O chamado Caso Varginha ou Incidente em Varginha consolidou-se, ao longo das últimas décadas, não apenas como um episódio ufológico específico, mas como um fenômeno social de grande alcance no Brasil. A cidade passou a integrar o circuito do turismo ufológico, com monumentos, eventos temáticos e uma identidade pública associada ao suposto encontro com seres extraterrestres.
Paralelamente, formou-se uma bibliografia volumosa e heterogênea. Livros abundam, os principais escritos por personagens que tiveram envolvimento com a investigação: Incidente em Varginha (Vitório Pacaccini, 1996), O Caso Varginha (Ubirajara Rodrigues, 2001) e Varginha: Toda a Verdade Revelada (Marco A. Petit).
São muitas também as reportagens, desde as mais clássicas no programa Fantástico até as abundantes coberturas mais recentes, especialmente agora que o caso completa 30 anos. Isso para não falar numa profusão de vídeos nas diversas redes sociais, com apoiadores e detratores expondo os pontos fortes e/ou fracos da hipótese extraterrestre – a ideia de que uma série de eventos descritos em e ao redor de Varginha, Minas Gerais, centrados no dia 20 de janeiro de 1996, teve como causa a presença de uma forma de vida alienígena. Humildemente, sem muita pretensão, eu mesmo produzi uma série de vídeos sobre o caso.
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E não podemos esquecer também os documentários, que desde 1996 vêm construindo diversas narrativas a respeito. Uma produção em particular tem, nos anos recentes, trazido maior repercussão internacional: o documentário Momento de Contato, do americano James Fox, originalmente lançado em 2023, mas com uma nova versão em 2025. Mais recentemente, de 6 a 8 de janeiro, a Rede Globo exibiu o documentário Mistério de Varginha, que além da celebração dos 30 anos, trouxe novidades importantes.
Agora que todo mundo está falando sobre isso, é de extrema importância apresentar uma análise criteriosa do caso. Esse dossiê é uma tentativa nesse sentido. É um resumo de algo maior, mas traz os principais pontos de controvérsia.
No dia 13 de janeiro de 1996, Carlos de Souza, empresário paulista e piloto amador de ultraleve, viajava pela Rodovia Fernão Dias quando, nas proximidades de Varginha, afirmou ter observado um objeto aéreo com dificuldade de se manter em altitude. Segundo seu relato, o objeto liberava fumaça branca para os lados e emitia um ruído irregular, comparado ao de uma “máquina de lavar desregulada”. Souza decidiu acompanhar o objeto, acreditando que poderia haver pessoas a bordo necessitando de ajuda, e afirma ter chegado ao local de sua queda, posteriormente identificado como a Fazenda Maiolini.
Souza relata ter sido abordado por um homem fardado que o teria impedido de permanecer no local. Afirma ter visto fragmentos metálicos do objeto, incluindo um material fino que, ao ser amassado, retornava imediatamente à forma original. Segundo ele, militares teriam tomado esse material de sua mão. Ele descreve uma intensa operação militar, com cerca de 30 a 40 pessoas realizando uma varredura no terreno (catando pedaços do metal), dois caminhões do Exército, um helicóptero de grande porte, uma ambulância camuflada (mas com uma cruz) e um forte cheiro de amônia. Também afirma ter visto diversos fragmentos metálicos sobre os caminhões, sendo o maior comparável à traseira de um automóvel Opala.
Souza ainda afirma que mais tarde, ao parar em um posto para se alimentar, foi abordado por homens vestidos de preto que demonstravam conhecer detalhes de sua vida e o teriam advertido para não comentar o ocorrido. Depois deixaram o local em um Opala preto. Assustado, Souza diz ter retornado imediatamente a São Paulo.
Em outro episódio, na Fazenda Castilho, próxima a Varginha, o casal de caseiros Eurico e Oralina relata que, durante a madrugada, observou um objeto esbranquiçado, descrito como semelhante a um “micro-ônibus”, soltando fumaça pela parte traseira e sobrevoando lentamente o pasto antes de desaparecer. O casal só associou o ocorrido a algo incomum após tomar conhecimento, dias depois, dos relatos sobre criaturas vistas na cidade em 20 de janeiro. Ao contrário do que muitos alegam, não é possível associar o avistamento seguramente ao evento no dia 20.
Essas testemunhas não estão na origem do caso. Eurico e Oralina reinterpretaram sua experiência à luz dos boatos que circularam após o episódio das três meninas (Kátia, Valquíria e Liliane, das quais logo falaremos), o verdadeiro ponto zero da narrativa construída sobre o “Caso Varginha”. Considero improvável que tenham inventado deliberadamente a história; tudo indica que viram algo real, ainda que impossível de identificar com precisão a partir de seu relato.
O relato de Souza, por sua vez, apresenta problemas substanciais. Ele só veio a público em outubro de 1996, quando o Caso Varginha já estava amplamente difundido pela mídia. Souza relata que um amigo lhe comentou sobre um dossiê publicado na Revista Planeta em setembro daquele ano. Ao consultar essa edição, chama a atenção o fato de que vários elementos centrais de seu relato já apareciam ali: o avistamento de Eurico e Oralina, a hipótese de queda de uma nave com uma extremidade danificada, o espalhamento de fragmentos metálicos pela região e a menção ao cheiro de amoníaco.
Outro ponto problemático é a descrição do material metálico com “memória de forma”, que retorna ao formato original após ser amassado, bem como a cena de militares recolhendo destroços espalhados e transportando fragmentos em caminhões. Essas imagens são notavelmente semelhantes a cenas do filme Roswell (1994; veja aqui e aqui), lançado pouco antes dos eventos de Varginha e amplamente conhecido à época. A coincidência é, no mínimo, digna de nota.
Inconsistências acumulam-se quando se comparam as diferentes versões do relato de Souza ao longo do tempo. Em 1996, ele afirmou ter encontrado o local da suposta queda já sob controle militar; em entrevistas posteriores, como a concedida a Marco Leal em 2018 e no documentário Momento de Contato (James Fox, 2023, 2025), passa a dizer que os militares chegaram depois dele, cerca de 10 a 15 minutos mais tarde. Há também uma contradição importante: no documentário de James Fox, Souza afirma claramente que um militar lhe apontou uma arma. Contudo, na entrevista de 2018 ele declara explicitamente que, se dissesse que lhe apontaram uma arma, estaria mentindo.
Há também divergências cronológicas relevantes. O horário da parada no posto varia de 10h-11h, em 1996, para cerca de 6h-7h, em 2018. O número de pessoas presentes no Opala muda de um indivíduo, na versão inicial, para dois nas versões posteriores. Em entrevista ao Projeto 93, surge ainda um episódio envolvendo um garçom que teria ouvido as ameaças, elemento ausente de todos os relatos anteriores.
