Quando a ciência parecia colocar o fim da epidemia de HIV ao alcance, um novo alerta acendeu o sinal vermelho. Relatório divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) aponta que a redução dos investimentos e das ações de prevenção ameaça reverter décadas de avanços e pode levar a um novo crescimento dos casos no mundo.
O aviso está no relatório “Unidas e Unidos para acabar com a AIDS”, divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.
Segundo o documento, a combinação entre cortes no financiamento internacional, redução dos serviços comunitários e desigualdade no acesso à prevenção ameaça colocar em risco décadas de avanços conquistados no enfrentamento da doença.
Embora o número de novas infecções e de mortes relacionadas à AIDS esteja no menor patamar dos últimos 30 anos, a agência afirma que o objetivo de acabar com a epidemia como ameaça à saúde pública até 2030 depende de decisões tomadas agora.
Em 2025, foram registradas 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570 mil mortes relacionadas à doença em todo o mundo.
Avanços não chegaram a todos
O relatório mostra que alguns países conseguiram reduzir drasticamente a transmissão do vírus. Sete deles diminuíram em quase 80% o número de novas infecções desde 2010, enquanto outros 11 alcançaram a meta internacional conhecida como 95-95-95, que prevê diagnóstico, tratamento e supressão viral para a maioria das pessoas vivendo com HIV.
Apesar desses resultados, o cenário ainda é desigual.
Em 2025:
- três regiões do mundo registraram aumento das novas infecções;
- 21 países tiveram crescimento no número de casos;
- cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda estavam sem tratamento;
- quase metade das crianças infectadas não teve acesso à terapia antirretroviral.
Para o UNAIDS, esses dados mostram que o combate ao HIV continua dependente da manutenção dos investimentos em prevenção, diagnóstico e tratamento.
Novos medicamentos mudam a prevenção
Entre os destaques do relatório estão os avanços considerados mais promissores desde o surgimento da terapia antirretroviral. Além dos comprimidos preventivos já utilizados em diversos países, novas tecnologias estão prestes a ampliar as opções de proteção contra o HIV. Entre elas estão medicamentos injetáveis de aplicação mensal e, principalmente, o lenacapavir, administrado apenas duas vezes por ano e que apresentou eficácia próxima de 100% nos estudos clínicos.
Também estão em desenvolvimento comprimidos de uso mensal. Para o UNAIDS, essas tecnologias representam uma mudança histórica na prevenção da infecção, com potencial semelhante ao de uma vacina. O desafio, porém, continua sendo garantir que elas cheguem às pessoas mais vulneráveis.
“Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça”, afirmou a diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima.
Brasil amplia prevenção, mas enfrenta obstáculo
O Brasil aparece entre os países que ampliaram o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP). Segundo o relatório, o número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos pelo menos uma vez no último ano cresceu 41%. Apesar disso, o país ainda enfrenta dificuldades para disponibilizar o lenacapavir em larga escala.
Embora tenha participado dos ensaios clínicos do medicamento, o Brasil não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária que permita reduzir os preços ou produzir versões genéricas. Diante desse cenário, o governo brasileiro estuda recorrer ao licenciamento compulsório.
O relatório lembra que a iniciativa internacional para distribuição do medicamento pretende alcançar 3 milhões de pessoas até 2028, mas estima que cerca de 20 milhões precisariam ter acesso à prevenção medicamentosa para reduzir significativamente a transmissão do vírus.
Menos dinheiro ameaça décadas de progresso
O principal motivo de preocupação apontado pelo UNAIDS é a queda dos investimentos internacionais. Em 2025, a assistência oficial ao desenvolvimento registrou redução de 23%, a maior já contabilizada. Os recursos destinados especificamente ao combate ao HIV caíram de US$ 8,8 bilhões para US$ 7,3 bilhões, o menor patamar em quase 20 anos.
Segundo o relatório, diversos países africanos dependem desses recursos para financiar mais de 90% das ações de prevenção e tratamento. Ao mesmo tempo, organizações comunitárias responsáveis por atender populações vulneráveis perderam grande parte do financiamento.
Um levantamento realizado em 47 países identificou redução de:
- 50% nos serviços de apoio à prevenção e ao tratamento;
- 85% nos serviços voltados a homens gays e outros homens que fazem sexo com homens;
- 82% nos programas destinados a profissionais do sexo;
- 72% nos serviços para vítimas de violência baseada em gênero.
Em alguns países, os recursos para compra de preservativos foram reduzidos em mais de 90%.
Criminalização dificulta combate ao HIV
Além da falta de recursos, o relatório alerta para o avanço de leis que criminalizam populações mais vulneráveis à infecção.
Hoje, segundo o UNAIDS:
- 168 países criminalizam o trabalho sexual;
- 152 criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas;
- 66 criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo;
- 14 criminalizam pessoas trans.
Para a agência, essas medidas afastam as pessoas dos serviços de saúde e dificultam o controle da epidemia.
Meta continua sendo acabar com a AIDS até 2030
Apesar dos desafios, o UNAIDS afirma que ainda é possível colocar fim à AIDS como ameaça à saúde pública nesta década. A nova estratégia global prevê colocar 40 milhões de pessoas em tratamento, ampliar o acesso à prevenção para 20 milhões de pessoas e reduzir drasticamente o estigma, a discriminação e as barreiras legais.
Se essas metas forem cumpridas, a agência estima que será possível evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.
Fonte: primeirapagina





