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Feiras de Arte em Cuiabá: Transformando a cidade em um polo de criatividade com peças artesanais exclusivas

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2026

Em vez de vitrines padronizadas e cheias de produtos feitos em escala industrial, centenas de cuiabanos têm buscado peças feitas à mão nas feiras criativas de Cuiabá. Entre acessórios de miçanga, roupas autorais, cerâmicas artesanais, bordados e obras da nova geração de artistas mato-grossenses, eventos como a “Feira do Vinil e Criatividades” e o “Bazar na Vila” revelam uma mudança silenciosa no modo de consumir e trabalhar na capital, movimento que faz produtores do setor apostarem em 2026 como “o ano do feito à mão”.

Nessas feiras, não é raro encontrar a artesã indígena Liliane Coury, de 39 anos, sentada atrás da mesa tomada por pulseiras, anéis e brincos coloridos que produz na marca Fogo Fátuo, criada por ela em 2024. Liliane passa até 10 horas por dia costurando as miçangas, que são importadas da República Tcheca com uma linha de poliamida.

“São várias horas fazendo pulseiras e brincos, tem um período realmente que cansa o corpo. Eu não usava óculos antes de começar a costurar, depois precisei começar a usar, foi um investimento de R$ 500, senão não conseguiria costurar por um longo tempo. São de 8h a 10h costurando, as vezes isso vai variando quando minha esposa não está trabalhando em um emprego formal”.

Liliane nasceu em Manaus e mora em Chapada dos Guimarães (MT), com a esposa, desde abril do ano passado. Cada peça produzida por ela carrega um pouco de uma trajetória atravessada pelos rios amazônicos e pela tentativa de transformar arte em autonomia financeira. A mudança do Amazonas, inclusive, foi em parte motivada pela dificuldade com a logística dos insumos.

“Voltar para o Mato Grosso [estado que morou durante um ano pela primeira vez em 2022] foi uma escolha, gostei de Chapada dos Guimarães, vi possibilidades e conexões. No Amazonas os rios são como as estradas, algo que influencia na logística de tudo e isso é muito central no trabalho de economia criativa”, explica.

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A escolha de viver de arte foi por uma necessidade de trabalho, conta Liliane, que encontrou na economia criativa uma forma de ser uma “artesã viajante”, já que consegue trabalhar com as peças produzidas na Fogo Fátuo em qualquer lugar do mundo, desde que consiga ter acesso aos insumos necessários.

“Comecei a viajar por conta da arte. Mostrou a possibilidade para mim, que era do Amazonas, que saí pouco do meu estado, conhecer muitos lugares do Brasil. Eu poderia fazer arte ao mesmo tempo que estava viajando. Fui entendendo o que era a profissão de artesão, porque não é só fazer e vender, tem toda uma construção”.

“Fiz Ciências Sociais na Universidade Federal do Amazonas, deixei o mestrado, não foi fácil, mas foi a melhor decisão que tomei. Saí de cientista para artista”.

A logística continua sendo parte central do trabalho, inclusive na hora de colocar preço em cada uma das peças, já que as miçangas usadas por Liliane são importadas e o custo do material varia conforme dólar e frete. No interior do Amazonas, por exemplo, ela chegou a pagar dois transportes diferentes para conseguir receber os insumos.

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“Quando eu morava em Eirunepé, no Amazonas, eu precisava mandar para o Acre, porque se fosse mandar por Manaus, por conta da logística dos rios e da seca, seriam de dois a três meses para pegar uma cor de miçanga. Eu precisava mandar para uma fronteira do Acre e pagava dois fretes porque precisava pegar um táxi aéreo. Toda essa logística precisava ser contabilizada”.

Algumas vezes, Liliane ouviu que o preço de um dos brincos ou colares estava “muito caro”, julgamento que, segundo ela, ignora tudo que existe por trás do trabalho manual. Para a artesã, o feito à mão também representa uma alternativa à lógica de consumo e descarte rápido da produção em massa do fast-fashion das grandes lojas de departamento, por exemplo.

“Quero que você tenha uma peça que dure muitos anos, quero que ela adorne você por muito tempo e que você não se arrependa de pagar R$ 200. Comecei a entender que quando colocava um brinco de miçanga me sentia linda, forte e protegida. Eu adornei meu corpo e agora adorno o corpo de outras pessoas”.

“Quando uma peça é feita é para, realmente, ficar muito tempo na terra e não ser descartada, quando você compra em grandes lojas de departamento, logo vai ser descartado e não temos planeta B”, completa.