Por fim, Souza foi submetido a uma sessão de hipnose regressiva, cujo vídeo está disponível desde 2023 no YouTube, na qual passa a relatar a presença de seres, contato telepático e outras alegações impossíveis de verificar. Há boas razões para o ceticismo quanto à utilidade da hipnose nesse contexto.
No documentário Momento de Contato, uma testemunha-chave de 1996 reaparece sob o pseudônimo de “Militar X”, alegando que os eventos teriam começado na Fazenda Maiolini. Porém, quando questionado posteriormente por ufólogos a respeito dessa alegação, o militar não a sustentou mais, dizendo não ter essa informação (OVNI Pesquisa 22, 2025, p. 9), o que reforça a instabilidade geral da narrativa.
A primeira captura
Alega-se que na manhã de 20 de janeiro de 1996, bombeiros militares capturaram uma criatura estranha no bairro Jardim Andere, Varginha, onde, mais tarde, Kátia, Liliane e Valquíria alegaram ter visto, no muro de uma oficina, uma criatura estranha. Essa alegação baseia-se num dos principais relatos do caso, o “testemunho” de Robson Oliveira.
O relato, gravado em áudio, foi colhido em 16 de fevereiro de 1996 pelo ufólogo Vitório Pacaccini, um dos principais investigadores dos alegados eventos. A história de Oliveira, hoje falecido, foi o que deu a alguns ufólogos a convicção de que algo anormal realmente ocorreu.
Até muito recentemente, tudo que sabíamos sobre o testemunho de Oliveira vinha de diversas obras em que sua identidade era preservada, como Incidente em Varginha (Pacaccini e Ports, 1996) e O Caso Varginha (Franco Rodrigues, 2001). Porém, em 2023, o investigador João Marcelo disponibilizou em seu canal quase 10 minutos desse testemunho (que no total dura mais de 40 minutos), e decidiu, para a fúria de muitos, identificar o envolvido (com o consentimento prévio dele, é claro). Oliveira disse a João Marcelo que poderia identificá-lo após sua morte. João Marcelo cumpriu o prometido.
Vou resumir aqui os principais pontos dos 10 minutos.
O bombeiro militar Robson Oliveira afirma que na manhã do dia 20, pouco antes das 8h, durante a passagem de turno (ele havia trabalhado no dia 19), surgiu um chamado para capturar um “bicho no mato”, ocorrência considerada rotineira. Oliveira não participou da ação, por estar encerrando o plantão. Pouco depois, soube, via rádio, que o animal havia sido capturado e que um caminhão do Exército encontrava-se no local, o que despertou sua curiosidade. Ele então decidiu acompanhar o comandante (o então major Francisco Maciel) até o local da captura, onde, por volta das 10h30, encontrou o ser já acondicionado em uma rede, dentro de uma caixa de madeira, colocada em um caminhão militar.
Oliveira afirma que não viu a criatura, tendo apenas ouvido um chiado vindo do interior da caixa, e que a descrição partiu de colegas que participaram da captura: um ser de cerca de meio metro, com olhos grandes, ovais e vermelhos, três protuberâncias na cabeça, corpo marrom de aparência suja e viscosa, braços finos, barriga volumosa e aspecto debilitado. Durante o transporte, Oliveira seguiu de carona com militares até certo ponto e foi advertido de que se tratava de uma missão secreta; posteriormente, segundo ele, houve uma reunião no Corpo de Bombeiros reforçando a ordem de silêncio. Oliveira encerra afirmando que o episódio envolvia algo que, em sua avaliação, “não é deste mundo”.
A narrativa tem diversos problemas.
O relato foi colhido por Pacaccini em 16 de fevereiro, quando o bombeiro já poderia ter ouvido (e certamente ouviu) os inúmeros boatos que corriam desde 20 de janeiro, bem como poderia ter assistido à reportagem do Fantástico, que foi ao ar em 4 de fevereiro. E ele de fato assistiu. Como sei disso? O próprio Oliveira diz.
No Fantástico, as meninas descrevem a criatura. E a descrição de Oliveira é bastante similar. Porém, o bombeiro fala sobre a criatura ser um pouco barriguda. Isso não consta na matéria do Fantástico. De onde poderia ter tirado isso? Ora, dos boatos. Mas você não precisa acreditar na minha palavra. Na revista Manchete (RJ) de 10 de fevereiro de 1996 lê-se sobre uma senhora que teria ligado para os bombeiros e pedido para eles cuidarem “bem do ET, porque ele estava grávido” (p. 17).
Naquela mesma matéria do Fantástico, Oliveira ainda pôde ouvir sobre o suposto envolvimento dos bombeiros. Ele diz que o capitão Pedro Alvarenga, do Corpo de Bombeiros, havia sido punido por ter dado entrevista ao Fantástico. Adicionalmente, a reportagem também traz alegações do envolvimento de caminhões da Escola de Sargentos das Armas (ESA), em Três Corações.
Cruzando informações divulgadas em livros sobre o tema, é fácil concluir que foi Oliveira quem divulgou os nomes dos seguintes supostos envolvidos na captura: sargento Palhares, cabo Rubens e os soldados Nivaldo e Santos. Porém, como a revista OVNI Pesquisa 22 (janeiro de 2025) publicou em matéria assinada por “equipe”, e o investigador João Marcelo apresentou em lives, nas escalas de serviço daquele 20 de janeiro não constam os nomes de Palhares e Rubens. Portanto, Oliveira coloca no local da captura pessoas que nem sequer estavam de serviço naquele dia. Teria ele inventado tudo, ou a ausência dos nomes indica acobertamento?
Aparentemente, ele inventou tudo. A OVNI Pesquisa 22 (p. 7) traz ainda uma informação bombástica: em conversas mais recentes, Oliveira “voltou atrás dizendo que inventou tudo por força de coação” e teria demonstrado arrependimento por ter dado falso testemunho. Essa informação foi confirmada no documentário O Mistério de Varginha, terceiro episódio, no qual podemos ouvir um áudio, gravado pelo investigador João Marcelo, no qual Oliveira fala que “aquilo lá [o relato], foi manipulado, não teve nada… foi tudo uma manipulação”. O bombeiro ainda dá mais alguns detalhes: “Acho que a pessoa hipnotiza você: ‘vai falar isso, isso e isso. Você topa falar?’”. Segundo o bombeiro, foi tamanha a persistência que ele disse: “o que você quer que eu [sic] falo? Tanto que depois eu [me] arrependi”.
A criatura no muro
O episódio mais conhecido do Caso Varginha ocorreu na tarde de 20 de janeiro de 1996, quando as irmãs Liliane (16) e Valquíria (14), acompanhadas de Kátia Xavier (22), voltavam para casa por volta das 15h30 pelo Jardim Andere, área então marcada por terrenos baldios e trechos de mata. Antes do avistamento, elas já se encontravam apreensivas, após terem sido alertadas para a possível presença de um importunador na região.
