Uma investigação jornalística da Radioagência Nacional revela como a ditadura militar brasileira (1964-1985) também funcionou como um ambiente de oportunidades econômicas para empresas nacionais, multinacionais e governos estrangeiros. A apuração integra a segunda temporada do podcast “Golpe de 1964: Perdas e Danos”, intitulada Passado Leiloado.
Dividida em cinco episódios semanais, a série analisa os mecanismos que permitiram a apropriação do Estado por interesses privados e investiga o fluxo de recursos que sustentou o regime. A proposta é ir além da narrativa política tradicional e seguir o dinheiro, identificando quem se beneficiou financeiramente durante o período.
O trabalho também destaca iniciativas do Ministério Público Federal e de pesquisadores que buscam preservar a memória histórica e ampliar a responsabilização por violações de direitos humanos cometidas na época.
Um dos pontos centrais da investigação aborda a atuação da Suíça, país historicamente associado à neutralidade. Documentos inéditos indicam que os suíços estiveram entre os principais investidores no Brasil durante a ditadura, considerando inclusive a proporção em relação à população do país europeu.
Empresários estrangeiros viam no regime uma oportunidade de estabilidade, marcada por controle social, arrocho salarial e restrições a greves. O episódio inicial também conecta interesses financeiros ao contexto do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970.
Nos episódios seguintes, a série examina o papel de grandes empresas multinacionais e a atuação de intermediários ligados ao capital estrangeiro. Um dos destaques é a análise de contratos de obras públicas, com indícios de superfaturamento e aumento da dívida externa, incluindo projetos de grande porte como a construção da Hidrelétrica de Itaipu.
A investigação ainda aponta a proximidade entre executivos e o financiamento de estruturas repressivas, como a Operação Bandeirantes (OBAN), em São Paulo, conhecida por práticas de tortura durante o regime.
Outro aspecto abordado é o impacto da ditadura no sistema educacional. O podcast apresenta o caso de uma instituição privada que se expandiu rapidamente a partir de contratos favorecidos, ilustrando a política de incentivo ao ensino privado em detrimento do público.
A série também traça conexões históricas entre elites econômicas do século XIX e grupos que financiaram o regime no século XX, apontando continuidades na concentração de poder econômico.
Ao final, o podcast discute caminhos para a responsabilização jurídica. Como a Lei da Anistia se aplica apenas a pessoas físicas, o foco atual recai sobre empresas que colaboraram com o regime, com possibilidade de responsabilização civil.
Os episódios são publicados semanalmente, sempre às quartas-feiras, e estão disponíveis nas principais plataformas de áudio.
Fonte: cenariomt





