Visitar a exposição Portais, de Nina Pandolfo, é como folhear um livro de contos infantis, onde a fantasia fala mais alto do que qualquer realidade. Ocupando dois andares no Farol Santander, emSão Paulo, a mostra fica em cartaz até o dia 2 de agosto e reúne pinturas, esculturas, instalações e ambientes interativos. A proposta, como sugere o nome, é provocar uma travessia sensorial entre imaginação, memória e fantasia.
A exposição começa assim que entramos no prédio. No térreo, fui recebida por uma escultura gigante dedicada a Rakim, o felino que acompanhou a artista por 18 anos. Sinceramente, nada se compara a ser recepcionada ao som do ronronar, que funciona como um gesto de acolhimento logo na chegada.
Para adentrar o mundo de Nina Pandolfo, comece de cima para baixo, pelo 20º andar. Fui recebida por uma entrada formada por portas e luzes que dão a sensação de estar entrando em outro mundo. Foi como se eu fosse a Coraline, ingressando pela portinha escondida de sua casa.
O percurso é guiado por elementos da natureza e dividido em capítulos. A sensação é de que estamos num mundo mágico, onde podemos ser o que quisermos.
Logo à esquerda da entrada, crianças pulavam nas vitórias-régias do chão, enquanto eram observadas por uma das famosas meninas olhudas de Nina, instalada na parede, com olhos que se mexiam e pareciam acompanhar cada movimento.
No meio da sala, uma árvore funciona como fio condutor de toda a visita. Nela, há cabeças penduradas como se fossem frutos e o detalhe de uma casinha de pássaro. Indo mais a fundo, aparece também uma escultura em que os cabelos de uma menina se transformam em tronco. É como se todo o espaço partisse de uma mesma imaginação.
Observei também obras coloridas em televisores antigos, que resgatam a infância da artista, quando ela observava o pai consertar aparelhos eletrônicos. Caso queira descansar as pernas, em frente às TVs há cogumelos que servem como cadeiras.
Como ainda há um longo caminho pela frente, deixei os cogumelos e segui para uma das partes mais interativas da exposição. Em um dos ambientes, as paredes são pintadas como se estivéssemos sobrevoando o céu, com nuvens por todos os lados. Ali, há uma poltrona baseada em uma das pinturas de Nina, onde é possível sentar para tirar uma foto.
Também pensada para fotos, o mesmo espaço conta com uma instalação que funciona como uma espécie de “saia feita de nuvens”.
Depois de “voar”, segui para o final do 20º andar. Ali, aparecem mosaicos da vida da artista, reunindo pinturas e itens que antecedem o último mergulho nesse nível. Entre eles, uma espécie de carruagem composta por ferramentas, croquis e objetos do ateliê revela fragmentos do processo criativo de Nina.
Na instalação final do andar (que tinha um pouco de fila), entrei em um espaço marcado por sons e luzes suaves. No centro, um sofá em formato de lua convida a sentar – e, por alguns minutos, a sensação é de fazer parte daquele universo, como se eu fosse uma das personagens dos quadros.
A mostra estava lotada de crianças, que corriam e pareciam querer interagir com tudo (às vezes até demais, antes de serem contidas pelos funcionários). Mas isso acaba dizendo muito sobre a exposição: ela desperta curiosidade o tempo todo.
Antes de seguir para o andar de baixo, tive a sorte de encontrar a própria artista perambulando pela exposição. Pude trocar um papo rápido com a artista, que me disse que, se eu havia gostado do 20º andar, também ia gostar do 19º. “O andar de baixo funciona como as raízes das árvores desse andar”, contou.
Uma visita às raízes do 19º andar
Intrigada para conhecer o alicerce da mostra, desci para o 19º andar.
Logo na entrada, fui recebida por outra escultura de gato – dessa vez, dedicada à Monalisa. Assim como Rakim, o gatão no térreo, Monalisa também foi companheira da artista por muitos anos e aparece em diferentes fotos de arquivo pessoal, que estão expostas.
Nesse andar, vemos mais das origens da artista. Há vídeos de processo, uma instalação com sombras de bonecas que dançam como se estivessem em um show de rock e figurinos inspirados em seus desenhos, expostos em um cenário pensado para fotos. Os temas aqui passam mais por identidade, memória e inconsciente.
Mais adiante, aparecem rascunhos e desenhos antigos – registros iniciais, inacabados, que ajudam a entender como o trabalho da artista se constrói. São esboços e experimentações que mostram o que normalmente não aparece no resultado final.
Por fim, a exposição termina com um último mergulho. Uma espécie de gruta reúne luzes fluorescentes, sons e elementos que misturam céu e mar. As roupas claras começam a brilhar, as crianças se impressionam, e o espaço vira uma pequena festa sensorial.
O ambiente final funciona como um adeus, um último portal antes do retorno à realidade. A escultura de baleia no centro, os peixes luminosos nas paredes, os globos espelhados… Saí da exposição me sentindo um pouco mais criança.
Quem é Nina Pandolfo?
Nina Pandolfo construiu uma trajetória marcada pela expansão do grafite. Nascida em 1977, no interior de São Paulo, e criada na capital, começou a pintar ainda adolescente. No início dos anos 1990, passou a pintar muros da cidade, integrando uma geração que ajudou a transformar a street art no Brasil. Ao longo dos anos, seu trabalho migrou do espaço urbano para galerias e museus, acompanhando a valorização da arte urbana dentro do circuito institucional.
Sua produção vai além dos murais e inclui pinturas em tela, esculturas, instalações e objetos feitos com diferentes materiais, como resina, látex, tecido e plástico. A infância e a natureza aparecem como fios condutores de sua obra, que se tornou conhecida por um universo lúdico e bastante particular. Nesse cenário, ganham destaque as figuras femininas de olhos grandes e expressivos, personagens recorrentes de seu universo.
A partir dos anos 2000, Nina passou a participar de exposições e projetos ao redor do mundo, com trabalhos expostos em países comoAlemanha, Japão, Estados Unidos, Grécia e Cuba.
Como chegar ao Farol Santander
Localizado no centro histórico de São Paulo, oFarol Santander está a 200 metros da estação São Bento do metrô (Linha 1-Azul), que é a forma mais prática de chegar. Atualmente, a rua em frente à entrada está em obras.
A região também é bem atendida por linhas de ônibus nas proximidades. Para quem vai de táxi ou carro de aplicativo, é comum que o motorista deixe o passageiro na rua Boa Vista, esquina com a João Brícola. Os ingressos podem ser comprados pelo site oficial ou na bilheteria do térreo, mas, como a visita está sujeita à lotação, o ideal é garantir a entrada com antecedência.
Serviço
Portais
Onde? 20º e 19º andares do Farol Santander – Rua João Brícola, 24, Centro.
Quando? Até 2 de agosto; de terça a domingo, das 9h às 20h.
Quanto? R$ 45 (inteira) e R$ 22,50 (meia-entrada).