A Diocese de São Luiz de Cáceres comunicou que o Cardeal Dom João Braz de Aviz, Arcebispo Emérito de Brasília, deve conduzir o ato de beatificação do padre Nazareno Lanciotti neste sábado (13), às 9h, na cidade de Jauru (MT).
A vinda de Dom João Braz de Aviz ocorre após cancelamento da viagem ao Brasil do cardeal italiano Marcello Semeraro por motivos de saúde. Prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, foi nomeado pelo Papa Francisco em 2020, e lidera processos de beatificação e canonização na Igreja Católica.
Ao Primeira Página, o padre Evandro Stefanello, um dos organizadores do ato informou que a expectativa é que entre 10 e 15 mil pessoas participem. Haverá transmissão ao vivo pelo canal do YouTube.
Segundo ele, a maioria dos visitantes deve chegar a Jauru em caravanas e cerca de 330 voluntários são preparados para atuar na organização. Como a cidade não comporta a quantidade de visitantes, a orientação é de hospedar-se em cidades vizinhas. Uma praça de alimentação será preparada para o dia 13 e o comércio também está se organizando para fornecer alimentação.
“A cerimônia representa um marco histórico para o Estado de Mato Grosso, que terá seu primeiro beato reconhecido oficialmente pela Igreja. Padre Nazareno Lanciotti dedicou sua vida à evangelização e ao serviço pastoral, tornando-se uma referência de fé, compromisso social e testemunho cristão”, citou.
⛪🙏 Programação da Beatificação do Padre Nazareno Lanciotti
Confira a programação oficial das celebrações e atividades preparadas para a beatificação do Padre Nazareno Lanciotti.
18h
Cenáculo Mariano e Confissões
Momento de oração mariana e confissões individuais.
19h
Missa do Sagrado Coração de Jesus
Presidida por Dom Maurício, bispo de Rondonópolis-Guiratinga e vice-presidente do Regional Oeste II de Mato Grosso.
7h
Acolhida dos Peregrinos
Recepção dos fiéis e visitantes para as celebrações da beatificação.
7h30
Cenáculo Mariano
Momento de espiritualidade e oração mariana.
9h
Missa Solene da Beatificação
Celebrada pelo Cardeal João Braz de Aviz. A coleta será destinada ao Lar Imaculado Coração de Maria, fundado pelo Padre Nazareno.
Após a missa
Bênção do Memorial
Cerimônia de bênção do Memorial do Padre Nazareno Lanciotti.
14h
Visita aos Espaços Históricos
Visitação aos locais ligados à missão e trajetória do Padre Nazareno.
7h30
Missa em Ação de Graças
Celebrada pelo padre Thiago Bruno no Santuário Imaculado Coração de Maria, utilizando a liturgia própria dos mártires.
Etapas de santidade
A beatificação é a quarta etapa antes de se tornar santo. Atualmente, o padre Nazareno Lanciotti é considerado um mártir. O reconhecimento ocorreu em abril de 2025.
A confirmação do martírio foi feita pela Santa Sé e promulgada por decreto do Papa Francisco. Segundo o Vaticano, o sacerdote foi morto por ódio à fé, em decorrência de sua atuação pastoral e de sua luta contra injustiças sociais na região.
✝️📜 As etapas para se tornar santo
A beatificação do Padre Nazareno Lanciotti representa a quarta etapa do processo oficial da Igreja Católica rumo à canonização.
Servo de Deus
É o início oficial do processo de beatificação. A causa é aberta após uma investigação diocesana sobre a vida, missão e virtudes do candidato.
Venerável
O Papa reconhece oficialmente que a pessoa viveu de forma heroica as virtudes cristãs, como fé, esperança, caridade, prudência, justiça, fortaleza e temperança.
Mártir da Fé
Reconhecimento de que a morte ocorreu em razão da fé cristã. Para mártires, a comprovação de milagre não é exigida para a beatificação.
Beato
Proclamação solene feita pelo Santo Padre, autorizando o culto público ao Padre Nazareno em âmbito regional ou nacional.
Santo
Canonização solene pela Igreja Católica Universal. Nesta fase é necessária a aprovação de um segundo milagre ocorrido após a beatificação.
Quem foi padre Nazareno
Nascido em 3 de março de 1940, filho do pedreiro Giacomo Lanciotti e da dona de casa Antonietta, foi ordenado sacerdote em 1966, exerceu seu ministério em Roma. Com cinco anos de ministério migrou para o Brasil como missionário em 1971, ficando alguns meses na cidade de Poxoréu (MT).
Em janeiro de 1972 deslocou-se para Jauru (MT), fronteira com a Bolívia, onde fundou um apostolado missionário na devoção à Virgem Maria.
Fundou a Paróquia Nossa Senhora do Pilar, criou 57 comunidades eclesiais rurais com adoração eucarística diária, e liderou a construção de um hospital com 50 leitos com ajuda vinda da Europa.
