Algumas passagens bíblicas do Velho Testamento contam a história de Assur, neto de Noé. Segundo a crença religiosa, ele teria dado origem ao povo assírio, que posteriormente criou o Império Assírio. Essa civilização existiu por séculos, entre 2025 a.C. e 609 a.C., e foi uma das maiores potências da antiga Mesopotâmia. Assur também dá nome a uma das principais cidades do império e, por um período, foi sua capital.
Hoje, a cidade de Assur está localizada no território do Iraque e abriga sítios arqueológicos que ajudam a revelar, aos poucos, mais informações sobre a civilização assíria.
Uma das principais fontes históricas para entender esse povo é a famosa Lista de Reis Assírios, que apresenta uma sequência cronológica dos diferentes governantes do império. O documento, preservado em três tabuletas de argila, é considerado uma das principais referências para compreender a sucessão política dos assírios. Agora, porém, sabemos que ele está incompleto.
Uma nova pesquisa feita por cientistas da Universidade Yale, nos Estados Unidos, e da Universidade de Münster, na Alemanha, constatou que a lista não registra todos os governantes. Os pesquisadores encontraram evidências da existência de três reis assírios que não aparecem no documento: Tiglath-pileser, Shalmaneser e Aššur-uballiṭ.
Os achados foram publicados no periódico científico Journal of Cuneiform Studies
A primeira evidência diz respeito a Tiglath-pileser, que, segundo os pesquisadores, teria governado ao lado de Aššur-dān III, seu sobrinho. As informações estavam em uma tabuleta de argila pertencente ao acervo do Museu Britânico, que foi decifrada pela equipe. A imagem desta tábua está na capa da matéria.
As inscrições registram uma concessão feita pelo rei, que provavelmente governou entre 763 a.C. e 762 a.C. Ele teria sido deposto depois de levantar uma rebelião contra o sobrinho. O nome Tiglath-pileser é o mesmo de outro governante anterior que aparece na Lista de Reis Assírios, e os pesquisadores acreditam que ele possa ter adotado o nome em homenagem ao antecessor.
O segundo rei identificado é Shalmaneser, que provavelmente sucedeu Aššur-nārārī V no final de 747 a.C. Cerca de um ano depois, teria perdido o trono para Tiglath-pileser.

Seu nome aparecia em uma estela (um tipo de pedra esculpida, que você vê na imagem acima) encontrada no Iraque há mais de um século, mas estava coberto pelo de Tiglath-pileser. Por isso, a inscrição havia passado despercebida pelos arqueólogos. Veja reconstituição:

Por último, os pesquisadores encontraram registros de Aššur-uballiṭ, que teria tido um reinado bastante curto antes de perder o poder para Adad-nārārī II. Seu nome aparece em uma tabuleta (clique aqui e confira) que registra a restauração de um vaso por um monarca chamado Aššur-uballiṭ. Ele provavelmente governou entre 913 a.C. e 912 a.C.
“As novas perspectivas obtidas sobre o implacável Game of Thrones assírio demonstram que a Lista de Reis Assírios não é uma lista confiável de todos os governantes, mas sim daqueles que reinaram por tempo suficiente e com sucesso o bastante para serem incluídos por seus editores em uma ordem cronológica idealizada”, escrevem os autores no estudo.
Isso significa que a aparente completude do documento pode ser enganosa. Em vez de registrar todos os governantes que passaram pelo poder, a lista provavelmente apresentava uma versão organizada e estável da sucessão real, que não correspondia necessariamente à realidade política do império.
A descoberta, portanto, muda a maneira como os pesquisadores interpretam a Lista de Reis Assírios e abre novas possibilidades de pesquisas.
Fonte: abril