Ao mudarem o trajeto, passaram por um terreno baldio na Rua Benevenuto Braz Vieira, ao lado de uma oficina, onde afirmam ter visto, à luz do dia, uma criatura agachada e imóvel, descrita como humanoide, com pele marrom de aspecto oleoso, olhos grandes e vermelhos, pés grandes, veias aparentes e três protuberâncias na cabeça. O encontro durou poucos segundos. As três fugiram em pânico; Liliane chegou em casa em estado de choque, dizendo ter visto o demônio.
Sua mãe, Luíza Helena, foi ao local do encontro pouco depois, alegando ter sentido um cheiro estranho e observado pegadas grandes de três dedos, embora esses detalhes não tenham sido confirmados por outras pessoas presentes, nem apareçam de forma consistente nos relatos iniciais, sendo provavelmente adições posteriores.
Ainda segundo Luíza, por volta das 22h-23h do dia 29 de abril daquele ano, quatro homens foram a sua casa oferecendo dinheiro em troca de uma mudança de versão, que negasse terem visto algo. A proposta teria sido recusada.
A análise do relato das meninas é particularmente delicada. Há uma consistência geral no que elas têm contado ao longo dos anos. Mas é impossível afirmar com segurança o que exatamente viram. O próprio contexto oferece múltiplos fatores que podem ter influenciado a percepção: o aviso prévio sobre um possível importunador, a apreensão, o ambiente pouco convidativo, brincadeiras anteriores de susto (elas falam disso em conversa com John E. Mack, psicólogo de Harvard), o impacto emocional do encontro e, posteriormente, a contaminação da memória pelo imaginário popular da cidade.
Esse imaginário não é irrelevante. A área do chamado “terreno de Zé Gomes”, nas imediações do lote pelo qual passaram as meninas, já era cercada por lendas muito antes de 1996. Zé Gomes era descrito como uma figura estranha, associada a práticas de magia negra, pactos demoníacos e aparições de criaturas com olhos vermelhos e aspecto incomum em suas terras. Isso não significa que as meninas “viram um demônio”, mas mostra como certos símbolos e imagens já estavam disponíveis culturalmente e poderiam, em uma situação de estresse, moldar a forma como a experiência foi interpretada. Uma narração mais completa dessas lendas está disponível no canal do João Marcelo.
O próprio ufólogo Ubirajara Rodrigues, hoje cético de uma interpretação extraterrestre do caso, reconhece isso ao afirmar que as pessoas descrevem o que veem a partir de seus sentidos físicos, mas que suas narrativas são inevitavelmente moldadas por suposições, impressões subjetivas e referências culturais. Não se trata de dizer que o avistamento foi imaginário, nem de afirmar que houve um ser extraordinário, mas de reconhecer que percepção, memória e contexto interagem de forma complexa.
No fim das contas, o avistamento das meninas existiu. Algo causou medo real e deixou marcas emocionais profundas. O que exatamente estava ali naquele terreno, no entanto, permanece em aberto. A resposta oficial do Inquérito Policial Militar, que atribui o avistamento a um morador conhecido como Mudinho, parece mais uma tentativa de encerrar o assunto do que uma investigação aprofundada. Pode ter sido ele? Pode. Pode não ter sido? Também pode. O que me parece claro é que o episódio diz tanto sobre psicologia, contexto social e construção de narrativas quanto sobre qualquer hipótese extraordinária.
Sobre a visita dos “homens de preto”, ufólogos aventam a possibilidade de que, na verdade, eram pessoas ligadas a uma emissora de TV rival da Rede Globo, que planejavam manchar a reputação de sua competidora. Importante ressaltar que essa narrativa evoluiu, e hoje alegam que um dos homens era “gringo”, não falava português. Curiosamente, isso não consta originalmente no relato de Luíza. Por exemplo, veja o relato de junho de 1996, quando foi entrevistada por Goulart de Andrade para o Comando da Madrugada.
A segunda captura: a morte do policial
Os próximos eventos dentro da cronologia do caso são a suposta captura de outra criatura na noite do dia 20 e, sobretudo, o falecimento do policial militar Marco Eli Chereze. Muitos acreditam que o PM morreu devido a alguma doença transmitida pela “criatura”. Mas existe alguma evidência concreta de que Chereze tenha sido contaminado por algo extraterrestre?
Na noite de 20 de janeiro de 1996, por volta das 18h, Varginha foi atingida por uma das chuvas mais intensas já registradas na cidade. Árvores caíram, fios de energia e telefonia se romperam, houve apagão e um cenário generalizado de caos urbano. Nesse cenário, encontramos Marco Eli Chereze e Eric Lopes, policiais vinculados ao setor de inteligência e investigação da Polícia Militar, o chamado “P2”. Marco estava no banco do carona de um carro que apresentava um defeito: o vidro da janela não fechava, o que fez com que ele se molhasse bastante durante a tempestade.
O expediente dos dois deveria terminar antes das 19h, mas há consenso de que ambos permaneceram em atividade além do horário normal, supostamente por estarem em alerta para qualquer movimentação estranha no Jardim Andere. Já circulavam boatos sobre o que as meninas tinham visto ali durante a tarde.
Quando a chuva diminuiu, Chereze decidiu ir até a casa dos pais. Conseguiu uma muda de roupas secas, avisou à mãe que permaneceria em serviço até mais tarde e pediu que ela avisasse sua esposa, caso fosse procurado. Isso é um ponto bem estabelecido e confirmado tanto pela mãe quanto pela esposa: naquela noite, Chereze de fato trabalhou além do expediente regular. Feita a troca de roupa, Chereze e Lopes retomaram as rondas. O tempo seguia instável, com chuviscos ocasionais, e em determinado momento passaram pela Rua Benevenuto Braz Vieira, local do avistamento das meninas. Em seguida, dobraram à esquerda na Rua José Afonso de Campos. Foi ali que Lopes freou bruscamente: algo teria saído das obras à esquerda, cruzado a frente do carro e corrido em direção ao mato.
É nesse ponto que surge a narrativa da suposta captura. Segundo a versão que se disseminou, Chereze teria descido do veículo, avançado sobre a criatura e conseguido contê-la sem encontrar grande resistência. Os policiais teriam colocado o ser no carro, e partido em busca de atendimento médico, já que a criatura aparentava estar debilitada. Teriam ido primeiro a um posto de saúde, onde um médico teria orientado que levassem o prisioneiro para outro lugar, talvez um hospital ou um zoológico.
