Bocejar é uma das experiências humanas mais contagiosas. Basta alguém fazer isso do nosso lado e, poucos segundos depois, lá estamos nós agindo da mesma forma.
Isso acontece entre amigos, familiares, colegas de trabalho e até entre espécies diferentes, como cães e humanos. Agora, cientistas italianos decidiram investigar se esse “efeito dominó” poderia começar antes mesmo do nascimento.
Esse comportamento aparece muito cedo no desenvolvimento humano. Fetos começam a bocejar por volta da 11ª semana de gestação.
Como ainda não respiram ar dentro do útero, o movimento é um pouco diferente do nosso: eles abrem a boca lentamente, fazem movimentos parecidos com uma respiração profunda e depois fecham a boca devagar.
Até hoje, a maior parte dos pesquisadores interpreta esses episódios como um processo natural do desenvolvimento do bebê, sem influência externa. Acredita-se que esses movimentos ajudam o cérebro e os músculos ligados à respiração a “treinarem” antes do nascimento.
O grupo da Universidade de Parma quis testar uma hipótese diferente: será que o comportamento da mãe consegue influenciar o feto ainda dentro da barriga?
Para investigar isso, os cientistas recrutaram 38 mulheres grávidas entre 28 e 32 semanas de gestação, todas com gravidez saudável e sem complicações. As participantes passaram por uma sessão de cerca de meia hora em uma sala silenciosa e com iluminação controlada.
As mulheres assistiram a três tipos de vídeo. Em um deles, apareciam pessoas bocejando. No segundo, pessoas apenas abrindo e fechando a boca, sem o movimento característico do bocejo. No terceiro, rostos imóveis e neutros.
A ordem dos vídeos era alterada entre as participantes para evitar distorções nos resultados. Enquanto assistiam, uma câmera filmava seus rostos e um aparelho de ultrassom registrava, em tempo real, os movimentos faciais dos fetos.
Depois, três especialistas analisaram todas as gravações sem saber qual vídeo cada mulher estava assistindo. Isso foi feito para evitar interpretações enviesadas.
Além da análise humana, os pesquisadores usaram um sistema de inteligência artificial chamado DeepLabCut, capaz de acompanhar quadro a quadro os movimentos dos lábios e do nariz das mães e dos fetos.
Os resultados, publicados na revista Current Biology, chamaram atenção. Quase 64% das mães bocejaram ao assistir aos vídeos, e pouco mais da metade dos fetos reagiu da mesma forma cerca de 90 segundos depois – um intervalo semelhante ao observado no bocejo contagioso entre adultos.
O efeito não apareceu nas outras etapas do experimento, em que as participantes apenas mexiam a boca ou observavam rostos neutros.
Os pesquisadores também notaram que mães que bocejavam mais frequentemente tendiam a ter fetos que apresentavam o mesmo comportamento com maior frequência.
O que explica o bocejo?
Nos adultos, o bocejo contagioso costuma estar ligado a mecanismos sociais e emocionais. Estudos sugerem que ele envolve a capacidade do cérebro de “espelhar” automaticamente ações e estados de outras pessoas – um fenômeno associado à empatia e à sintonia emocional. É por isso que tendemos a reproduzir esse comportamento involuntariamente quando vemos alguém próximo fazer o mesmo.
Ao analisar detalhes dos movimentos da boca, os pesquisadores perceberam que o bocejo dos fetos segue um padrão muito parecido com o observado em adultos. O tempo de abertura da boca, a duração do movimento e a sequência dos gestos eram semelhantes nos dois grupos.
Isso sugere que esse comportamento já surge no útero com características bastante próximas das que mantém depois do nascimento – como se o “modelo básico” do bocejo já estivesse presente ainda durante a gestação.
Mas os autores fazem uma ressalva importante: isso não significa que os fetos estejam conscientemente imitando a mãe ou reagindo socialmente da mesma forma que um adulto. O bebê dentro do útero não vê a mãe bocejar nem interpreta o gesto emocionalmente.
Segundo os pesquisadores, o fenômeno provavelmente acontece por meio de mudanças físicas e químicas compartilhadas entre os dois organismos.
Uma das hipóteses é que o próprio movimento corporal da mãe altere temporariamente a pressão na região abdominal e no útero. Essas mudanças poderiam funcionar como estímulos mecânicos percebidos pelo bebê, desencadeando uma resposta parecida.
Outra possibilidade envolve hormônios e sinais químicos circulando simultaneamente nos corpos da mãe e do feto. Durante a gravidez, os dois organismos compartilham continuamente substâncias e alterações fisiológicas.
Assim, mudanças no estado do corpo materno poderiam influenciar temporariamente o funcionamento do organismo do bebê, criando uma espécie de sincronização biológica entre os dois.
Os pesquisadores dizem que ainda não conseguem afirmar qual desses mecanismos explica o fenômeno – e é possível que mais de um esteja envolvido ao mesmo tempo. Eles também destacam que o estudo não prova uma relação direta de causa e efeito. O que os resultados mostram é uma associação consistente entre o comportamento materno e a resposta fetal.
Mesmo assim, a pesquisa reforça a ideia de que a vida dentro do útero não acontece de forma isolada. Em vez de funcionar como organismos independentes, mãe e bebê formam um sistema profundamente conectado, no qual alterações físicas e biológicas de um podem influenciar o outro constantemente.
Fonte: abril




