O documentário Capim, dirigido por Júlia Munhoz e Caio Pimenta, foi selecionado para a 2ª ECOA – Mostra Socioambiental de Cinema de Manaus. A produção leva para as telas a história do povo Xavante de Marãiwatsédé, em Mato Grosso, e o dilema vivido pela comunidade entre preservar a própria cultura e buscar formas de sobrevivência econômica dentro do território indígena.
A ideia do documentário nasceu em 2022, quando Júlia foi convidada a ir até a Terra Indígena Marãiwatsédé para produzir uma reportagem sobre a situação enfrentada pelo povo Xavante. Uma viagem exigiu mais de mil quilômetros de estrada e resultou, inicialmente, em uma série de cinco reportagens.
Segundo a diretora, no entanto, ainda durante a primeira visita, ficou claro que as matérias jornalísticas não seriam suficientes para contar a dimensão daquela história.
“Logo no primeiro dia, eu e o Caio Pimenta percebemos que as reportagens não seriam suficientes. Um tempo depois, soube do edital da Lei Paulo Gustavo para diretor estreante e vi que era uma oportunidade para contar a história desse povo por meio de um documentário”, contou Júlia.
Ao todo, foram quatro anos de trabalho, com duas idas às aldeias da terra indígena, uma em 2022 e outra em 2025. A produção também envolveu pesquisa documental e uma equipe pequena, mas dedicada. O projeto foi contemplado por um edital com investimento de R$ 150 mil.
O título Capim surgiu a partir de uma ideia de Severino Neto, que também contribuiu com o roteiro. Dentro da narrativa, o capim aparece como elemento central para a sobrevivência da comunidade.
“Para o povo de Marãiwatsédé, o capim é o que os mantém. É de onde eles tiram o sustento para as mais de 20 aldeias e quase duas mil pessoas que vivem na terra indígena”, explicou a diretora.
O filme mostra uma comunidade que tenta manter viva a cultura, a história e a relação com o território, ao mesmo tempo em que enfrenta dificuldades econômicas. De acordo com Júlia, os próprios caciques relatam essa preocupação: como preservar a cultura e, ao mesmo tempo, garantir condições de sobrevivência.
Ela destaca que, mesmo sem o apoio necessário do poder público, o povo Xavante buscou alternativas. Uma delas é permitir apenas o uso do capim por parceiros, sem que eles mexam na terra.
Durante as gravações, um dos momentos mais marcantes para a diretora ocorreu ainda na primeira viagem, em 2022, durante um ritual realizado em um cemitério, com a presença de várias crianças.
“Eles me explicaram que é uma forma de manterem vivas as memórias e as lutas dos que já partiram. Mas foi doloroso ver e saber que alguns morreram por fome ou por doenças facilmente tratáveis. Morreram porque, sem o uso do capim, não tinham recursos para o básico”, relatou.
Para Júlia, levar essa história de Mato Grosso para uma mostra socioambiental em Manaus tem um peso especial. Segundo ela, o documentário ajuda a dar visibilidade a um povo que precisa ser ouvido e não pode ser esquecido.
A diretora espera que o público saia da sessão com uma reflexão sobre preconceitos historicamente naturalizados contra povos indígenas e sobre o direito dos Xavante de Marãiwatsédé de viverem com dignidade em seu território.
“Povos como os Xavante de Marãiwatsédé só querem o direito de viver em suas terras com dignidade. Para eles, Marãiwatsédé não é só a terra. É tudo”, afirmou.
A produtora responsável é a Paralelo 15 Filmes. A direção é assinada por Júlia Munhoz e Caio Pimenta. O roteiro é dos dois, ao lado de Severino Neto. A produção executiva é de Bárbara Varela e Carla Pial, com direção de fotografia de Caio Pimenta e Paul Mark, som direto de Matheus Campione e montagem de Marcos Maia. Além da Caru Roelis da Dona Olga Produtora que nos auxilia na estratégia para os festivais.
Fonte: primeirapagina