Mas investigações conduzidas por Ubirajara Rodrigues, João Marcelo e outros pesquisadores indicam que o posto de saúde citado simplesmente não funcionava aos sábados (ver OVNI Pesquisa 22, 2025). Moradores, ex-funcionários e vigias confirmaram que não havia plantão. Isso torna essa parte da narrativa insustentável. Se algo foi levado a algum lugar, não passou por posto algum; a única possibilidade seria o Hospital Regional.
Chereze faleceu em 15 de fevereiro de 1996, aos 23 anos, e rapidamente sua morte foi incorporada ao imaginário ufológico como consequência direta de uma infecção “alienígena”. Mas os documentos médicos e periciais não dão suporte a essa narrativa. O que se tem registrado é que, em 7 de fevereiro, Chereze foi submetido à retirada de uma pequena pústula na região da axila direita, procedimento realizado na clínica do próprio quartel da Polícia Militar. Três dias depois, começou a apresentar dores intensas, febre persistente e dor nas costas; um quadro compatível com pneumonia, por exemplo. No dia 11, foi internado no Hospital Bom Pastor e, no dia 15, transferido para o CTI do Hospital Regional, onde faleceu.
A necrópsia, assinada pelos médicos Armando Fortunato Filho e José da Frota Vasconcelos, é clara: não havia lesões externas de interesse médico-legal. A única ferida descrita era uma incisão de 0,5 cm na axila direita, em processo de cicatrização, compatível com o local da retirada da pústula. Não havia arranhões, marcas estranhas ou qualquer evidência de contato traumático com outro organismo. A causa da morte foi uma infecção pulmonar por bactérias (Enterobacter aerogenes, hoje reclassificada como Klebsiella aerogenes). Outra bactéria, Staphylococcus schleiferi, foi encontrada na axila.
Um dos mitos mais persistentes sobre a morte do policial é o da “substância tóxica desconhecida” em concentração de 8%. Isso é uma má interpretação dos exames. Um hemograma (reproduzido no livro de Ubirajara) menciona “granulações tóxicas finas” em algumas células, tecnicamente chamadas de neutrófilos. Nada disso indica substância desconhecida. Granulações tóxicas são um marcador clássico de ativação celular em infecções sistêmicas, sepse, pneumonia, câncer e outras condições. O termo “tóxico” não se refere a algo exótico, mas ao estado funcional da célula. Os achados são plenamente compatíveis com infecção bacteriana terrestre.
Também se alega um atraso de quase um ano na liberação do auto de necrópsia. Há registros de que o atraso se deu por questões burocráticas e financeiras, e não por suposto “acobertamento”. O Instituto de Propedêutica e Diagnóstico, dirigido à época por João Janini, reteve os exames até que os custos fossem pagos. O próprio Janini confirmou isso em entrevista. Curiosamente, ele é um dos médicos que defende a hipótese da contaminação alienígena, o que torna incoerente a ideia de que estaria ocultando informações para proteger uma versão oficial.
Por falar nele, precisamos analisar criticamente o relatório produzido posteriormente por Janini, no qual ele sugere que Chereze teria sofrido uma lesão cutânea superficial e sido infectado por Staphylococcus schleiferi. Essa conclusão entra em conflito direto com o auto de necrópsia e ignora o fato central: a bactéria associada ao óbito estava nos pulmões e era Enterobacter/Klebsiella, uma bactéria relativamente comum em infecções hospitalares.
De onde vieram os detalhes da suposta captura noturna? Em entrevista, Ubirajara Rodrigues conta que muita gente pensa que a informação sobre a captura e envolvimento dos PMs veio do policial Eric Lopes, mas isso não é verdade. A fonte original foi o falecido titular do Cartório de Registro Civil de Varginha, Antônio José Alves Dalia, que era amigo de Rodrigues. Foi ele quem mostrou a Rodrigues o atestado de óbito de Chereze e deu toda uma narração do que teria ocorrido.
Dalia, no entanto, não disse qual seria sua fonte. Os detalhes teriam sido complementados pela irmã do PM falecido e por alguém que verificou escalas de serviço e constatou que Chereze e Lopes estavam de plantão no dia. A conexão foi sendo construída retroativamente.
Marco Eli Chereze morreu de uma infecção bacteriana conhecida, associada a complicações pulmonares, em um contexto perfeitamente compatível com infecção hospitalar. Não há qualquer evidência empírica de contaminação extraterrestre. Insistir nessa explicação exige aceitar uma cadeia de eventos altamente improvável e ignorar explicações simples, documentadas e bem estabelecidas. É preciso separar com rigor aquilo que é evidência daquilo que é convicção ou desejo.
Um ET nos hospitais
Alega-se que, após a recusa de atendimento no posto de saúde, os policiais teriam levado a criatura ao Hospital Regional do Sul de Minas, em Varginha, chegando por volta das 21h. A partir daí, inicia-se uma sequência de relatos que descrevem uma movimentação fora do comum: interdição de uma ala, transferência de pacientes para outros setores e, ao longo da noite e da madrugada de 21 de janeiro, a presença de policiais militares e homens do Exército, fardados e armados, circulando pelo hospital.
Testemunhas da suposta movimentação incluem moradores das proximidades, pessoas que passaram em frente ao hospital, indivíduos que entraram no local naquela noite e funcionários da própria instituição. O que todos os relatos têm em comum é a descrição de uma quebra abrupta da rotina hospitalar, com restrições de acesso e vigilância militar constante.
Ainda segundo essa narrativa, na madrugada de 21 de janeiro a criatura teria sido transferida do Hospital Regional para o Hospital Humanitas, localizado em uma área mais afastada da cidade. A transferência teria sido feita em uma ambulância, justamente para evitar tumultos, embora vizinhos do Hospital Humanitas relatem ter observado movimentação militar nas imediações.
A cronologia mais citada, como a apresentada pela revista UFO, afirma que em 22 de janeiro, por volta das 9h, o Exército, por meio da ESA, teria feito uma primeira tentativa de retirar a criatura do Hospital Humanitas. Essa tentativa fracassou. Uma segunda investida, à tarde, teria sido bem-sucedida.
Mas há evidências sobre a passagem das criaturas pelos hospitais?
Matéria do jornal Estado de Minas (reproduzida no livro de Ubirajara) sugere que uma autoridade judicial teria confirmado a captura das criaturas. O texto fala explicitamente em “criaturas”, no plural, que teriam sido embrulhadas em lonas plásticas e levadas rapidamente ao Hospital Regional de Varginha.
Esse detalhe chama atenção, pois foge da narrativa canônica do caso, que fala em apenas uma criatura capturada à noite e encaminhada ao Hospital Regional.
