Em estudo publicado na revista Nature na Ăşltima quinta (7), uma equipe de cientistas europeus observou um fenĂ´meno quĂmico surpreendente nos registros de uma das erupções vulcânicas mais violentas da era moderna.
O vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, que explodiu em janeiro de 2022, teria criado as condições para que o metano liberado por ele próprio fosse removido naturalmente da atmosfera. Uma auto-limpeza, que nem a da sua máquina de lavar.
Antes de entender esse fenômeno, precisamos explicar o que aconteceu durante a erupção.
Localizado a 65 quilĂ´metros da principal ilha de Tonga (paĂs insular da Oceania), o vulcĂŁo começou a chacoalhar as profundezas do PacĂfico Sul ainda em dezembro de 2021. Explodiu no mĂŞs seguinte, lançando em direção Ă mesosfera quantidades enormes de cinzas vulcânicas, junto Ă s águas salgadas do mar.
A erupção causou uma onda de choque na atmosfera, com uma velocidade de 300 metros por segundo. Ao mesmo tempo, tsunamis se espalharam pelas águas ao redor, atingindo Tonga de maneira devastadora e rapidamente se estendendo atĂ© as costas de paĂses como Nova Zelândia, JapĂŁo e EUA. Na Ă©poca, cientistas da Nasa descreveram a explosĂŁo como centenas de vezes mais poderosa que a bomba atĂ´mica de Hiroshima.
A coluna de fumaça que se elevou por uma altura de 55 quilĂ´metros pĂ´de ser observada por satĂ©lites. Passando da camada da troposfera, ela tambĂ©m criou as condições para que o impacto atmosfĂ©rico pudesse ser analisado por meio do TROPOMI (Tropospheric Monitoring Instrument), um instrumento capaz de monitorar os gases de efeito estufa na atmosfera. Assim, os pesquisadores observaram uma nuvem com altas concentrações de formaldeĂdo por um perĂodo de dez dias, atĂ© chegar na AmĂ©rica do Sul.
“Detectar formaldeĂdo a partir do TROPOMI em uma pluma vulcânica estratosfĂ©rica está muito alĂ©m das condições operacionais padrĂŁo do instrumento – tivemos de corrigir cuidadosamente a sensibilidade do satĂ©lite para a altitude incomum do sinal e levar em conta a interferĂŞncia das altas concentrações de diĂłxido de enxofre. Fazer essas correções corretamente foi essencial para confirmar que o que estávamos observando era real”, relatou, em nota, a pesquisadora Isabelle De Smedt.
A detecção dessa substância foi importante: o formaldeĂdo (CH2O) Ă© um composto intermediário de vida curta que ocorre quando as molĂ©culas de metano (CH4) na atmosfera sĂŁo quebradas, e dura no ar por apenas algumas horas. Essa nuvem, porĂ©m, perdurou por dias, o que significa que o metano lançado na atmosfera estava constantemente sendo quebrado por todo esse perĂodo.
Após o dióxido de carbono, o metano é um dos gases de efeito estufa mais relevantes hoje, responsável por cerca de um terço do aquecimento global. Sua emissão é geralmente associada à decomposição do material orgânico em aterros sanitários e ao sistema digestivo do gado da pecuária, mas ele também é injetado na atmosfera durante erupções vulcânicas.
Auto-limpeza
Em 2022, o Hunga Tonga-Hunga Ha’apai emitiu pelo menos 330 mil toneladas de metano durante sua erupção. Agora, cientistas constatam pela primeira vez que as cinzas liberadas pelos vulcões também são capazes de limpar parcialmente essa poluição. Segundo estimativa do estudo, as cinzas vulcânicas oxidaram cerca de 900 toneladas de metano por dia na atmosfera.
A causa mais provável desse fenômeno tem a ver com a água do mar lançada na atmosfera durante a erupção. O vulcão foi notório por lançar quantidades excepcionalmente altas de vapor de água na atmosfera, e, junto dessa água, grandes quantidades de cloreto de sódio, o sal do mar.
Em contato com a luz solar, o cloreto teria interagido com o ferro abundante nas cinzas vulcânicas, formando continuamente um cloro altamente reativo. Esse composto teria, entĂŁo, oxidado o metano, resultando no formaldeĂdo que foi observado nas leituras de satĂ©lite pelos pesquisadores.
Esse processo quĂmico foi identificado pela primeira vez pelos cientistas em 2023, com as areias sopradas pelo Saara sobre o Oceano Atlântico. O novo estudo, entĂŁo, dá ainda mais informações para um campo de pesquisa crescente que vem procurando novas formas de quebrar artificialmente o metano presente na atmosfera.
O metano quebra relativamente rápido dentro da atmosfera, levando algo em torno de 10 anos até sumir. O gás carbônico, em comparação, pode permanecer centenas de anos lá em cima.
Ainda assim, o metano é um gás de efeito estufa relevante, cuja redução pode ter efeito nas mudanças climáticas dentro de uma década. Por isso, cientistas acreditam que a remoção desse gás pode funcionar como um “freio de emergência” para o aquecimento da Terra.
“É uma ideia Ăłbvia para a indĂşstria tentar reproduzir esse fenĂ´meno natural – mas apenas se for possĂvel comprovar que ele Ă© seguro e eficaz. Nosso mĂ©todo por satĂ©lite pode oferecer uma forma de ajudar a descobrir como os seres humanos poderiam desacelerar o aquecimento global”, disse, tambĂ©m em nota, o pesquisador Matthew Johnson.
Fonte: abril




