O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem repetido, nesta pré-campanha à reeleição, o discurso utilizado no início do atual mandato para justificar os entraves na infraestrutura. Em 2023, ao lançar o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), ele atribuiu a reedição do programa ao enorme passivo de obras interrompidas herdado de governos anteriores. Números do Tribunal de Contas da União (TCU), contudo, contam outra história.

“Quando nós fizemos a transição [de governo], descobrimos que o Brasil tinha 14 mil obras paradas”, afirmou. “Nós estamos num processo, primeiro, de retomar todas as obras que estavam paradas.” E ainda prometeu: “O tempo de obras paradas acabou”.

Três anos depois, o número mudou, mas a justificativa permaneceu a mesma. Em evento realizado em junho deste ano, Lula voltou a afirmar que encontrou “mais de 6 mil obras paradas” ao assumir o governo e atribuiu a situação às “escolhas” feitas por administrações anteriores.

Creches, escolas e hospitais concentram 73% das obras paradas no país.

O diagnóstico do presidente da República contrasta com os números mais recentes do Tribunal de Contas da União. Embora o total de empreendimentos federais tenha permanecido praticamente estável — passando de 22.559 obras, em agosto de 2022, para 22.607, em abril de 2025 —, o estoque de obras paralisadas aumentou de 8.674 para 11.469 no período, um crescimento de 32%. Com isso, a participação das obras interrompidas passou de 38,5% para 50,7% do total monitorado pela Corte de Contas.

Passivo cresce mesmo com o Novo PAC

O TCU identificou R$ 15,9 bilhões já investidos em obras que permanecem paralisadas. O problema também atinge rapidamente novos contratos: das 5.505 obras iniciadas entre abril de 2024 e abril de 2025, cerca de 1,2 mil (22%) estavam interrompidas em menos de um ano.

Educação e saúde concentram 73% das paralisações no país, com 8.381 obras, entre creches, escolas e hospitais. Na área da educação, o tribunal contabiliza 4.240 empreendimentos parados, alta de 7% em relação ao início de 2023. Isso significa que 63,4% das 6.692 obras financiadas pelo Ministério da Educação (MEC) estão sem andamento.

Na saúde, a situação é ainda mais grave. O número de obras interrompidas passou de 567, em agosto de 2022, para 4.141, em abril de 2025, alta de 630%. Mais de 60% dos empreendimentos financiados pela pasta com recursos federais estão paralisados.

Em relação à pasta de Transportes, um dos casos mais emblemáticos apontados pelo TCU é a duplicação da BR-381 [https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/fundo-paranaense-vence-leilao-na-b3-para-concessao-da-br-381-em-minas-gerais/], em Minas Gerais. Iniciada em 2015, a obra já consumiu cerca de R$ 530 milhões em recursos federais e segue sem conclusão.

Bahia concentra críticas da oposição

Em números absolutos, Maranhão (1.225 obras), Bahia (926), Pará (889) e Minas Gerais (874) lideram o ranking de paralisações. Proporcionalmente, os piores índices são do Pará, onde 65,5% das obras estão interrompidas, e do Rio de Janeiro, com 64,9%. Ao todo, 14 das 27 unidades da federação têm mais da metade das obras federais paralisadas.

Na Bahia, onde 49,9% das obras federais estão paradas, o cenário é de um “esqueleto de obras inacabadas”, segundo o deputado Paulo Azi (União Brasil-BA). Ele cita como exemplos a Ferrovia de Integração Oeste-Leste [https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/ferrovia-de-integracao-centro-oeste-promete-impulsionar-agro-exploracao-mineral/] (Fiol), o Estaleiro de Maragojipe, a Ponte Salvador-Itaparica e a duplicação da BR-101, que, segundo ele, o governo “assumiu e não fez 1 km sequer”.

Na avaliação do parlamentar, o problema decorre da falta de prioridade política. “As lideranças do PT da Bahia, pelo fato de sempre estarem vencendo as eleições aqui em função da força do presidente Lula, não se sentem à vontade de exigir aquilo que o estado tem direito”, afirma.

Segundo Azi, “para eles, basta ter o apoio do presidente em todas as eleições. Acham que isso é suficiente para ganhar eleição e não têm autonomia nem vontade política de buscar as realizações”.

O deputado também critica o ministro da Casa Civil, Rui Costa. “Não tem nada que ele tenha trazido de importante para a Bahia”, diz. Azi afirma que a duplicação da BR-101 ficou estagnada na atual gestão e aponta a BR-324 como outro exemplo de abandono. Segundo ele, após um acordo de cerca de R$ 900 milhões firmado pelo governo federal com a concessionária, a rodovia permanece “abandonada, cheia de buracos” e com “engarrafamentos intermináveis”.

Entraves estruturais travam conclusão das obras

Para o economista Alexandre Manoel, da FGV Ibre, o problema é estrutural e atravessa diferentes governos. “O país tem dificuldade histórica para elaborar projetos de engenharia de qualidade, que acabam sendo produzidos ‘a toque de caixa’ e sem estudos suficientes para antecipar obstáculos técnicos”, diz.

Manoel também aponta a escassez de engenheiros qualificados no setor público. “Os nossos engenheiros bons terminam indo para o mercado financeiro ou para cargos executivos”, afirma. Ele cita ainda a complexidade dos licenciamentos ambientais como outro fator que compromete os cronogramas das obras.

Na mesma direção, o TCU aponta falhas de planejamento, atraso nos pagamentos, deficiência técnica nos estados e municípios e a priorização de novos anúncios em detrimento da conclusão de empreendimentos já iniciados. O maior problema, segundo o tribunal, é a falta de transparência. Menos da metade das obras paralisadas — cerca de 4,7 mil — possui registro detalhado sobre o motivo da interrupção.

Esse ambiente também tem sido acompanhado por órgãos de investigação. Em março deste ano, a Polícia Federal desmembrou em 25 inquéritos a investigação que culminou na operação “Coffee break”, que apura suspeitas de irregularidades na liberação e no uso de recursos do Ministério da Educação (MEC) e do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) destinados a prefeituras.

As apurações envolvem suspeitas de tráfico de influência, fraude em licitação, superfaturamento e corrupção. Entre os investigados estão Kalil Bittar, ex-sócio de Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), e Carla Ariane Trindade, ex-nora do presidente Lula.

A reportagem da Gazeta do Povo procurou a Casa Civil, que coordena o Novo PAC, o FNDE e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), para comentar os dados do TCU e informar quantas das obras anunciadas pelo programa já foram concluídas. Não houve resposta até a publicação deste texto.