Outro relato, também presente no livro de Ubirajara Rodrigues, descreve duas jovens que, instigadas pelos boatos, teriam ido ao Hospital Regional. Lá, um porteiro teria confirmado que algo importante havia acontecido, incluindo uma transferência para o Hospital Humanitas durante a madrugada. As jovens teriam ido até lá, onde uma enfermeira de plantão teria dito que se tratava de algo desagradável, que estava proibida de comentar, e as aconselhado a não entrar, pois ficariam impressionadas.
Há ainda o relato exibido no programa Comando da Madrugada, de junho de 1996, no qual um morador próximo ao Hospital Humanitas descreve ter observado movimentação incomum de viaturas policiais. Ele afirma que não se tratava da polícia de Varginha, mas de veículos com placas de Belo Horizonte.
Outro pilar da narrativa é o chamado “Militar X”, cujo relato aparece no documentário Momento de Contato. Ele teria sido escalado para uma missão no Hospital Humanitas. Lá dentro, afirma ter visto uma criatura sobre uma mesa de inox, cercada por médicos e militares. Descreve a pele como oleosa, semelhante a silicone, e destaca o formato do pé, em V, sugerindo dois dedos. Relata ainda a presença de outro militar, com uma câmera. Afirma ter transportado a criatura do Hospital Humanitas para a Escola de Sargentos das Armas em 22 de janeiro de 1996.
No mesmo documentário, há o relato de um radiologista, que diz ter visto um caminhão da ESA do lado de fora do Hospital Regional e várias viaturas militares no pátio interno. Relata que foi instruído a realizar uma série completa de radiografias em algo que estaria dentro de um saco preto, colocado dentro de uma caixa. Segundo ele, após a revelação das chapas, os militares recolheram todo o material e não permitiram que visse os resultados. Também descreve um cheiro extremamente desagradável que teria permanecido no ambiente por bastante tempo.
Há ainda o relato do nefrologista Fernando Eugênio do Prado, hoje falecido. Em um congresso de nefrologia no final de 1996, ele teria afirmado que, no dia 21 de janeiro, viu o corpo da criatura no necrotério do Hospital Regional. Segundo o relato, teria sido barrado na porta da sala de autópsia, mas conseguiu ver um cadáver sobre uma mesa, com pele amarronzada, cabeça grande e olhos grandes, além de pele de aspecto úmido.
Mais recentemente, o neurocirurgião Ítalo Venturelli ganhou destaque na mídia mundial. Venturelli inicialmente afirmou ter visto apenas um vídeo gravado no Hospital Regional, em um cenário hospitalar, sem militares, com a criatura sobre uma maca; mais recentemente, no documentário Momento de Contato, passou a dizer que viu o ser ao vivo, reescrevendo substancialmente sua versão.
Todas essas histórias dependem, essencialmente, da veracidade da chamada segunda captura. E essa captura, até onde se pode demonstrar, existe apenas como boato. Não há fato que a comprove. Para piorar, sabe-se com certeza que o posto de saúde mencionado não funcionava naquela noite; ele não abria aos sábados.
Se não houve captura, tudo o que vem depois cai, como um efeito dominó.
Mesmo supondo, por hipótese, que a captura tivesse ocorrido, a narrativa continua sem fazer sentido. Se o Exército e a Polícia Militar já estavam em alerta desde a manhã, por conta da suposta captura anterior, por que permitiriam que uma criatura extraterrestre fosse levada a hospitais civis? Se a intenção fosse acobertar o caso, o procedimento lógico seria levá-la diretamente a uma instalação militar, não expor médicos, pacientes e civis a um organismo desconhecido, com riscos óbvios de biossegurança. Levar a criatura primeiro ao Hospital Regional e depois ao Hospital Humanitas não faz absolutamente nenhum sentido.
Além disso, há médicos que afirmam categoricamente não ter visto nada de diferente, nem movimentação militar, nem alas isoladas, nenhum evento fora do normal. Esses relatos existem, mas raramente são destacados.
Quando analisamos mais a fundo a chamada autoridade judicial citada pelo Estado de Minas, surgem mais problemas. Ela mistura relatos distintos, fala em duas criaturas e dá sua entrevista meses depois dos fatos, após ampla cobertura midiática. Quando os ufólogos a localizaram, ela sequer soube dizer para qual hospital a criatura teria sido levada.
O caso do nefrologista Fernando Eugênio também se desfaz: quando procurado por ufólogos, admitiu ter feito o comentário no congresso, mas explicou que o fez apenas para encerrar as brincadeiras dos colegas. Negou categoricamente ter visto qualquer cadáver estranho no IML.
Quanto a Ítalo Venturelli, suas alegações carecem do detalhamento técnico que se esperaria de um neurocirurgião diante de um organismo não humano, como informações sobre anatomia, fisiologia ou sistema nervoso. Em Mistério de Varginha, Ítalo também dá um relato. Se antes a criatura tinha olhos vermelhos, agora eles são lilases.
A exumação de um jovem ocorrida naquele período ajuda a explicar boa parte da movimentação descrita. Documentos oficiais mostram que o corpo deu entrada no necrotério do Hospital Regional no dia 16 de janeiro de 1996, e que a exumação ocorreu no dia 30. Houve, de fato, radiografias, presença policial e restrição de acesso, tudo compatível com um caso de suspeita de violência policial, não com a presença de um extraterrestre. O cheiro forte, o uso de invólucros, a necessidade de sigilo e até mesmo as radiografias completas se encaixam nesse contexto.
Do hospital para Campinas
Agora o nosso foco recai sobre uma das fases mais repetidas e, ao mesmo tempo, mais problemáticas do caso: a suposta operação militar que teria transportado uma criatura do Hospital Humanitas para a Escola de Sargentos das Armas (ESA), em Três Corações, e posteriormente para Campinas.
A base dessa narrativa são relatos atribuídos a militares da ESA, colhidos por ufólogos a partir de maio de 1996. Antes de qualquer juízo de valor, é importante deixar claro um ponto fundamental: o fato de alguém ter dado um relato não significa que o dito seja verdadeiro. A existência de testemunhas não garante, por si só, a veracidade dos eventos narrados. É justamente essa distinção que muitas vezes se perde quando se fala do Caso Varginha.
Segundo o material difundido na literatura ufológica, especialmente nos livros de Vitório Pacaccini, Marco Petit e Ubirajara Rodrigues, teria ocorrido uma segunda operação militar em 22 de janeiro de 1996 (a primeira foi o envolvimento na captura durante a manhã), destinada à retirada de uma segunda criatura do Hospital Humanitas. Essa operação teria sido realizada por um comboio oriundo da ESA, composto por três caminhões, um Fusca, um jipe e uma Kombi.
