Saúde

Desafios logísticos e culturais na vacinação em áreas indígenas: entenda as dificuldades e soluções

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2026

Equipes de saúde que atuam no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus enfrentam obstáculos geográficos e culturais para garantir a vacinação de cerca de 11 mil indígenas em aldeias espalhadas entre Acre, Amazonas e Rondônia.

Na região vivem povos das etnias Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá/Huni Kuin, Madiha/Kulina e Manchineri. Ao todo, são 155 aldeias com populações entre 30 e 300 habitantes, onde o português divide espaço com línguas indígenas de diferentes troncos linguísticos.

O deslocamento até as comunidades varia conforme o clima e as condições do território. Em alguns períodos, o acesso pode ser feito por caminhonetes ou barcos. Em situações mais difíceis, as equipes recorrem a quadriciclos, botes e helicópteros.

Além da distância, os profissionais precisam lidar com especificidades culturais de cada povo. Segundo o coordenador do DSEI Alto Rio Purus, Evangelista Apurinã, o diálogo é essencial para que o trabalho avance nas aldeias.

De acordo com ele, algumas comunidades exigem negociações específicas antes de qualquer ação de saúde. Entre os povos Madijá e Kulina, por exemplo, as equipes precisam adaptar o atendimento ao ritmo da comunidade. Já entre os Jamamadi, decisões coletivas dependem da liderança do principal clã local.

As ações de vacinação são organizadas a partir de polos-base espalhados pela região. Como não há unidades permanentes em todas as aldeias, profissionais passam até 40 dias em atendimento itinerante dentro dos territórios indígenas.

Outro desafio é a conservação das vacinas. Os imunizantes precisam permanecer armazenados entre 2°C e 8°C para manter a eficácia. Para isso, as equipes utilizam freezers instalados em barcos, caixas térmicas e bobinas de gelo durante todo o percurso.

A enfermeira Kislane de Araújo Dias, responsável técnica pela área de imunizações do DSEI Alto Rio Purus, explica que o planejamento das ações é feito com base em um censo vacinal atualizado das famílias atendidas.

Segundo ela, o levantamento permite calcular a quantidade exata de doses necessárias em cada aldeia e organizar estratégias de busca ativa para alcançar moradores que ainda não receberam vacinas.

A capacitação das equipes também faz parte da estratégia para ampliar a cobertura vacinal. A enfermeira Evelin Plácido, que atuou em territórios indígenas e atualmente oferece treinamentos na área de imunização, afirma que o planejamento logístico precisa ser detalhado para evitar perdas de vacinas e garantir a segurança do atendimento.

Ela destaca ainda a importância da comunicação adequada com as comunidades indígenas. Segundo a profissional, não basta dominar técnicas de vacinação sem compreender a realidade cultural das populações atendidas.

Kislane reforça que as equipes são orientadas a realizar rodas de conversa antes das campanhas de imunização, explicando às comunidades os benefícios e a importância das vacinas na prevenção de doenças.

O curso de capacitação citado na ação foi realizado em Rio Branco, no Acre, com apoio da farmacêutica MSD, fornecedora de vacinas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). O treinamento reuniu profissionais que atuam em áreas indígenas e localidades remotas.

As dificuldades de acesso já impactaram diretamente a saúde das comunidades. Em 2024, durante a seca histórica na Amazônia, uma aldeia da região registrou um surto de influenza que resultou na morte de duas crianças.

Na ocasião, governos federal e estadual anteciparam a vacinação contra a gripe no território, utilizando transporte aéreo e embarcações menores para alcançar as residências.

Além da influenza e da covid-19, povos indígenas de áreas remotas também recebem vacinação preventiva contra a raiva devido ao maior risco de contato com animais silvestres.

A profissional Natália Diniz, que atua em Boca do Acre, no Amazonas, afirma que o trabalho exige longos períodos longe de casa, mas destaca a importância do respeito às comunidades durante o atendimento.

Segundo ela, os profissionais de saúde precisam entender que entram nos territórios indígenas como convidados e devem respeitar os costumes e a rotina das famílias atendidas.

Fonte: cenariomt

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