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Corpo do padre morto em conflito indígena em MT é sepultado

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2026

A calota craniana do missionário jesuíta Vicente Cañas, conhecido como Kiwxi, foi finalmente sepultada junto com o restante de seus restos mortais na Terra Indígena Enawenê Nawê, na região de Juína (MT). A cerimônia ocorreu entre os dias 5 e 9 de abril deste mês e reuniu representantes da Companhia de Jesus, organizações indigenistas, autoridades religiosas, familiares do missionário e integrantes do povo indígena.

A missão percorreu um longo trajeto até o território indígena, saindo de Cuiabá e passando por Juína, onde houve momentos de oração e celebrações litúrgicas. Já na aldeia, o sepultamento da calota craniana, mantida por décadas fora da terra indígena por conta de processos judiciais, simbolizou o encerramento de uma espera de quase quatro décadas.

Segundo a Missão Jesuíta no Brasil, para o povo Enawenê-nawê, com quem Vicente viveu e compartilhou sua vida, o retorno dos restos mortais representa também o fortalecimento de vínculos espirituais e culturais.

Nascido na Espanha, Vicente Cañas chegou ao Brasil na década de 1970 e, poucos anos depois, participou do primeiro contato com os Enawenê-nawê. Ao longo de sua trajetória, adotou completamente o modo de vida indígena, aprendendo a língua e integrando-se à comunidade.

O nome Kiwxi, que recebeu, carrega o significado de “aquele que se doa por inteiro”, refletindo sua dedicação ao povo e à defesa do território.

Assassinato e disputa por justiça

Vicente Cañas foi assassinado em 1987, em meio a conflitos relacionados à proteção das terras indígenas na região. Seu corpo foi encontrado meses depois, já em avançado estado de decomposição. Durante as investigações, parte dos restos mortais foi separada, incluindo a calota craniana, peça considerada fundamental para comprovar o assassinato, já que indicava o local da pancada recebida na cabeça.

O caso se arrastou por décadas na Justiça. Em 2006, um dos acusados, Ronaldo Antônio Osmar, chegou a ser absolvido pelo Tribunal do Júri de Mato Grosso. A decisão, no entanto, foi contestada pelo Ministério Público Federal (MPF) e anulada em 2015 pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que considerou o veredito contrário às provas apresentadas.

Dois anos depois, em 2017, o réu foi novamente julgado e condenado a mais de 14 anos de prisão em regime inicial fechado. A tramitação judicial chegou ao fim apenas em 2025, 38 anos após o crime, quando a condenação transitou em julgado, tornando-se definitiva e sem possibilidade de novos recursos.

Com a conclusão do processo, a calota craniana pôde ser finalmente devolvida ao povo Enawenê-nawê, permitindo que o missionário fosse sepultado integralmente no território onde viveu, construiu sua história e morreu defendendo os direitos indígenas.

Outro crime marcou atuação jesuíta em MT

O assassinato do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, em 1976, também permanece como um dos episódios mais emblemáticos de violência contra religiosos na região. Ele foi morto com um tiro na nuca por um policial militar dentro de uma delegacia em Ribeirão Cascalheira (MT), ao tentar defender duas mulheres que estavam sendo torturadas.

Ligado ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o sacerdote atuava junto a camponeses e povos indígenas, denunciando abusos cometidos por latifundiários e agentes do Estado. Sua morte provocou forte repercussão nacional, ampliando a tensão entre a ditadura militar e a Igreja Católica.

Fonte: primeirapagina

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