Ainda segundo essa versão, a operação de retirada do Humanitas e posterior transporte para Campinas teria sido comandada pelo então tenente-coronel Olímpio Vanderlei, com auxílio do tenente Tibério e do capitão Edson Henrique Ramírez. Os motoristas dos caminhões seriam o cabo Vassalo e os soldados De Melo e Cirilo. O Fusca seria ocupado por militares do setor de inteligência (S2), enquanto a Kombi seria conduzida por Orlando Siqueira Brasil, um funcionário civil da ESA.
Esse último detalhe já levanta uma questão importante: o que um civil estaria fazendo no meio de uma suposta operação militar sigilosa? A narrativa jamais oferece uma explicação plausível para isso.
De acordo com Pacaccini, o comboio teria chegado a Varginha pela manhã, estacionado em frente ao supermercado Paes Mendonça, e retornado a Três Corações no horário do almoço. A explicação oferecida é que a criatura ainda não estaria pronta para o transporte. Por isso, o comboio teria retornado à tarde, com uma composição levemente diferente: o soldado Cirilo teria sido substituído pelo cabo Welber.
Na operação da tarde, os caminhões teriam entrado de ré no pátio do Hospital Humanitas, permanecendo com a frente voltada para a rua. Segundo o relato, panos e lonas dos próprios caminhões teriam sido usados para montar uma espécie de “túnel” opaco entre a carroceria e uma sala do hospital, impedindo que terceiros vissem o que estava sendo embarcado. A criatura, supostamente acondicionada em uma caixa de madeira, teria então sido levada à ESA.
No dia seguinte, 23 de janeiro, o comboio, liderado pelo sargento Pedrosa, teria partido de madrugada rumo a Campinas, com três caminhões Mercedes-Benz 1418. Alega-se que pelo menos duas criaturas podem ter sido transportadas, aquela capturada pela manhã (ainda viva) e a outra durante a noite. Chegando à Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, o capitão Ramirez já estaria lá, e os militares de baixa patente teriam sido dispensados, retornando apenas no dia 24, quando, segundo Marco Petit, foram surpreendidos ao encontrar os caminhões vazios. Teriam saído de Campinas em direção à ESA às 7h.
Quando essa versão é confrontada com a sindicância instaurada pelo Exército em maio de 1996, surgem problemas sérios. Um dos depoimentos que considero particularmente relevantes é o de Orlando Siqueira Brasil, o motorista civil da Kombi.
Siqueira Brasil afirma que, em 23 de janeiro de 1996, recebeu ordem do capitão Ramírez para ir a Varginha com uma Kombi, portando uma nota de empenho, a fim de providenciar serviços de balanceamento e alinhamento de caminhões, a serem realizados pela empresa Automaco. O serviço seria realizado nos dias seguintes. No dia 24, pela manhã, ele conduziu dois caminhões; à tarde, mais dois. No dia seguinte, levou outras viaturas, mas parte do serviço precisou ser adiada por problemas técnicos com o equipamento da empresa.
Esse relato é corroborado por documentação e coincide com o depoimento do soldado De Melo, que também menciona os problemas técnicos. A movimentação descrita por Siqueira Brasil é real, comprovada e administrativa; não envolve hospital, criaturas ou operações sigilosas. Em duas ocasiões (aqui e aqui), De Melo deu sua versão sobre os fatos.
Além disso, Siqueira Brasil afirma não se lembrar da presença do soldado Cirilo, mas confirma a participação do cabo Vassalo e do soldado De Melo nessa movimentação. As fichas militares disponíveis corroboram essa informação: Cirilo não aparece como participante dessas viagens.
Outros pontos agravam o problema com a narrativa de transporte de criaturas. O soldado Cirilo declarou oficialmente que não participou de qualquer missão levando caminhões a Varginha. Também relata uma viagem a Jaguariúna, passando pelo trevo de Campinas, para buscar feno para a seção de equitação da ESA — o que pode explicar relatos de pessoas que afirmam ter visto comboios indo “para Campinas”. De Melo também menciona essa viagem a Jaguariúna em janeiro de 1996.
O caso do cabo Vassalo é particularmente problemático. Afirma ter estado na ESA às 6h30 de 24 de janeiro. No entanto, se tivesse retornado de Campinas às 7h do mesmo dia, como sugere o livro de Petit, isso seria impossível.
Outro elemento citado é a montagem de um túnel com lonas entre os caminhões e uma sala do Humanitas. Curiosamente, o próprio coronel Olímpio Vanderlei, em um de seus depoimentos, classificou a história como fantasiosa, destacando sua semelhança com cenas do filme E.T. – O Extraterrestre (1982), de Steven Spielberg, em que médicos utilizam um túnel plástico para acessar o alienígena.
A observação é pertinente: trata-se de um detalhe altamente visual, cinematográfico e simbólico, que reforça mais o impacto narrativo do que a plausibilidade operacional.
Outras testemunhas civis são frequentemente citadas, como o vigia Eduardo Praxedes e o veterinário Marcos Mina. No entanto, seus relatos são vagos, imprecisos quanto a datas e reconstruídos após a ampla divulgação do caso na mídia. Dois caminhões isolados não constituem um comboio, e nenhuma dessas testemunhas descreve a composição completa narrada pelos militares.
Há ainda relatos indiretos, como o de José Carlos Líberi, baseados em informações de terceiros, sem datas, nomes ou detalhes verificáveis. Esses testemunhos de segunda mão pouco acrescentam.
Antes de prosseguir, alguns esclarecimentos cronológicos são necessários para melhor situar o leitor. Os principais eventos do caso teriam ocorrido em janeiro de 1996. O relato do bombeiro Robson Oliveira foi colhido em 16 de fevereiro. O relato da suposta testemunha que ficou conhecida na crônica ufológica como Militar 2 (às vezes chamado de Militar X) foi colhido no dia 4 de maio. A Escola de Sargentos das Armas abriu, também em maio, uma sindicância, procedimento que se estendeu dos dias 10 a 21 daquele mês. O relato da testemunha identificada como Militar 3, que confirmava as alegações do Militar 2/X, foi gravado no dia 21 de maio (segundo Petit, Varginha: Toda a Verdade Revelada). Um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o caso foi conduzido em 1997. Agora, sim, podemos proceder.
Talvez o ponto mais problemático de toda essa narrativa seja a forma como os relatos dos militares da ESA foram colhidos por ufólogos que investigaram o caso. Pacaccini admite ter feito um “preâmbulo” com as testemunhas, com o objetivo de deixá-las mais à vontade. Em termos metodológicos, isso é extremamente grave: um preâmbulo pode induzir respostas, contaminar o relato e moldar a narrativa.
Além disso, dois militares foram ouvidos juntos (sem que fossem gravados, contudo), permitindo que um completasse a fala do outro, algo inadequado em qualquer procedimento rigoroso de coleta de testemunhos.
