosas, também fizeram parte da mulher que eu me tornei.
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Sonho de ser modelo
O sonho de ser modelo começou ainda na infância. Certo dia, quando estava na casa de uma colega assistindo novela, viu a atriz global Taís Araújo desfilando. “Eu não entendia muito sobre aquele universo, mas achei lindo, pensei: ‘eu quero ser como ela”, recorda.
Em determinada época, a escola organizou um desfile e Talita tentou participar. Contudo, se viu frustrada ao ouvir que não tinha perfil e que pessoas que participavam de concursos precisavam ter dinheiro.
“Também ouvi comentários muito dolorosos sobre a minha aparência e sobre a minha cor. Disseram que eu era escura demais para participar e fizeram comentários sobre o meu cabelo”, desabafa.
Com o tempo, também ouvia que “não tinha perfil ou características” para ser modelo.
“Falavam da minha cor, do meu cabelo, da minha postura e do meu tamanho. Mas aquela imagem da Taís Araújo continuava comigo. Ela foi uma das primeiras pessoas que me fizeram pensar que talvez aquele mundo também pudesse existir para mim”, relembra.
Racismo e preconceito deixaram marcas
A modelo conta que desde cedo uma das maiores dificuldades que enfrentou ao longo da vida foi o racismo. Chegou a sofrer perseguição, humilhações e até agressão, recorda.
Na escola vivenciou comentários sobre a cor da pele do sobre o cabelo. Criança, ela conta que não entendia o que era racismo, só sabia que estava sendo tratada de uma maneira diferente.
“Teve uma época em que eu queria muito ser igual às outras crianças. Eu cheguei a passar talco no meu corpo porque queria ser branca como elas. Eu acreditava que a minha cor era feia e que, se eu mudasse, talvez as pessoas me aceitassem”, desabafa.
Durante muito tempo, também alisou o cabelo porque acreditava que, se tivesse o cabelo liso e uma aparência mais próxima daquilo que as pessoas consideravam bonito, seria aceita.
EntrevistaSer uma mulher negra no mundo de hoje exige resiliência, força e jogo de cintura. É perigoso quando as pessoas tratam o racismo como frescura ou exagero. Porque ele pode deixar marcas profundas, mesmo quando essas marcas não são visíveis.
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Vida e trabalho antes dos concursos
Antes de entrar no mundo da moda e dos concursos, Talita trabalhou como babá, vendedora de sorvete na rua, carpindo lote e também em padaria. Depois, trabalhou em mercados, lojas de eletrodomésticos e também gerenciou algumas lojas.
Hoje é formada em Gestão Financeira e atualmente faz pós-graduação em Neurociência e Comportamento Humano & Neurovendas. Além da formação acadêmica, tem mais de 300 cursos e capacitações em diferentes áreas.
“Sempre gostei muito de estudar, aprender coisas novas e buscar conhecimento, porque acredito que a educação é uma das principais formas de abrir portas e criar novas oportunidades”, explica.
Segundo ela, tudo mudou quando migrou para Rondonópolis (MT) movida por uma oportunidade de trabalho. Na época, recebeu uma oportunidade de assumir uma função de gerenciamento em uma empresa que trabalhava.
“Quando cheguei e vi aqueles prédios enormes, fiquei com medo, eu realmente achava que aqueles prédios poderiam cair em cima de mim. Também foi a primeira vez que andei de escada rolante. Naquele mesmo dia, comi McDonald’s pela primeira vez, fui ao cinema e vivi coisas que nunca tinha vivido”, conta maravilhada.
Ao chegar na cidade grande achou que sua vida ia decolar, mas, infelizmente, pouco tempo depois, foi demitida. Na mesma época, cursava faculdade de Psicologia. Diante da situação financeira e profissional, precisou trancar o curso. Mas as coisas começaram a mudar.
“Comecei a enxergar novas possibilidades, conhecer pessoas que me inspiraram e construir parte da mulher que sou hoje. Uma das coisas que me marcou foi começar a ver pessoas como eu. Pessoas negras, mulheres negras com ‘cabelo black’, turbantes, ocupando espaços que eu não estava acostumada a ver”, relembra.
