Lucas do Rio Verde passa a integrar, a partir de 2026, uma das mais relevantes iniciativas de enfrentamento à violência doméstica em Mato Grosso. O projeto “Papo de Homem pra Homem”, apresentado oficialmente nesta quinta-feira (29), surge como uma resposta firme, preventiva e necessária diante do avanço dos casos de agressão contra mulheres, propondo uma mudança profunda: tratar o agressor como responsável por seus atos, mas também como alguém que precisa ser confrontado, orientado e reeducado.
A iniciativa é conduzida pela Polícia Judiciária Civil, em parceria com o Poder Judiciário e o Ministério Público, e tem como foco homens que possuem medidas protetivas de urgência em seu desfavor. A proposta se baseia na promoção de rodas de conversa reflexivas, abordando temas como masculinidade, igualdade de gênero, saúde emocional e a Lei Maria da Penha, com o objetivo de romper o ciclo da violência, prevenir a reincidência e proteger vidas.
De acordo com o delegado Mario Rezende, coordenador da Polícia Comunitária, o projeto é pioneiro no Estado e já vem sendo aplicado em Cuiabá desde 2014, com expansão para o interior a partir de um termo de cooperação firmado com o Tribunal de Justiça em 2021. A chegada a Lucas do Rio Verde, segundo ele, ocorre em um momento estratégico, especialmente diante dos números preocupantes registrados no interior de Mato Grosso. “Precisamos frear os feminicídios e enfrentar o problema onde ele nasce. E o causador da violência, na maioria das vezes, é o homem”, afirmou.
Medidas protetivas
Na prática, o funcionamento do “Papo de Homem pra Homem” prevê a participação obrigatória dos homens vinculados às medidas protetivas, conforme determinação judicial. São 15 horas de encontros, distribuídas em três dias consecutivos, nos quais profissionais de diversas áreas conduzem reflexões que vão além da legislação, tratando também de vivências pessoais, emoções, controle da raiva e responsabilidade social. “A ideia é devolver esse homem à sociedade de uma forma mais equilibrada e adequada ao mundo atual”, explicou Rezende.
Com mais de duas décadas de atuação na Polícia Civil, o delegado ressaltou o impacto devastador da violência doméstica sobre a sociedade, destacando que, apesar do avanço na estrutura de atendimento às vítimas, chegou o momento de agir diretamente na origem do problema. Ele também defendeu a ampliação do debate desde a infância, inspirando-se em iniciativas internacionais que trabalham a prevenção ainda na formação das crianças.


Reincidência baixa
Os resultados já alcançados pelo projeto reforçam sua efetividade. Segundo dados apresentados pela Polícia Civil, o índice de reincidência entre os homens que participam do “Papo de Homem pra Homem” não ultrapassa 5%. Entre cerca de cinco mil homens atendidos ao longo dos anos, nenhum voltou a cometer feminicídio. O processo de transformação, segundo Rezende, é perceptível: homens que chegam indignados no primeiro dia, refletem no segundo e, ao final, reconhecem o erro e demonstram disposição real para mudar.
Prevenção eficaz
A delegada Paula Barbosa destacou que a implantação do projeto em Lucas do Rio Verde é fundamental diante do histórico recente de ocorrências no município. Para ela, embora a repressão seja necessária, a prevenção tem se mostrado extremamente eficaz. “Esse projeto mostra, de homem para homem, que a violência não compensa e não é o caminho”, afirmou. A delegada explicou ainda que a participação no programa será uma das medidas cautelares impostas pelo magistrado, sendo considerada parte obrigatória do cumprimento da medida protetiva.
Presente no lançamento, a secretária de Assistência Social e primeira-dama, Janice Ribeiro, reforçou a importância da rede de enfrentamento à violência contra a mulher e da união entre instituições. Para ela, o diálogo direto e responsável é essencial para compreender as raízes do machismo estrutural e minimizar os impactos da violência sobre famílias e, principalmente, crianças. Com trajetória na educação, Janice defendeu que a mudança de mentalidade passa pela reflexão e deve alcançar também as escolas.
O Ministério Público também assumiu protagonismo na iniciativa. O promotor de Justiça Oswaldo Moleiro Neto afirmou que apenas penalizar não é suficiente. Segundo ele, é preciso explicar consequências, provocar reflexão e criar condições reais para que o agressor não reincida. As rodas de conversa, conforme destacou, serão realizadas no auditório da Promotoria de Justiça, fortalecendo o caráter institucional e preventivo da ação.
Exemplos promissores
Responsável por conduzir o projeto no âmbito do Judiciário, o juiz criminal da 2ª Vara de Lucas do Rio Verde, Fábio Petengil, reconheceu que não existem soluções imediatas para um problema culturalmente enraizado. Ainda assim, apontou que experiências semelhantes já apresentaram redução significativa na reincidência. “A ideia de que apenas a punição resolve não é real. Mudar o padrão de pensamento do agressor é uma esperança concreta de resultados mais duradouros”, avaliou.
Ao apostar no diálogo responsável, na escuta qualificada e na responsabilização consciente, o “Papo de Homem pra Homem” chega a Lucas do Rio Verde como uma ferramenta sólida de prevenção, proteção às vítimas e transformação social. Um caminho difícil, mas indispensável para salvar vidas e construir uma sociedade que não normaliza a violência.
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Fonte: cenariomt