Em 4 de maio, dias depois dessa primeira tomada de relatos por Pacaccini, um dos militares ouvidos, identificado nos documentários como Militar X (ou Militar 2, um cabo da ESA), aceitou gravar vídeo durante uma reunião considerada histórica pela ufologia brasileira; nessa reunião, que ocorreu em Varginha, a imprensa foi convocada para que ufólogos apresentassem os resultados mais recentes de suas investigações. Um trecho do relato foi ao ar no Fantástico do dia 12. Muito providencial que o militar tenha aceitado gravar o relato justamente no dia dessa reunião, durante a qual Pacaccini revelou à imprensa o nome dos militares supostamente envolvidos.
Um segundo relato, dessa vez atribuído ao chamado Militar 3 (um soldado da ESA), foi gravado em 21 de maio, quando os nomes, datas e detalhes do caso já haviam sido amplamente divulgados pela mídia. A confirmação tardia, portanto, tem valor probatório muito limitado.
Há ainda depoimentos registrados no IPM de 1997 que indicam uma abordagem altamente questionável por parte de Pacaccini, envolvendo sugestões de pagamento por informações ou vídeos relacionados ao caso. Tanto o sargento Caubi Valério quanto o intermediário Alessandro relataram insistência na ideia de que uma emissora de televisão pagaria grandes quantias por material audiovisual sobre o caso. Independentemente da intenção real, a percepção de tentativa de suborno é grave e compromete ainda mais a credibilidade do processo investigativo ufológico.
Pacaccini, contudo, nega que em qualquer momento do caso tenha pago para obter informação. Mas, em entrevista a Marco Leal, a irmã de Marco Eli Chereze, Marta Tavares, falando de Pacaccini, disse o seguinte: “Olha, a gente participou de uma investigação muito particular onde várias pessoas falavam; obtive informação de militar da ESA na época em que Vitório Pacaccini pagou para obter uma informação”.
Porém a maior bomba, prenunciada na OVNI Pesquisa 22, caiu quando foram ao ar os episódios 2 e 3 d’O Mistério de Varginha. Ali temos novas declarações de Oliveira, do Militar 2/X e do Militar 3, que em 1996 gravou um relato confirmando a narrativa do Militar 2 e fornecendo mais alguns detalhes. Desde então, o Militar 3 não havia dado novas declarações. De forma chocante, revelou que tudo não passava de um enredo ensaiado.
Segundo ele, “tudo isso aí é criação e invenção da cabeça do Vitório [Pacaccini]”, e complementa: “Ele me contou essa história e se eu poderia gravar essa história com ele; e eu, jovem demais, inocente, caí na conversa”. Ainda segundo o Militar 3, eles ensaiavam o que tinham que dizer; também afirmou que o Militar 2 recebeu dinheiro para gravar, e que ele também recebeu promessas de remuneração, mas que não foram cumpridas.
O Militar 3, anônimo (embora saibamos que é realmente a mesma pessoa que deu seu relato em 1996), não é o único a comprometer a narrativa do Militar 2/X. Entra em cena um novo personagem, de cara limpa: Carlos Henrique Bezerra. Ele contou que em 1996 o Militar 2 almoçava e jantava em seu restaurante (em Três Corações) com frequência e, assim, desenvolveram amizade. Um dia, o Militar 2 contou a ele a história do ET, mas alertou que se Bezerra falasse para alguém, diria que ele estaria louco. Bezerra ainda faz a seguinte revelação:
“Mas aí, eu conversando com ele, eu falei assim: ‘você quer ganhar uns trocados? Eu arrumo um ufólogo para te dar uma ajuda para você falar, tudo em sigilo’. Aí ele topou”.
Interpelado pelo repórter Paulo Gonçalves, um dos diretores do documentário da Globo, Bezerra confirma que esse ufólogo seria Vitório Pacaccini. O Militar 2/X nega ter sido remunerado, mas diz “ofertas, eu tive, mas eu não ganhei dinheiro”. Ele não diz de quem vieram as ofertas. Importante: o Militar 2 diz que Bezerra era uma pessoa de extrema confiança sua.
Não bastasse isso, entra em jogo o ex-soldado Ricardo de Melo, que em 1996 servia na ESA e teve o nome envolvido no episódio. Segundo De Melo, ele suspeitou ter reconhecido um dos militares que falaram com Pacaccini. Contatou a pessoa suspeita e ela confirmou que havia recebido dinheiro para gravar. E que se soubesse a repercussão, teria cobrado mais. Quem era essa pessoa? O Militar 2.
Mas o Militar 2 teria alguma motivação para mentir? No vídeo de 1996, diz: “Eu já não gosto muito do Exército”.
Quando todos esses elementos são analisados em conjunto (documentos oficiais, relatos contraditórios, falhas metodológicas, reconstruções tardias da memória e até retratações explícitas), a narrativa de que criaturas foram capturadas e transportadas para Campinas simplesmente não converge.
O que se observa é uma confusão entre movimentações militares reais, rotineiras e documentadas, ocorridas nos dias 25 e 26 de janeiro, com uma narrativa extraordinária retrojetada para o dia 22, sem sustentação sólida. A história, da forma como contada, não se sustenta. O Exército não está dizendo que a movimentação da ESA ocorreu no dia 22, mas que as movimentações em dias posteriores, nos dias 25 e 26, são muito similares às descritas nas alegações.
Não é curioso que os indivíduos apontados como participantes da suposta operação de transporte sejam exatamente os mesmos envolvidos em viagens rotineiras da ESA em datas muito próximas ao dia alegado? Também chama atenção o fato de o conjunto de pessoas e os horários coincidirem com atividades normais do setor, inclusive a dinâmica de uma saída pela manhã e um deslocamento à tarde, tal como registrado nos documentos oficiais do comboio que seguiu para Varginha no dia 25.
Soma-se a isso a menção a nomes ligados a viagens regulares para Jaguariúna, nas proximidades de Campinas. No conjunto, esses paralelos sugerem que a narrativa da operação extraordinária se confunde com procedimentos ordinários da ESA e aparenta ter sido construída por alguém familiarizado com a rotina institucional e com o setor de transporte.
Unicamp e Badan Palhares
Segundo um dos relatos do Militar 2, o sargento Pedrosa, quando do retorno dos caminhões da ESA para Três Corações, teria afirmado algo como “nossa, como a Unicamp é grande”. Aparentemente, daí nasceu a convicção dos ufólogos de que a criatura (ou as criaturas) foi levada para aquela universidade.
Em 12 de maio, após o Fantástico ir ao ar, Pacaccini alega que recebeu uma ligação de um cientista da Unicamp, confirmando a autópsia da criatura pelas mãos do famoso legista Fortunato Badan Palhares. Muitas alegações posteriores sobre o que teria ocorrido em Campinas vêm dos irmãos Eduardo e Osvaldo Monidini.