O hobby de colecionar discos de vinil foi o que deu início ao sebo Tcha Por Discos, que fica na avenida Edgar Vieira, no bairro Boa Esperança, em Cuiabá, mas já funcionou em um dos quartos da casa do casal de empreendedores e realizadores da Feira do Vinil, Priscila Leventi e Max Amorim. Além de organizarem o evento que reúne mais de 40 expositores, incluindo música e gastronomia, eles também participam do circuito de feiras criativas com a venda dos discos de vinil.

Criada em 2015, a Feira do Vinil tinha como nicho a venda de discos e antiguidades. Com o tempo, os artesãos começaram a procurar o casal para expor produtos feitos a mão e o evento incorporou o “Criatividades”, abrindo espaço para diferentes segmentos da economia criativa.

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“Tornou-se uma feira vitrine para todos os setores, uma rede em que os consumidores e expositores acabam se indicando. Mas isso vem de uma construção de dez anos. Quando falamos em economia criativa é todo mundo, é o músico, porque ele vai fazer uma camiseta, imã ou chaveiro, como as pessoas que fazem produtos artesanais”, explica Priscila.

As edições da Feira do Vinil e Criatividades foram suspensas em março de 2020 por conta da pandemia da covid-19. A retomada aconteceu dois anos depois, em outubro de 2022, com a 23ª edição. De acordo com dados do Itaú Cultural, o artesanato foi o segundo setor da economia criativa mais afetado pela pandemia da covid-19, chegando a perder quase 50% dos postos de trabalho.

Agora, eles se preparam para a 34ª edição, em agosto deste ano. Para o casal, que sonha com um circuito de feiras criativas, o “boom” do feito à mão aconteceu de forma gradual durante esse período e, agora, começa a florescer em Cuiabá. “As feiras estão se tornando mais presentes e permanentes, não vai ser um ‘boom’ que vai passar. Queremos um circuito de feiras”, afirma Max.

O que o casal responsável pela Feira do Vinil e Criatividades observa na prática encontra eco nos dados nacionais. Segundo o Itaú Cultural, o setor da economia criativa atingiu quase 8 milhões de trabalhadores no ano passado, maior número da série histórica, iniciada em 2012.

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Priscila e Max realizam a Feira do Vinil e Criatividades em Cuiabá que tem registrado aumento dos consumidores, chegando a bater mil pessoas por evento

“Max sempre acreditou na economia criativa, há muito tempo ele estuda sobre isso, ele sempre diz que a galera é muito criativa e fértil. Quem participa de feira é muito criativo, são vários segmentos que você pode consumir da economia local. A gente também consome muita coisa da galera daqui, isso vai gerando renda. Tem expositor que já não participa mais das feiras, já está dando aulas e só atende por encomendas. Cada segmento tem frentes para crescer e as feiras ajudam nesse crescimento”, aponta Priscila.

Muitos dos expositores acabam inspirando os clientes que passam pelo evento e possuem o artesanato como hobby a também participarem das feiras criativas. Max conta que muitos dos empreendedores acabam deixando empregos CLT para se dedicarem integralmente aos pequenos negócios.

O que vale mais, nesses casos, é investir em algo que gere retorno financeiro sem abrir mão da realização profissional e identificação pessoal. “Escutamos muitas histórias de pessoas que começaram negócios como hobby”.

O feito à mão como ativo econômico

A superintendente de Desenvolvimento da Economia Criativa da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel), Keiko Okamura, ressalta que a economia criativa precisa ser encarada como um ativo econômico capaz de gerar renda, movimentar cadeias produtivas e criar novas possibilidades de trabalho. Segundo ela, o fortalecimento do setor ganhou impulso durante e após a pandemia da covid-19, quando muitos trabalhadores transformaram hobbies artesanais em pequenos negócios.

“A pandemia começou a fazer com que as pessoas buscassem novas alternativas de empreender dentro dessa configuração de isolamento. Algumas pessoas que tinham hobbies artesanais começaram a tirar isso da gaveta e comercializar de forma mais sistemática e mais organizada, para além do hobby. Algumas pessoas que identifiquei transformaram isso pós-pandemia em empreendimentos que deram certo, se reorganizaram com essa questão da venda online, tiraram as vontades e desejos do papel”.

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Keiko explica que, a partir da pandemia da covid-19, editais para estimular o desenvolvimento e o fortalecimento dos negócios criativos, ligados a atividades artísticas e culturais começaram a ser lançados pela Secel e pelo MT Criativo, programa do Governo de Mato Grosso que reúne sete secretarias com um conjunto de ações para o desenvolvimento da economia criativa no estado. Entre eles, estavam ações financiadas com recursos da Lei Paulo Gustavo, que também contemplavam feiras de economia criativa em diferentes municípios do estado.

“Não é só quem trabalha com cultura que ganha com cultura, a cultura não é só um recurso que fomenta essa produção, mas é um investimento que tem retorno para o Estado”, destaca.

