O Grão de Amor Cozinha Afetiva foi uma ideia que apareceu pela primeira vez em 2021, quando Maria Clara Reginatto de Wallau e Virgílio Chiari Gatto, de 43 e 45 anos, trabalhavam com faxinas e limpeza de jardins. Em uma dessas ocasiões, Maria Clara conversou com uma cliente que enfrentava um quadro severo de depressão.
“Ela sentiu a depressão dela só pela situação da casa”, relatam. A conversa acabou chegando à alimentação, descrita como “sem vida, completamente industrializada”, o que, para Maria Clara, contribuía para o agravamento do estado emocional da cliente. Foi ali que surgiu a proposta de Virgílio cozinhar semanalmente para ela.
“Comentou sobre a pastinha de grão de bico que ajuda a fortalecer o sistema imunológico e melhora a sensação de bem-estar. Os olhinhos dela brilharam tanto que topou na hora.” A partir desse dia, a ideia do Grão de Amor começou a germinar.
Com a experiência de Virgílio na gastronomia e a compreensão de que “somos o que comemos”, o projeto foi tomando forma como uma nova oportunidade de criar algo diferente do que já haviam feito antes. “Com mais clareza, mais verdade, mais amor e com propósito”, definem.
Até julho do ano passado, o atendimento acontecia apenas por encomendas e pequenos eventos. Em agosto do mesmo ano, o espaço foi adaptado para receber clientes no local, sempre mediante reserva. O atendimento reduzido não é por acaso, já que a cozinha funciona em ritmo próprio, com equipe pequena e número limitado de atendimentos.
“Ambos optaram por um preparo sem pressa e totalmente artesanal, selecionando sempre os melhores ingredientes”, explicam. A limitação de clientes permite que a experiência aconteça “sem correria, no tempo certo e em total conexão com o ambiente”.
Inserido em meio à natureza, o Grão de Amor foi pensado para receber poucos clientes. “A proposta sempre foi inserir a cozinha em meio à natureza e para poucos clientes”, afirmam. A ideia é que quem chega possa se desconectar do ritmo urbano e se permitir observar o entorno. “Fazer com que o cliente possa se conectar com a natureza, observando os pássaros, o balançar das árvores, um encontro inesperado talvez com um quati ou cutia”, tudo isso enquanto a comida desperta “lembranças e momentos afetivos da nossa tão valiosa vida”.
Embora ainda não exista uma horta estruturada no espaço, a relação com a terra está presente no cotidiano do restaurante. Virgílio é responsável pelas criações dos pratos, buscando “novos sabores, texturas e tudo que o cerrado e a terra podem oferecer”, enquanto Maria Clara cuida do jardim, da organização e da limpeza. Aos poucos, temperos e ervas vêm sendo inseridos no espaço, além da parceria com uma horta comunitária e com vizinhos do bairro que produzem alimentos e compartilham parte da colheita com o restaurante.
Os ingredientes são limitados e o cardápio acompanha as estações de Chapada dos Guimarães No período de chuvas, massas ganham mais espaço; na seca, os assados se destacam. Pratos como feijoada e Maria Izabel permanecem fixos, enquanto ingredientes do cerrado aparecem conforme a época. Durante a safra do pequi, por exemplo, surgem preparações como risoto de carne seca com pequi e lasanha de frango com o fruto.
Mais do que um restaurante, eles ressaltam que o Grão de Amor se define por valores. “Nutrir com responsabilidade”, afirmam. Para eles, a alimentação é uma forma de conexão com o próprio ser. “Quando se tem consciência da origem do alimento, do que estamos ingerindo e dos benefícios que uma boa alimentação pode nos proporcionar, o ser humano começa a ter domínio de si mesmo.”
Hoje, o espaço oferece café da manhã, almoço e jantar sob reserva, além de jantares especiais, encontros para até 20 pessoas, encomendas de congelados e entregas. Há ainda a intenção futura de criar um pequeno empório com produtos gastronômicos, artesanato e plantas.
Olhando para a trajetória até aqui, Maria Clara e Virgílio reconhecem os desafios, mas acreditam no projeto de apostar em comida de verdade em uma cozinha que segue o próprio ritmo. “Com todas as dificuldades da Chapada e do Grão de Amor, sentimos que estamos no caminho certo e que aos poucos essa joia bruta será lapidada.”
Fonte: Olhar Direto






