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Descubra: Brasil tem montanhas! Novo critério do IBGE explicado

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2026

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o livro O Homem e a Serra (1963), clássico dos estudos topográficos brasileiros, o engenheiro e geógrafo Alberto Ribeiro Lamego escreveu sobre a relação entre as pessoas e o relevo – e qual a influência disso na história do País.

Um exemplo é a diferença entre a colonização no Rio de Janeiro e em São Paulo. Os portugueses subiram a serra paulista antes da fluminense, mas não porque os que estavam em SP eram mais ousados. O terreno ditou os rumos da ocupação. 

O litoral de São Paulo, com uma faixa estreita entre a Serra do Mar e o oceano, e rodeada por manguezais, oferecia pouco espaço para a expansão portuguesa. Era diferente do Rio, onde havia a Baía de Guanabara (ótima para o vaivém de pessoas e mercadorias) e uma margem mais favorável à ocupação.

Aos paulistas, restou subir a serra em busca do planalto onde hoje está a Região Metropolitana de São Paulo, que tinha melhores condições para estabelecer plantações e vilas. 

Lamego escreveu sobre isso, com um português de 60 anos atrás: “Bloqueados num lagamar de área restrita e à beira de uma costa onde as montanhas, quando não mergulham diretamente no oceano, sobem com abruptas encostas de imensos pantanais, começam logo os colonos em sua ânsia de terras a escalar a cordilheira”.

Por mais que Lamego tenha usado a palavra “montanhas”, essa classificação passou décadas em debate. Uma discussão que, com o tempo, pendeu para o outro lado: você provavelmente aprendeu na escola que o Brasil é um país sem montanhas. Que elas são coisas muito, muito altas – do nível do Himalaia e dos Andes. E que por aqui temos, no máximo, morros e picos.

Os estudos geográficos no País mudaram muito desde que Lamego escreveu o livro sobre as serras, quarta parte de uma tetralogia publicada a partir dos anos 1940. E, após muito debate, os geógrafos brasileiros chegaram à conclusão, em pleno 2026, de que, sim, nosso território tem montanhas.

Mas o que aconteceu? Os picos da Neblina, 31 de Março, Bandeira, Pedra da Mina, Agulhas Negras não são montanhas? Ou melhor, não eram e agora são? E o Dedo de Deus, o Monte Roraima, as Pedras da Gávea e do Baú, são o quê?

Isso não quer dizer que o Brasil tinha sido “rebaixado”. O que mudou é que agora, por aqui, há um consenso científico do que é uma montanha.

Por que o ouvido entope quando subimos ou descemos a serra?

Conceito importado

No século 19, no Reino Unido, cartógrafos criaram uma definição simples ao estudar o relevo britânico: montanha era uma elevação com pelo menos 1.000 pés (304,8 metros) acima do relevo ao redor – que poderia ser um vale, uma planície, um planalto, uma profusão de morros ou até mesmo o mar. O mais importante era ter, pelo menos, três encostas com inclinação acentuada.

O conceito chegou ao Brasil. “A cartografia inglesa era a mais influente na época, então essa definição foi adotada por profissionais de outros países, inclusive consta no Dicionário Geológico Geomorfológico brasileiro”, explica Antônio Paulo de Faria, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Homem de chapéu e camisa verde, com a mão no queixo, observa montanhas roxas e um céu alaranjado com nuvens brancas, em meio à vegetação verde escura.

Nos anos 1930, geomorfólogos como Lamego consideravam o Brasil um território com montanhas. Nas décadas seguintes, os estudos ganharam corpo com os trabalhos de Aroldo de Azevedo, Aziz Ab’Saber e Francis Ruellan, diz Faria, que também é um montanhista experiente. Mas o conceito de montanha foi se perdendo. 

Azevedo dividiu o relevo em planaltos e planícies, levando em conta a altitude. Ab’Saber adicionou os processos geomorfológicos na análise: nas planícies, predomina o acúmulo de sedimentos; nos planaltos, a erosão.

Com o passar do tempo, houve, segundo Faria, um problema de falha de interpretação, porque havia poucos estudos voltados à realidade do relevo brasileiro. Em 1989,

Jurandyr Ross, baseado nesses trabalhos pioneiros e nos relatórios do Projeto RadamBrasil (mapeamento por radar do território nacional, implementado nos anos 1970 e 1980), propôs um novo desenho do relevo do País, com 28 partes divididas em planaltos, planícies e depressões.

