Um comportamento curioso, e até então desconhecido entre carnívoros selvagens, foi registrado por pesquisadores na Espanha. Fêmeas de lince-ibérico (Lynx pardinus) foram flagradas mergulhando suas presas na água antes de comê-las.
A descoberta, descrita em um estudo publicado na revista Ecology, levanta novas perguntas sobre aprendizado, adaptação e até possíveis tradições culturais entre esses animais.
As imagens foram registradas por armadilhas fotográficas instaladas na região de Montes de Toledo, no centro da Espanha. Em uma das sequências, captada em 2024, uma fêmea aparece carregando um coelho recém-capturado até um bebedouro. Em vez de começar a se alimentar imediatamente, ela mergulha a presa na água por alguns segundos e depois vai embora com o animal encharcado.
Esse comportamento, chamado pelos pesquisadores de prey-soaking (“encharcamento da presa”), nunca havia sido documentado em carnívoros selvagens.
Em geral, predadores terrestres comem a presa logo após a captura e manipulam o alimento apenas para rasgar a carne ou escondê-lo para consumir depois. Alterar a presa usando água, de forma deliberada, não fazia parte do repertório conhecido desses animais.
O caso chamou ainda mais atenção porque não se tratou de um episódio isolado. O primeiro registro ocorreu em agosto de 2020, quando uma fêmea chamada Naia foi vista levando um coelho até um bebedouro.
Três anos depois, outra fêmea, Luna, foi registrada fazendo algo parecido em um território vizinho. Em agosto de 2023, Naia voltou a aparecer nas imagens, desta vez mergulhando claramente a presa na água por cerca de um minuto antes de sair com ela.
Desde então, os pesquisadores reuniram oito registros desse comportamento, envolvendo cinco fêmeas diferentes e cinco bebedouros na mesma região. Em quatro episódios a imersão da presa foi registrada diretamente pelas câmeras; nos demais, foi deduzida a partir das imagens, que mostram o animal chegando com o coelho e adotando a postura típica de mergulho.
Outro detalhe é que todos os casos envolveram fêmeas. Muitas delas ocupavam territórios vizinhos ou eram aparentadas, como mães e filhas. Esse padrão levantou a hipótese de que o comportamento possa se espalhar por aprendizado social – ou seja, um animal poderia observar e copiar o outro.
Esse tipo de transmissão é conhecido como “cultura animal”: comportamentos aprendidos dentro de um grupo e compartilhados entre indivíduos. Embora esse fenômeno já tenha sido observado em primatas, aves e alguns mamíferos marinhos, ele é raramente documentado em grandes carnívoros solitários.
O lince-ibérico costuma viver sozinho, mas fêmeas aparentadas ou com territórios próximos às vezes convivem na mesma área. Isso pode facilitar que esse hábito se espalhe entre elas.
Mesmo assim, ainda não está claro por que os animais fazem isso. Uma possibilidade é que a imersão da presa ajude na hidratação. Durante o verão espanhol, quando os registros ocorreram, o clima é quente e seco. Como os linces transportam a presa na boca, mergulhá-la na água poderia permitir levar um pouco de umidade junto com o alimento.
Para investigar essa hipótese, os cientistas fizeram um experimento com carcaças de coelhos. Algumas foram mergulhadas brevemente na água e depois deixadas ao sol ou à sombra, enquanto outras permaneceram secas. A ideia era observar se a imersão permitiria que o corpo da presa retivesse água por algum tempo.
Os testes mostraram que isso de fato acontece: o animal absorve uma pequena quantidade de água ao ser mergulhado. Ao sol, essa umidade desaparece rapidamente; na sombra, permanece por mais tempo.
Segundo os pesquisadores, o experimento foi exploratório e não permite afirmar com certeza a função do comportamento. Ainda assim, os resultados sugerem que mergulhar a presa pode ajudar o lince a transportar um pouco de água junto com o alimento.
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Outra hipótese é que o hábito esteja ligado ao cuidado materno. Filhotes de lince passam por uma fase de transição do leite para a carne, e uma presa umedecida poderia facilitar essa mudança na dieta.
Também é possível que o comportamento tenha surgido simplesmente como uma inovação individual que acabou se espalhando entre fêmeas próximas.
Independentemente da explicação final, a descoberta revela que ainda sabemos relativamente pouco sobre o comportamento desses animais. O lince-ibérico chegou a ser considerado o felino mais ameaçado do mundo. Na década de 1980, a espécie estava à beira da extinção.
Graças a programas intensivos de conservação, reprodução em cativeiro e reintrodução na natureza, a população começou a se recuperar. O censo mais recente, de 2024, registrou 2.401 linces-ibéricos na natureza, incluindo 1.557 adultos ou subadultos.
O episódio também mostra o valor das armadilhas fotográficas e do monitoramento de longo prazo. Mesmo em espécies amplamente estudadas, comportamentos inesperados podem passar despercebidos durante anos. Só quando as câmeras registram milhares de horas de imagens é que padrões raros, como esse “banho” nas presas, acabam revelados.
Para os cientistas, entender essas pequenas adaptações pode ser importante para a conservação da espécie. Comportamentos inovadores podem ajudar animais a lidar com ambientes em mudança, especialmente em um cenário de aquecimento global e transformações nos ecossistemas.
Fonte: abril