A primeira testemunha ouvida por eles foi “Santiago”, que concedeu entrevista em 21 de maio de 1996. Santiago afirmava ter um amigo na equipe de Badan Palhares, que lhe teria confirmado a existência de um laboratório subterrâneo construído na década de 1970 sob o Hospital das Clínicas da Unicamp, supostamente ligado a interesses militares. Segundo ele, a criatura teria chegado a Campinas e sido levada diretamente para a Unicamp.
Santiago também alegou que Badan Palhares teria sido auxiliado por um colega alemão durante a autópsia: Konradin Metze, que em entrevista a Marco Leal negou tudo. Os relatos de Santiago contêm outras alegações problemáticas, como a suposta transferência de militares envolvidos na operação, algo que as investigações oficiais contradizem: esses militares permaneceram em suas funções em 1996 e 1997, com exceção de um caso.
Outras inconsistências surgem quando Santiago afirma que um parente teria visto movimentação no Hospital Humanitas em 20 de janeiro, o que não faz sentido, pois a criatura só teria sido transferida para lá na madrugada do dia 21.
Outra fonte citada é “Jader”, também pseudônimo, que afirma que um amigo conversou com o braço direito de Badan Palhares e que a criatura teria chegado de madrugada ao Hospital das Clínicas. Isso entra em conflito direto com a versão de Santiago, segundo a qual a criatura teria ido para a Unicamp pela manhã. As três versões (militares, Santiago e Jader) são mutuamente incompatíveis; ao menos uma delas precisa estar errada.
Segundo relatos, em uma palestra, Badan Palhares teria dito que poderia falar sobre o caso “daqui a alguns anos”, mas não há fonte independente ou confirmação dessa fala. E é curioso, também, que os ufólogos não considerem que, sendo um ser humano, Badan Palhares possa ser dotado de senso de humor.
Badan Palhares negou repetidamente qualquer participação em autópsias de extraterrestres. Em entrevistas de maio e junho de 1996, afirmou que as informações eram falhas, que nunca recebeu nada do Exército relacionado a alienígenas e chegou a convidar jornalistas a visitarem a Unicamp, onde não foi encontrada nenhuma criatura. Em 2005, em um debate público com Ubirajara Rodrigues, Badan Palhares voltou a negar envolvimento, esclarecendo que apenas avaliou imagens da famosa (e fake) “autópsia extraterrestre” americana, e reiterando que não participou de nenhuma autópsia de alienígena real. Também negou a existência de instalações subterrâneas no Hospital das Clínicas.
Badan Palhares explicou que a presença policial na universidade em 1996 pode ter sido confundida com algo extraordinário, pois a Polícia Militar fazia a guarda de ossadas humanas encontradas em um cemitério clandestino (as “ossadas de Perus”) da época da ditadura, cujo trabalho de identificação estava sendo realizado na Unicamp desde 1990. Há registros de identificações ocorridas justamente em 1996, o que explica a vigilância, sem necessidade de recorrer a hipóteses extraterrestres.
Por fim, menciona-se um suposto motorista de Badan Palhares que teria ouvido o cientista comentar o caso com a esposa, algo pouco plausível se o objetivo fosse manter sigilo. Soma-se a isso a confusão sobre o suposto laboratório subterrâneo: ora localizado sob subsolo do Hospital das Clínicas, ora identificado como o “Pavilhão 18” no Instituto de Química, a cerca de um quilômetro de distância.
Alega-se que no final de 1996 um estudante tentou conseguir as plantas do Hospital das Clínicas, para tentar descobrir se tal laboratório existia mesmo ou não. Porém, o estudante foi informado que pessoas da própria Unicamp haviam pedido as cópias de volta. Estranho: o Comando da Madrugada esteve na Unicamp antes do tal estudante (o programa foi ao ar em junho), mas ninguém se deu o trabalho de confiscar as cópias antes que Goulart de Andrade pudesse cogitar pedi-las?
No documentário O Mistério de Varginha, Badan Palhares fez uma revelação que muitos estão interpretando de forma equivocada. O legista diz, sem identificar a data, que recebeu um telefonema um certo dia, dizendo para ele não sair do laboratório, pois uma equipe do Exército brasileiro iria levar um material até ele. Esse material estaria vindo de Varginha. Badan Palhares foi muito claro, contudo, quando disse que lhe informaram tratar-se de um material “para exumação completa”. Não me lembro de algum ET ter sido enterrado e exumado. Perguntando se sabia quem fez a ligação, Badan Palhares disse que apenas lhe disseram que era da Secretaria de Segurança Pública. Perguntado se recordava terem lhe dito que seria algo relacionado a um extraterrestre, disse “não, disto eu não me recordo”.
Fica claro, portanto, que o material – que, aliás, jamais chegou às mãos do legista – provinha de uma exumação em Varginha. De fato, houve uma exumação em Varginha em 1996. A família suspeitava que o jovem tivesse sido morto pela polícia. Virou uma contenda judicial. Não é difícil ligar os pontos. Seja como for, Badan Palhares segue negando que tenha autopsiado um extraterrestre de Varginha.
Considerações finais
Não podemos considerar o Caso Varginha como um evento ideal, que ocorreu no vácuo. Carlos Orsi, editor da Revista Questão de Ciência, já apontou fatores importantes a serem considerados, que resumo a seguir.
Em 2001, o Comando da Aeronáutica divulgou um levantamento estatístico dos relatos de óvnis registrados entre as décadas de 1950 e 2000, revelando dois picos marcantes: 1977-78 e 1996-97, que juntos concentram mais de 40% dos casos em quase meio século. Esses períodos coincidem com momentos de forte exposição midiática do tema, como o lançamento dos filmes Guerra nas Estrelas e Contatos Imediatos de Terceiro Grau nos anos 1970, e, nos anos 1990, o sucesso das séries de TV Arquivo X (1993) e Roswell (1994) e a falsa “autópsia alienígena” (1995), amplamente divulgada pela imprensa internacional e brasileira (exibida no Fantástico).
Foi nesse ambiente cultural saturado por narrativas extraterrestres que se consolidaram as interpretações do Caso Varginha. Aliás, nos anos 1970 houve outro “Caso Varginha”: um “disco voador queria descer na cidade”, reporta um jornal da época (tratei disso aqui). Três Corações, casa da ESA, também foi palco do “Caso Geraldo Bichara”, que teria sido abduzido nas dependências da instituição em 1962.
Considerando tudo o que foi apresentado aqui, bem como inúmeros detalhes que não puderam ser abordados por razões de espaço, é extremamente improvável que no mês de janeiro de 1996 uma nave extraterrestre tenha caído em Varginha, e que extraterrestres tenham sido avistados, capturados, transportados e estudados.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade.
Fonte: abril