Infográfico com o título LISTA OFICIAL e a descrição das cinco formas básicas do relevo brasileiro segundo o IBGE: Planície, Planalto, Tabuleiro, Montanha e Superfície Rebaixada
(Caroline Aranha/Superinteressante)

Parte dos geólogos e geógrafos seguia esse raciocínio e considerava que o que forma montanhas é a orogenia, o movimento das placas tectônicas. Foi assim que surgiram, por exemplo, as grandes cadeias montanhosas chamadas de dobramentos modernos, como os Andes, o Himalaia e os Alpes. 

Elas recebem esse nome porque aconteceram entre 120 milhões e 50 milhões de anos atrás (ontem para a Terra, que tem 4,5 bilhões de anos) e porque o choque das placas “dobra” o solo: um dos nacos de terra afunda, o outro sobe e nascem as montanhas. Que nem o morrinho que se forma quando você aproxima dois lados de um tapete. 

Como no Brasil não existe um tectonismo ativo, logo não haveria montanhas no País. Mas outros acreditavam que as montanhas podem surgir de processos distintos, para além da orogenia.

As novas definições

Em um congresso de geografia física realizado em Fortaleza (CE), em 2019, Rosangela Botelho, geógrafa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sugeriu a criação de um sistema de classificação de relevo semelhante aos que já existem para o solo e os seres vivos (1). Isso porque a nomenclatura ainda causava divergências.

O IBGE, com a colaboração do Serviço Geológico do Brasil (SGB), da União da Geomorfologia Brasileira (UGB) e de universidades, formou uma comissão para implementar essa metodologia atualizada. Cerca de 70 geógrafos e geólogos participaram do trabalho, que foi concluído este ano. Foi assim que se chegou ao consenso de que existem montanhas no Brasil.

Quando estamos em uma região serrana, não parece haver dúvidas. Mas a verdade é que, por mais que haja esforços de parte da comunidade científica, ainda não existe uma definição global para o que é uma montanha. A evolução da discussão no Brasil também não é exclusiva. No Reino Unido, a definição mudou com o tempo. Lá, em termos de altitude, para ser montanha não basta mais ter 1.000 pés, mas 2.000 (610 metros). 

“O relevo não mudou, o que mudou foi o entendimento do que é uma montanha de forma oficial”, diz Lucas Krein Rademann, geógrafo especializado em geomorfologia e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Ele explica que, até o momento, só formações relacionadas a dobramentos modernos eram consideradas como montanhas. Por isso, havia resistência em usar a nomenclatura no Brasil, onde não há esses dobramentos. “O que temos aqui são grandes cordilheiras antigas que foram dissecadas, ou seja, desgastadas pela erosão, preservando áreas mais elevadas que a vizinhança.”

A hipótese mais aceita diz que nossas montanhas brotaram não do movimento das placas (como Andes e cia.), mas do soerguimento, o processo de subida da litosfera, a camada sólida mais externa do planeta, que inclui a crosta terrestre. Há 480 milhões de anos, o território brasileiro tinha picos tão altos quanto o Himalaia, mas o desgaste do tempo reduziu sua altitude. Houve também deslocamento. Há 70 milhões de anos, uma movimentação vertical de blocos formou o relevo da Serra do Mar. 

14 estados brasileiros têm montanhas, segundo a nova definição. O campeão é Minas Gerais, seguido de Roraima.

Além de resgatar a ideia de que o Brasil tem montanhas, a comissão do IBGE introduziu outras mudanças. A palavra “depressão”, que designa relevos planos com inclinação suave, foi aposentado, por ser considerado impreciso. Agora, fala-se em “superfície rebaixada”, que designa terrenos mais baixos que os vizinhos. Em termos de cobertura do território, essa atualização é muito mais importante do que a que diz respeito às montanhas, porque as depressões cobrem 60% do Brasil.

O IBGE deverá apresentar ainda em 2026 o mapa atualizado do País, sintetizando os estudos dos últimos anos. 

As montanhas brasileiras

Com as definições atualizadas, 14 estados têm montanhas. O Rio de Janeiro é onde elas são mais comuns, ocupando cerca de um terço do território. Mas as maiores áreas montanhosas ficam na Bahia, em Minas Gerais e no Ceará.

Há montanhas também na Paraíba e em Pernambuco, onde fica Triunfo, cidade serrana a pouco mais de 1.000 metros de altitude, com uma temperatura mínima média de 15 ºC em julho – no meio do sertão.