O sacerdote ainda construiu a casa de repouso para idosos “Coração Imaculado de Maria”, abriu uma escola com centenas de crianças, fornecendo educação e alimentação, e instituiu um seminário menor.
Em 1987 ingressou no Movimento Sacerdotal Mariano (MSM) e foi nomeado diretor nacional no Brasil, realizando viagens frequentes para organizar encontros de oração e consagração ao Imaculado Coração de Maria, acompanhando o Padre Stefano Gobbi, fundador do MSM.
Dedicou-se intensamente aos mais pobres, criou obras sociais e atuou fortemente contra injustiças, como o tráfico de drogas e a exploração da prostituição. Seu trabalho pastoral tornou-se incômodo para grupos criminosos.
Documento obtido pelo Primeira Página junto ao Arquivo Nacional mostra que o padre chegou a ser monitorado na época da Ditadura Militar no Brasil.
Relatório timbrado como confidencial pelo Serviço Nacional de Informações – Agência Rio de Janeiro, de 29 de outubro de 1984, mostra o nome do padre Nazareno Lanciotti e seu endereço constam em lista junto ao nome de outros religiosos italianos “ligados ou não a entidades brasileiras que objetivam instruir, amparar ou subvencionar em parte, movimentos populares”.
Outro relatório, do Conselho de Segurança Nacional, sobre viagem realizada ao Estado de Mato Grosso em 1988 consta o nome de Nazareno Lanciotti como diretor do hospital filantrópico sob direção religiosa. Na época, a cidade com então 13 mil habitantes tinha apenas dois médicos, não tinha ambulância e casos graves eram encaminhados a Cáceres.
Um terceiro documento, também de viagem a cidade, mostra que o padre é indicado como o administrador do seminário local de Jauru, contando com cerca de 15 seminaristas e presidente do único hospital da cidade. O padre chega a ser descrito por sua participação em conflitos agrários.
“É considerado muito ativo e trabalhador. Por ocasião dos acontecimentos envolvendo Posseiros e Policia em finais do ano passado, tomou partido dos primelros”, diz trecho.
Atentado e morte
Na noite de 11 de fevereiro de 2001, o padre Nazareno Lanciotti foi atingido por um tiro na nuca, durante assalto à Casa Paroquial da Igreja Nossa Senhora do Pilar. Ele foi gravemente ferido por dois criminosos encapuzados que invadiram o local.
Segundo informações veiculadas no Diário de Cuiabá, o assalto aconteceu por volta de 21 horas. O padre jantava na Casa Paroquial em companhia de alguns amigos quando a residência foi invadida pela dupla.
De acordo com as testemunhas, os homens mandaram que Nazareno abrisse o cofre da igreja. Ele argumentou que a paróquia não tinha cofre. Insatisfeitos, os assaltantes fizeram roleta-russa com os amigos do religioso mas não roubaram o dinheiro que tinham no bolso.
Um dos assaltantes disparou na nuca de Nazareno e a bala alojou-se na coluna cervical. Conforme um dos padres que estava no local, antes de atirar o assassino chegou a dizer “eu sou o demônio e você nos incomoda muito”. Segundos antes, Nazareno ofereceu a vida a Cristo e Nossa Senhora.
No dia seguinte ao crime, Nazareno foi removido de avião para o Hospital das Clínicas, em Cuiabá. No dia 13, o foi transferido para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Sírio Libanês.
Não resistindo aos ferimentos, o sacerdote morreu aos 61 anos de idade, no dia 22 do mesmo mês, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo (SP).
Velório e martírio
O corpo do padre Nazareno foi transladado de São Paulo para Cáceres e levado em carro aberto para a Catedral de São Luiz, onde foi celebrada missa de corpo presente. Em seguida, o corpo foi encaminhado para Jauru, onde o padre foi velado na quadra da Paróquia Nossa Senhora do Pilar.
O funeral ocorreu em 24 de fevereiro de 2001. Seu velório reúniu milhares de fiéis de várias partes de Mato Grosso. O corpo de Nazareno foi sepultado em Jauru, cidade onde viveu por quase 30 anos.
Somente um ano depois do crime dois homens apontados como matadores do padre foram presos. Um deles foi capturado em Cuiabá, e o outro preso em Goiânia (GO). Os homens foram identificados como Antônio Martins da Silva e Vanderlei de Souza.
Supostos mandantes do crime não foram identificados ou presos. Embora o crime, inicialmente tenha sido tratado como latrocínio, a população local, até hoje, acredita em crime por motivação política e religiosa, já que nada foi roubado na época.
A memória do padre segue na cidade e nos fiéis até os dias de hoje.
Sua vida foi retratada no documentário Servo de Deus – Padre Nazareno Lanciotti.
Fonte: primeirapagina





