Saúde

Especialistas solicitam revisão de decisão que autoriza o abate de jumentos: impactos e consequências

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Os jumentos (também chamados de jegues) foram trazidos ao Brasil durante o período colonial e se tornaram parte importante da cultura nacional, especialmente no Nordeste. O papel desses animais – que, por sinal, são muito fofos – no transporte de carga e na locomoção em áreas rurais foi inclusive exaltado na canção “Apologia ao Jumento”, de Luiz Gonzaga, que diz: “O jumento é nosso irmão”.

O cenário atual dos jumentos no Brasil, porém, não é nada favorável. Esses primos distantes do cavalo são abatidos para a produção de couro e carne, prática que se intensificou  em razão da demanda do mercado chinês. A China compra a pele dos nossos jegues para produzir o ejiao, produto derivado do colágeno extraído do couro.

Segundo dados da FAO, IBGE e Agrostat, entre 1996 e 2024, a população de jumentos diminuiu em 94%. Cientistas apontam que, se nada for feito, esses animais podem ser extintos.

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Oficialmente, o abate estava suspenso na Bahia – onde estão os abatedouros autorizados do País – desde 2020, por decisões judiciais. Na realidade, entretanto, a prática continuou, apoiada em uma determinação da Advocacia Geral da União, de 2019, que  permitia o abate.  Recentemente, no final de 2025, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) decidiu que a posição favorável ao abate dos jumentos deveria prevalecer, em razão da importância econômica da atividade para as cidades com abatedouros. 

Por isso, um grupo de pesquisadores publicou uma carta aberta pedindo a revisão da decisão do TRF1 e a suspensão imediata do abate de jegues. Os acadêmicos são de diferentes áreas – como veterinária, genética e biologia – e universidades, como USP, Unesp e UFBA.

O documento reúne evidências científicas que apontam o risco de colapso populacional dos jumentos e mostram que seu abate é economicamente inviável, ambientalmente insustentável e juridicamente questionável.

A decisão do TRF1 acaba por legitimar uma prática que conduz à extinção de uma população animal inteira, em afronta direta ao artigo 225 da Constituição Federal, que veda práticas que provoquem a extinção de espécies ou submetam animais à crueldade. Além disso, ao chancelar uma prática marcada por riscos sanitários, denúncias de trabalho infantil e condições análogas à escravidão, o Judiciário expõe o Brasil a danos reputacionais e a conflitos com compromissos internacionais de biodiversidade e sustentabilidade”, afirma a carta. 

Fotografia de três jumentos.
(Priscila Zambotto/Getty Images)

O texto explica que o abate de jumentos não possui uma cadeia produtiva organizada, como ocorre com a pecuária bovina, em que a indústria regula a reprodução desses animais e repõe o rebanho.

No caso do abate dos jumentos, a maioria é capturada da natureza. Isso acontece porque os jegues possuem uma baixa taxa reprodutiva e uma gestação longa, de 12 meses. Ou seja: é muito difícil criá-los em fazendas e a reposição de indivíduos é muito mais lenta que o abate.  

“A atividade é essencialmente extrativista, baseada na exaustão de um estoque biológico finito, cenário clássico da chamada tragédia dos comuns”, diz o documento. Por isso o risco de extinção é tão real.

Além do mercado não conseguir sustentar sua própria atividade, eles argumentam que a indústria dos jegues não é relevante para a indústria nacional e não representa um retorno econômico significativo:

“O estudo demonstrou que a contribuição da indústria para as exportações brasileiras é insignificante (menos de 0,000003% do total), e os municípios que são sede de abatedouros de jumentos, como Amargosa (BA), não apresentaram crescimento econômico nem aumento na arrecadação de impostos durante o período de operação.”

Outra denúncia do documento é que, nos últimos anos, o peso médio das peles de jegue exportadas foi de 3,8 kg por unidade – o que é abaixo do esperado para a espécie e pode indicar irregularidades comerciais e possíveis perdas fiscais.

Segundo o médico-veterinário Pierre Barnabé, que assina a carta, um estudo conduzido por sua equipe com 104 jumentos destinados ao abate identificou graves problemas de saúde nos animais e falhas no controle sanitário, o que poderia favorecer a transmissão de doenças dos animais para os seres humanos.

“Os dados econômicos agora disponíveis são inequívocos: o abate de jumentos é inviável, não é relevante para a economia nacional e não gera desenvolvimento social. Trata-se de uma atividade predatória, de curto prazo, cujo colapso é previsível e já em curso”, conclui a carta.

Os pesquisadores defendem ainda que o jumento nordestino seja reconhecido como patrimônio genético, cultural e ambiental, além da implementação de políticas públicas voltadas à conservação da espécie. O tema foi tratado em uma reportagem da Super da edição 480, de outubro de 2025, que pode ser lida aqui.

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Fonte: abril

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