Segundo ela, perceber que existiam pessoas negras vivendo outras realidades a fez pensar sobre permanecer na cidade. Os concursos e espaços voltados à valorização da população negra contribuíram para essa decisão.
O começo nas passarelas
Talita conta que ao longo da trajetória, ouviu muitos ‘nãos’ e comentários que tentavam me fazer acreditar que eu não tinha potencial. Entretanto, usava das críticas como combustível para não desistir.
“Já ouvi que meu corpo só serviria para ser sambista ou garota de escola de samba, como se não pudesse ocupar outros espaços dentro da moda. Também criticavam o meu tamanho, corpo e até a minha forma de falar”, relembra.
Quando chegou ao primeiro concurso, não sabia desfilar, pela falta de experiência. Mesmo assim, estava feliz por ter chegado até lá. “Quando eu pisei naquele palco, eu pensei é isso que eu quero”, descreve.
A primeira vitória foi em 2018, quando conquistou o título de Miss Beleza Negra. Também participou do Miss Petite Rondonópolis, ficando em terceiro lugar.
“Para mim, essas conquistas representam muito mais do que uma faixa ou uma colocação. Foram a prova de que aquela menina que um dia ouviu que não tinha perfil, que não tinha características e que não pertencia àquele mundo conseguiu chegar lá”, comemora.
Da felicidade pelos títulos de miss, ela conta que prometeu que usaria a influência conquistada para fazer o bem e ajudar outras pessoas.
“Eu pedi a Deus que eu pudesse ser voz para quem ainda não tinha voz. Porque, quando uma mulher vence, ela não vence sozinha. E quando uma mulher negra vence, muitas outras mulheres negras conseguem pensar: “Eu também posso.”
Ações sociais à comunidade
Ao longo dos anos, Talita participou de diversas ações sociais. Entre elas, desfiles no Lar dos Idosos e na Casa do Adolescente, levando autoestima, alegria e representatividade para os espaços.
“Também participei de ações ligadas ao Miss Beleza do Bem, com arrecadação de alimentos, cestas básicas e apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. Além disso, participei de ações relacionadas à violência contra a mulher, oferecendo escuta, orientação e apoio a mulheres que passaram por situações difíceis”, explica.
Também participou de ações de conscientização sobre racismo e representatividade, inclusive em escolas e eventos, compartilhando um pouco da própria experiência.
Mudança para Santa Catarina e sonhos para o futuro
Para alçar novos voos, a miss teve de deixar Mato Grosso e migrar para o estado de Santa Catarina. A curiosidade pela cultura, culinária e o desafio de viver em um novo lugar a motivaram a mudança. Contudo, afirma não deixar seu estado para trás.
Eu sou apaixonada pelo Mato Grosso. É a terra do meu povo, das minhas memórias, do pacu, do pequi e de tantas histórias que fazem parte de quem eu sou. Eu posso estar vivendo uma nova fase em Santa Catarina, mas o Mato Grosso sempre vai morar em mim. Minhas raízes também estão lá, e eu vou carregar essa história comigo por onde eu passar.
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Ao chegar no novo estado encontrou o concurso Miss Beleza Negra de Santa Catarina. Com a oportunidade, a preparação para participar já iniciou, como forma de ganhar mais um capítulo em sua história.
O objetivo, conta Talita, é usar a visibilidade para continuar o trabalho social que já desenvolvia no Mato Grosso e ampliar as ações em Santa Catarina. Entre os projetos estão apoiar instituições, ONGs e, futuramente, até desenvolver uma iniciativa própria.
“Eu não quero apenas conquistar uma coroa. Quero fazer com que ela tenha significado. Quero construir um legado e, daqui a alguns anos, olhar para trás e poder dizer: ‘Eu honrei o que prometi. Eu usei a oportunidade que Deus me deu para fazer a diferença na vida das pessoas”, conclui.
Fonte: primeirapagina