Homem sorridente com mochila e bandeira do Brasil, segurando uma placa Montanha no topo de um pico rochoso, com outras montanhas e um pôr do sol alaranjado ao fundo
(Ina Gouveia/Superinteressante)

Muitos lugares que antes eram denominados planaltos agora são regiões montanhosas. Caso da Região Serrana do Rio e da área então conhecida como Planalto das Guianas, no Norte do Brasil. Não há áreas planas no topo do relevo de Petrópolis, Teresópolis e região – logo, são montanhas. Mas, no caso do Planalto das Guianas, Faria lembra que a sua formação mais famosa, o Monte Roraima, não é uma montanha. “O topo tem cerca de 10 km de comprimento e largura de até 5 km. Ou seja: é muito amplo (são 50 km², caberia uma cidade), além de extremamente acidentado. Seria mais apropriado considerar o Monte Roraima um grande platô”, explica. “Mas o Planalto das Guianas é, na verdade, uma das áreas montanhosas mais extensas do País.”

Já o Maciço do Urucum, em Corumbá (MS), com 1.065 m de altitude, era classificado como planalto. Porém, seu topo só parece plano. Na verdade ele tem cristas, então passou a ser a única montanha sul-matogrossense. 

A maioria das montanhas brasileiras fica nas serras, mas há também as que ficam em maciços. Serras são antigos terrenos elevados, cortados por falhas geológicas entrecruzadas. Elas podem se estender por áreas maiores que os maciços, que, por sua vez, são conjuntos compactos de montanhas. Ilhabela (SP), por exemplo, é um maciço insular com 29 montanhas. A Tijuca, incrustada na cidade do Rio, é um maciço também.

Dois polígonos concentram as montanhas brasileiras. Um fica entre São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. Segundo um levantamento de Faria, somente em uma pequena área de 1.000 km² na Serra da Mantiqueira, entre São Paulo, Minas e Rio, existem 74 montanhas. 

O outro polígono atravessa Amazonas, Roraima e Pará. “O Norte foi muito pouco estudado, devido às dificuldades técnicas e de acesso. Só recentemente foi possível fazer inventários, graças a novos recursos tecnológicos”, explica Faria. “Hoje sabemos que Roraima é o segundo estado com o maior número de montanhas, atrás de Minas Gerais.”

A importância da medida

“Então os acadêmicos e especialistas concluíram, em 2026, que aquilo que eu vejo na serra e chamo de ‘montanha’ desde sempre é uma montanha. Qual é a relevância disso?”, talvez você pergunte, com uma dose de cinismo. A conclusão pode soar óbvia, mas a medida é importante porque padroniza um entendimento científico, o que fortalece políticas públicas que vão desde a gestão de riscos até o turismo.

“Haverá mudanças no ensino da geografia nas escolas, com uma nova perspectiva da visão do território nacional, redefinindo os mapas de relevo estudados atualmente”, diz Rademann. Para o professor da UFSM, as áreas agora designadas como montanhas poderão integrar políticas de combate a deslizamentos e outros desastres do tipo, ao haver delimitação de áreas prioritárias com base na classificação do relevo. 

Faria cita também que isso pode influenciar o poder público a levar a sério a topografia ao planejar obras de infraestrutura e a ocupação de áreas de risco. “A maioria das nascentes dos rios fica nesse tipo de ambiente. Montanhas têm paisagens com vista ampla, cachoeiras, florestas, fauna e atividades esportivas”, diz, lembrando da importância da decisão para a divulgação de destinos turísticos.

O Brasil é predominantemente plano. É assim que o país é reconhecido lá fora e, muitas vezes, aqui dentro. Podemos associar Rio de Janeiro, Bahia ou Ceará muito mais às praias, mas eles também são estados montanhosos. As novas definições do IBGE talvez ajudem a mudar essa percepção, e nosso pico mais alto simboliza tal visão.

Com 2.995 m de altitude e 2.795 m de altura, o Pico da Neblina, ou Yaripo (seu nome na língua yanomami), no norte do Amazonas, é, segundo Faria, “geológica e morfologicamente muito parecido com as montanhas imponentes dos Alpes. Se ele fosse coberto por neve e gelo, geólogos e geógrafos não teriam dúvidas em defini‑lo como montanha”.

Fonte (1) Revista Pesquisa Fapesp.

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo