Poucos segundos separaram a tensão da explosão de alegria. Diante de dezenas de delegações reunidas em Istambul, na Turquia, o anúncio do campeão do 27º Campeonato Mundial de Folclore, feito neste sábado (1º), não representou apenas a confirmação do quinto título do grupo Flor Ribeirinha, mas também um marco na trajetória do bailarino e estudante de jornalismo, Sávio Santos, de 20 anos, que até pouco tempo antes, vivia do lado de fora do palco.
Em 2023, ele assistia ao Flor Ribeirinha conquistar o tetracampeonato mundial como espectador. Dois anos depois, já vestindo o figurino do grupo, ajudou a escrever mais um capítulo dessa história, representando o Brasil diante do mundo.
A conquista ganhou um significado ainda maior por ter acontecido justamente na Turquia, país onde o grupo conquistou seu primeiro título internacional, em 2017.
Nove anos depois, o grupo retornou ao mesmo festival levando ao palco manifestações genuinamente brasileiras como o Boi-Bumbá, o frevo e, principalmente, o siriri e cururu.
Para Sávio, um dos integrantes mais jovens do grupo, a viagem começou cercada de expectativas, mas também de confiança. Segundo ele, desde a chegada à Turquia ficou evidente que a energia brasileira despertava curiosidade e entusiasmo entre o público e as demais delegações.
“O grupo chegou muito confiante no Brasil que a gente queria mostrar: um Brasil diverso, plural e com muita energia. A resposta foi muito positiva desde o primeiro desfile. Era o tempo todo ‘Brasil’, ‘Brasil’, tirando foto com a gente. Essa confiança só foi crescendo”, contou o bailarino em entrevista ao Portal Primeira Página.
O acolhimento do público foi se transformando em combustível para as apresentações. Antes da competição propriamente dita, o Flor Ribeirinha já chamava atenção pelas ruas do festival. Entre dezenas de países, o desfile de abertura virou uma celebração espontânea em torno da delegação brasileira.
No palco, porém, era preciso transformar toda energia em desempenho. O grupo escolheu duas apresentações para disputar o campeonato: um espetáculo de Boi-Bumbá e uma apresentação de siriri. A decisão, segundo Sávio, sintetizava exatamente o Brasil que eles queriam apresentar ao mundo.
“O siriri foi uma das noites mais mágicas que a gente viveu. A gente sabe de onde vieram essas músicas, esses instrumentos, essas histórias. Ver tudo isso chegando à Turquia e recebendo uma resposta que nenhum outro país recebia foi muito emocionante”, disse o estudante.
Mesmo assim, a segurança construída ao longo dos dias não eliminou a ansiedade da competição. Ao redor, delegações experientes dividiam o mesmo espaço. Enquanto alguns países impressionavam pela precisão dos movimentos, o Flor Ribeirinha apostava justamente no que considera seu maior diferencial: a capacidade de emocionar.
O anúncio da vítória
Quando o apresentador anunciou o Brasil como campeão, toda a tensão desapareceu em poucos segundos. A ansiedade deu lugar a comemoração, que carregava mais do que felicidade pela medalha.
Para Sávio, aquele resultado também simbolizava o reconhecimento de centenas de pessoas que ajudam a construir o Flor Ribeirinha longe dos holofotes, como costureiras, músicos, artesãos, coreógrafos e moradores da comunidade que mantêm viva uma tradição passada entre gerações.
“Quando anunciou Brasil em primeiro lugar, foi o ápice da minha vida. É a certeza de que todo o trabalho e todo o amor que a gente coloca nisso vale muito a pena. É um sonho que a gente realiza representando muita gente. Desde os figurinos até as músicas, os instrumentos e as coreografias. Toda vez que a gente para para pensar, a gente ainda arrepia”, declarou o bailarino.
