A preferência pelo sabor doce acompanha os seres humanos desde o nascimento. O problema começa quando ele vem em excesso, principalmente na forma de açúcar, ingrediente associado ao aumento de obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Foi nesse cenário que os adoçantes artificiais ganharam espaço como alternativa “mais saudável”. Presentes em refrigerantes, produtos diet e alimentos ultraprocessados, eles prometem adoçar sem adicionar calorias. Mas a relação entre adoçantes e saúde está longe de ser simples.
Nos últimos anos, pesquisas passaram a levantar dúvidas sobre os efeitos do consumo excessivo desses compostos no metabolismo, na microbiota intestinal e até no risco cardiovascular.
O que são adoçantes artificiais?
Também chamados de edulcorantes, os adoçantes artificiais são substâncias produzidas em laboratório para substituir o açúcar.
Entre os mais usados estão:
Aspartame;
Sacarina;
Ciclamato de sódio;
Sucralose;
Acessulfame K.
Eles costumam ser indicados principalmente para pessoas com diabetes ou para quem precisa restringir o consumo de açúcar.
O problema, segundo especialistas, é que o uso deixou de ser pontual e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas, muitas vezes sem necessidade clínica.
Hoje, mais de 1 em cada 10 pessoas consome adoçantes regularmente no Brasil e nos Estados Unidos. O crescimento também chama atenção entre crianças.
O paradoxo: adoçante pode favorecer ganho de peso?
Embora sejam usados para reduzir calorias, alguns estudos associam o consumo excessivo de adoçantes ao aumento do IMC (Índice de Massa Corporal) e da obesidade.
Uma das hipóteses envolve o “desencontro” entre o sabor doce e a ausência de açúcar real. O cérebro percebe o gosto adocicado e prepara o organismo para receber energia, mas ela não chega da forma esperada. Esse mecanismo pode alterar respostas metabólicas e aumentar a vontade de consumir alimentos doces ou ultraprocessados ao longo do dia.
Pesquisadores também observam que muitas pessoas usam adoçantes como complemento, e não substituição, do açúcar. Na prática, isso pode resultar em maior consumo calórico total.
Estudos sugerem ainda que grandes quantidades de adoçantes podem influenciar mecanismos cerebrais ligados ao apetite. A hipótese é que o sabor doce sem calorias altere sinais neuronais relacionados à saciedade.
O impacto no coração e nos vasos sanguíneos
Outra preocupação crescente envolve a saúde cardiovascular. Pesquisas associam o consumo elevado de adoçantes artificiais a maior risco de infarto, AVC e outras doenças cardiovasculares. Os mecanismos ainda estão sendo investigados, mas incluem possíveis alterações inflamatórias, mudanças metabólicas e impactos sobre a microbiota intestinal.
Estudos experimentais com animais e células humanas já identificaram sinais de disfunção vascular após exposição a alguns adoçantes.
Ainda não existe consenso definitivo sobre causa e efeito, mas a relação vem sendo acompanhada por pesquisadores e autoridades de saúde.
A microbiota intestinal também muda
A microbiota intestinal —conjunto de bactérias que vivem no intestino— exerce influência sobre metabolismo, imunidade, glicemia e armazenamento de gordura. Alguns estudos sugerem que o consumo excessivo de adoçantes pode alterar esse equilíbrio microbiano.
Pesquisadores já observaram associação entre certos adoçantes e:
intolerância à glicose;
aumento da resistência à insulina;
alterações hormonais;
maior risco de diabetes tipo 2.
A sacarina aparece entre os compostos mais estudados nesse contexto. Já o aspartame vem sendo investigado por possíveis efeitos sobre enzimas intestinais relacionadas ao metabolismo da glicose.
Apesar disso, os cientistas ainda discutem se essas alterações são consequência direta dos adoçantes ou de outros fatores associados ao perfil alimentar dos consumidores.
Dor de cabeça e enxaqueca
Para algumas pessoas, adoçantes podem funcionar como gatilho para crises de enxaqueca.
Um estudo publicado no periódico Current Neurology and Neuroscience Reports apontou que cerca de 9% das pessoas com enxaqueca relataram crises associadas ao consumo de produtos com aspartame.
Artificial ou natural: existe diferença?
Na prática, tanto adoçantes artificiais quanto naturais são considerados seguros quando usados dentro dos limites recomendados. Os artificiais são produzidos em laboratório, enquanto os naturais vêm de fontes vegetais ou álcoois de açúcar.
Entre os naturais mais conhecidos estão:
Estévia;
Xilitol;
Eritritol;
Sorbitol;
Maltitol.
Até o momento, não há evidências robustas de superioridade absoluta entre eles em relação à segurança.
Como usar adoçantes com menos riscos
Especialistas reforçam que o problema principal parece estar no excesso e no uso indiscriminado.
As recomendações mais comuns incluem:
Usar apenas quando houver necessidade clínica, como no caso do diabetes;
Evitar consumo exagerado de produtos diet e light;
Variar o tipo de adoçante periodicamente;
Evitar megadoses;
Priorizar reeducação alimentar em vez de substituir açúcar por adoçantes indefinidamente.
Para crianças e gestantes, quando o uso é necessário, sucralose e estévia costumam ser as opções mais indicadas.
Também existe atenção especial para sacarina e ciclamato em pessoas com hipertensão, já que esses compostos podem conter sódio.
*Com informações de reportagem publicada em 14/02/2023.
Fonte: uol




