Um problema antigo da rede pública de saúde em Campo Grande continua provocando impactos diretos no atendimento de urgência e emergência. Socorristas denunciam que macas de ambulâncias do Samu e do Corpo de Bombeiros estão sendo retidas em UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e hospitais da capital, devido à superlotação.
Segundo os profissionais, os equipamentos, que deveriam ser utilizados exclusivamente para o transporte de pacientes, estão sendo usados de forma improvisada como leitos hospitalares diante da falta de vagas.
A situação compromete o funcionamento das ambulâncias, que ficam impossibilitadas de atender novas ocorrências enquanto aguardam a liberação das macas.
Imagens registradas por bombeiros militares mostram corredores lotados no pronto-socorro da Santa Casa, com pacientes acomodados em macas de ambulâncias. Em outra foto, uma viatura aparece carregada com diversas macas retidas nas unidades de saúde.
De acordo com socorristas que preferiram não se identificar, ao menos 20 macas estavam sendo utilizadas simultaneamente nos corredores da Santa Casa.
Eles alertam que o uso inadequado desses equipamentos pode colocar pacientes em risco, já que as macas não são projetadas para internação prolongada.
Ainda conforme os militares, o problema ocorre há mais de 5 anos e reflete a superlotação enfrentada por hospitais e UPAs da capital.
A situação também é relatada por pacientes e familiares. Um idoso de 83 anos passou o fim de semana deitado em uma poltrona no CRS Tiradentes à espera de vaga hospitalar. Ele conseguiu regulação apenas na manhã seguinte para o Hospital Universitário.
Na UPA Coronel Antonino, a auxiliar de escritório Cristiane de Jesus Roberto relatou a situação da filha, de 10 anos.
“Ela está até agora, 8 horas agora da manhã, isso que a gente deu entrada à noite, deitada na cadeira, porque não tem maca no coronel Antonino, fez o raio-x, estou esperando o sistema abrir uma vaga para poder passar por um ortopedista, é um descaso isso, porque deveria ter suporte para gente.”
Outro paciente, Alexandro Pereira, que aguarda atendimento há quatro dias, também descreveu a situação:
“Eu fico dormindo no banco e pedindo comida para os outros. Eu fico pedindo comida para as pessoas, para as pessoas darem comida para mim e estou há quatro dias esperando uma vaga de horólogista no hospital. Os funcionários dizem para mim aguardar. É angustiante essa situação porque eu tenho que pedir comida, tenho que ir atrás de fralda.”
Já o pedreiro Marcelo Elias relatou a demora no atendimento da esposa. A mulher deu entrada no domingo (19), às 19h com formigamentos na mão. Ela chegou a fazer exames de sangue, mas ainda não há um diagnóstico para o porblema de saúde.
“Não foi liberada ainda, tá guardando esse resultado do exame e aí tá lá, sentada, ninguém fala nada, lá tá tudo cheio. A triagem é rápida, até alegra a gente, fica animado, mas aí, de repente, trava lá pra dentro que tá o problema.”
Para usuários do sistema, a situação evidencia falta de estrutura. O auxiliar de produção Janderson Domingos Pereira da Silva afirmou:
“Não é porque é de graça que tem que ser de qualquer jeito, a gente paga imposto, a gente contribui com isso.”
Em nota, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) informou que pode ocorrer, de forma pontual, a permanência temporária de pacientes em macas até a liberação de leito adequado, como medida necessária para garantir a continuidade da assistência e a segurança do atendimento.
A secretaria reforçou que não há desvio de finalidade dos equipamentos, nem utilização como substituição permanente de leitos hospitalares.
Segundo a pasta, todas as unidades seguem fluxos regulatórios e assistenciais, com monitoramento contínuo da ocupação da rede e adoção de medidas para otimizar o atendimento.
Apesar disso, socorristas e pacientes apontam que a superlotação continua sendo um dos principais gargalos da saúde pública em Campo Grande.
Fonte: primeirapagina