Veja o momento do anúncio:
“Aqui ninguém chama a gente de Cuiabá, chamam de Brasil”
Para Sávio, uma das maiores descobertas da viagem aconteceu longe do palco. Durante o festival, ele percebeu que, para o público internacional, as fronteiras entre cidade, estado e região desaparecem. O grupo deixa de representar apenas Cuiabá ou Mato Grosso e aos olhos do mundo, passam a representar um único país.
Essa percepção tornou ainda maior o senso de responsabilidade carregado pelos bailarinos durante cada apresentação. Segundo Sávio, essa experiência tornou a conquista ainda mais especial por apresentar um Brasil muito além dos estereótipos.
“As pessoas pensam no Brasil, no Rio de Janeiro, no samba. E ter essa troca é muito grande. É um sentimento de responsabilidade e de muito cuidado por entender o que tudo isso significa”, reforçou o estudante.
Da plateia para o palco
Muito antes de vestir o figurino do Flor Ribeirinha, Sávio já conhecia o grupo como tantos outros cuiabanos: assistindo às apresentações nas festas tradicionais da cidade. Filho de um festeiro de São Benedito, cresceu vendo o siriri e cururu ocuparem as ruas, mas seu caminho como bailarino começou em outro universo, o das danças acadêmicas.
Durante anos, dedicou-se ao balé clássico e ao jazz. Foi somente no fim de 2023, quando o Flor Ribeirinha abriu uma audição para novos integrantes, que enxergou a possibilidade de aproximar duas histórias que, até então, caminhavam separadas: a do artista que estava se formando e a da cultura popular que sempre esteve ao seu redor.
“Eu estava saindo do ensino médio, querendo coisas novas. Quando abriram a audição, eu falei: ‘Ah, gente, vou fazer’. Fiz e entrei”, relembrou.
Ao chegar pela primeira vez à sede do Flor Ribeirinha, no quintal onde nasceu uma das maiores referências da cultura popular mato-grossense, Sávio percebeu que estava entrando em um espaço carregado de memória.
“Lembro claramente de chegar no quintal e ver a Vovó Domingas pela primeira vez. Pensei: ‘Meu Deus, eu estou no quintal dela, estou na sede do Flor Ribeirinha’. Desde ali eu já tinha muita dimensão da grandiosidade que aquilo poderia vir a ser”, contou.
A aprovação na audição foi apenas o começo. Os dois anos seguintes, segundo ele, foram de intenso aprendizado. Não apenas sobre dança, mas sobre pertencimento, identidade e cultura. O grupo acabou transformando também a forma como enxergava a própria cidade.
“Amadureci profissionalmente, pessoalmente, enquanto artista e enquanto jornalista. Foi um processo muito identitário. Sempre fui cuiabano, mas não tinha essa visão do que era ser cuiabano realmente. Fazer parte do Flor me trouxe consequências muito afetivas e identitárias”, disse.
Reconhecimento global
Para quem vive a rotina do grupo, cada viagem internacional também é entendida como uma oportunidade de mostrar ao mundo que a cultura mato-grossense possui características próprias e merece ocupar os grandes palcos.
Enquanto muitos estrangeiros associavam imediatamente o Brasil ao futebol, ao samba ou ao Rio de Janeiro, o Flor Ribeirinha respondia apresentando um país ainda mais amplo, diverso e plural, onde também cabem o siriri, o cururu, a viola de cocho e as histórias da comunidade de São Gonçalo Beira Rio.
Para Sávio, a vitória não é apenas a realização de um sonho individual ou simplesmente a confirmação da excelência artística do grupo, mas a certeza de que uma manifestação cultural nascida às margens do rio Cuiabá pode emocionar pessoas dos quatro cantos do planeta.
O jovem, que agora divide um pedaço da história com seus colegas veteranos, leva consigo a consciência de que, quando o Flor Ribeirinha sobe ao palco, já não dança apenas por uma comunidade ou estado, mas por um país inteiro.
Veja o vídeo de uma das apresentações do Flor Ribeirinha no 27º Campeonato Mundial de Folclore:
Fonte: primeirapagina