Investir recursos públicos na economia criativa foi como um divisor de águas para a Feira do Vinil e Criatividades que, com acesso aos editais lançados pela Secel, viu o público aumentar consideravelmente, além da possibilidade de incrementar a programação com oficinas, por exemplo.

“Já batemos mais de mil pessoas, começamos a bater esses números no ano passado por conta das leis de incentivo, por isso os editais públicos são importantes, para que a gente consiga trazer mais visibilidade para a feira”, conta Priscila.

Segundo Keiko, os editais promoveram, através do investimento de recursos, a possibilidade dos empreendedores se organizarem enquanto negócio com modelo de gestão e comunicação, ampliando o ganho financeiro. “Temos muitas pessoas que eram CLT e que puderam ter a capacidade de ficar integralmente investindo nesses negócios criativos”.

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Peças das Redeiras de Limpo Grande chegaram às passarelas do São Paulo Fashion Week

De acordo com a superintendente, a maior dificuldade dos pequenos empreendedores está em “nascer corretamente”. “Ninguém tem como desembolsar um recurso do próprio bolso, construir marca, comunicação, contratar consultor e comprar insumos”, explica. É onde entra o MT Criativo, que bateu recorde no último edital com aumento de quase 300% no número de projetos inscritos com relação ao ano anterior. “Chegamos a atingir quase 70 municípios, ou seja, quase metade de Mato Grosso”.

Para Keiko, o crescimento do número de trabalhadores da economia criativa também está ligado à formalização de pessoas que já atuavam no setor, mas de maneira informal. O nascimento de feiras exclusivamente dedicadas aos trabalhos manuais também ajudou a estruturar esse mercado.

“As feiras começaram a ganhar visibilidade como uma alternativa para esse tipo de espaço além de shopping. Então, acho que foi uma coisa conjunta. As pessoas começaram a mudar os hábitos de consumo. Esses espaços também integram programação artística, alimentação… Acabam sendo também um espaço de convivência para além da comercialização”.

Para o casal, em um momento de alta conectividade e feeds repletos de conteúdos gerados por inteligência artificial, as pessoas estão se voltando para a vida orgânica. “Essa vida artificial estressa mais”, pontua Max. Nas feiras, Priscila também nota que muitos clientes ficam menos no celular, por exemplo, e se abrem para conhecer gente nova.

“Esses dias conversando com um cliente da feira, ele falou que acha legal ir na feira, porque claro que as pessoas pegam no celular, mas ele viu todo mundo interagindo e ninguém com o celular na mão. Ele achou aquilo o máximo, ele gostou desse clima de poder interagir. Claro que as pessoas vão tirar uma foto, mandar uma mensagem, mas as feiras tem isso, as pessoas conversam mais”, conta.

O valor do que é feito à mão

O crescimento das feiras criativas e do consumo de produtos artesanais acompanha uma mudança mais ampla de consumo que começou pós-pandemia da covid-19, de acordo com Keiko. A tendência chegou a outros setores como arquitetura, design, moda e até na gastronomia, movida pelo desejo de pertencimento, identidade e exclusividade.

“Essa valorização do que é feito em Mato Grosso está muito ligada a essa tendência nacional e internacional de valorizar o local. Isso é uma construção feita de maneira geral: produção artística, produção cultural, cinema… O pessoal está indo para fora. Tudo isso junto faz com que a gente dê mais valor e busque trazer essa identidade, porque tem gente que compra para presentear amigos e familiares que moram fora”, explica Keiko.

A valorização do que é feito à mão tem levado produtos mato-grossenses como as peças produzidas pelas Redeiras de Limpo Grande (Tece Arte), em Várzea Grande, para passarelas como a do São Paulo Fashion Week e capas de revistas importantes como a Veja São Paulo, fruto de uma colaboração com o estilista Amir Slama.

“As pessoas estão buscando o que é diferente, não o que é padronizado. Além do valor da identidade e da cultura, tem uma história atrelada. Temos visto que é uma tendência que veio para ficar. Fui visitar as redeiras e tinha um cara levando uma rede para presentear o dono de um haras nos Estados Unidos. Quando você faz esse movimento de comprar e levar para fora, presentear outras pessoas, é possível entender o nível de valorização”, ressalta a superintendente.

Enquanto as feiras criativas se fortalecem e se multiplicam em Mato Grosso, Liliane segue costurando uma miçanga de cada vez para produzir peças atravessadas pelas memórias dos rios amazônicos. Apesar das horas extenuantes de trabalho minucioso, a artesã não se arrepende de ter transformado arte em profissão.

“Fiz Ciências Sociais na Universidade Federal do Amazonas, deixei o mestrado, não foi fácil, mas foi a melhor decisão que tomei. Saí de cientista para artista”.

Fonte: Olhar Direto

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