A Caminhada da Liberdade – movimento deflagrado de maneira inesperada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) – despertou reações instantâneas e expressivas de apoio em redes sociais, locais onde passa e atos paralelos.
Com isso, a iniciativa atingiu logo seu primeiro alvo: engajar políticos não só da direita próxima de Jair Bolsonaro (PL), sensibilizando diferentes públicos para a situação prisional do ex-presidente e condenados do 8 de janeiro.
O protesto percorre trecho de 240 quilômetros de Minas Gerais ao Distrito Federal, iniciado às 7h30 de segunda-feira (19) no acostamento da BR 040 em Paracatu (MG). A meta é chegar a Brasília ao meio dia de domingo (25).
A expectativa é encerrar a peregrinação em uma grande manifestação à qual se somarão outros manifestantes vindos de várias regiões do Brasil. Além daqueles que se juntam ao grupo, haveria caravanas, carretas e motociatas.
O local inicialmente previsto para o encontro final era em frente à unidade onde Bolsonaro está preso, próxima ao Presídio da Papuda, chamado de Papudinha. Por questões de segurança, foi redefinido com a Praça do Cruzeiro, que fica no Eixo Monumental, mas distante cerca de seis quilômetros da Praça dos Três Poderes, onde ficam as sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário
A tendência é de o evento ganhar contornos cívicos e religiosos sem deixar qualquer associação ao 8 de Janeiro. “Vai ser gigante”, ecoa um dos bordões que circulam entre apoiadores, para mirar a dimensão histórica.
Parlamentares e centenas de pessoas aderiram à convocação de Nikolas
Dezenas se juntaram logo à romaria sob sol e chuva, entoando palavras de ordem e as exibindo em faixas e camisetas, tais como “Liberdade e Justiça”, “Acorda, Brasil”, “Não desistiremos”, “Fim da ditadura” e “Bolsonaro livre”.
Entre os deputados que se inseriram logo na caminhada de Minas a Brasília estavam André Fernandes (CE), Gustavo Gayer (GO), Luciano Zucco (RS), Carlos Jordy (RJ) e Zé Trovão (SC), do PL. Outros ainda virão.
Participaram ainda os senadores Magno Malta (PL-ES), de cadeira de rodas, Márcio Bittar (PL-AC) e Cleitinho (Republicanos-MG), além de Marcos do Val (Podemos-ES). A ideia é angariar adesões ao longo do trajeto, acumulando e se somando a outras até o destino final.
Chamou a atenção o manifesto de apoio a Nikolas por telefone do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, e do encontro breve na estrada do deputado com Carlos Bolsonaro (PL-SC), candidato ao Senado.
Desde a primeira convocação da caminhada, no vídeo postado na noite do domingo (18), Nikolas disse responder à queixa contra políticos e romper a inércia perante “várias coisas desanimadoras de injustiça e corrupção”.
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) afirmou, em nota, que o deputado Nikolas não comunicou sobre a realização da caminhada e que haveria “riscos inerentes ao fluxo extraordinário na via”.
O parlamentar, no entanto, diz que foram enviados ofícios tanto à PRF quanto à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), e que o órgão policial rodoviário confirmou o recebimento do ofício no Sistema Eletrônico de Informações (SEI).
Caminhada foi inspirada em protesto de Martin Luther King por Justiça nos EUA
O deputado disse ter recebido inspiração divina para a marcha até Brasília e também citou o pastor Martin Luther King, que em 28 de agosto de 1963 reuniu centenas de milhares em Washington (EUA) para lutar por Justiça.
Até comparações bem-humoradas do impulso de Nikolas em ir às estradas e depois ser seguido por anônimos com o do personagem de cinema Forrest Gump serviram para reforçar a carga simbólica e mobilizadora do gesto.
Ao chegar ao quarto dia, nesta quinta-feira (22), a caminhada já é assunto dominante nos canais de políticos e influenciadores conservadores e até de seus críticos, como o vereador de Belo Horizonte, Pedro Rousseff (PT).
A expectativa é que muitos parlamentares e simpatizantes impedidos de participar, incluindo por viagens ao exterior, engrossem o ato de domingo, como uma retomada dos protestos realizados em grandes capitais desde 2024.
Após mais de 70 quilômetros percorridos nos dois primeiros dias, os cinco que começaram se tornam cerca de 300. Em todos os momentos, Nikolas frisou o objetivo de “reavivar o espírito brasileiro”, após a sucessão de escândalos.
Em Brasília, o senador Izalci Lucas (PL-DF) e o ex-desembargador Sebastião Coelho (Novo) coordenam a recepção dos peregrinos e o ato final em defesa de condenados pelo STF e de outras bandeiras. Outras cidades devem realizar atos paralelos. A deputada Bia Kicis (PL-DF) cuidará da vigília na Praça do Cruzeiro.
Registros diários da caminhada ajudam a mobilizar redes para ato em Brasília
Milhares de interações na internet e apoio público de cidadãos na beira da rodovia, nas entradas de municípios, como Cristalina (GO), e nas paradas de pernoite deram suporte a registros da cruzada e ao reconhecimento do sacríficio de participantes.
Um fator que favoreceu o crescimento da caminhada está na campanha de candidatos de direita ao Congresso, sobretudo jovens. Entre os deste grupo estavam os vereadores Lucas Pavanatto e Fernando Hollyday, do PL-SP. Nikolas, contudo, fez questão de avisar que não toleraria explosão eleitoreira da pergrinação até Brasília.
A ação ainda ajudou a retomada dos trabalhos legislativos em fevereiro, que virá com a perspectiva de grande pressão por pautas de interesse da direita, sobretudo a derrubada do veto total do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao projeto da dosimetria.
Nikolas citou a urgência de mobilização pela transferência de Bolsonaro do batalhão policial onde está preso para a prisão domiciliar, atendendo aos apelos da família e da defesa diante do quadro de saúde do ex-presidente.
Segundo o deputado, sua iniciativa visa enfrentar a sensação de impotência, a normalização de abusos e dos temores com protestos de rua, percebidos desde a dura reação contra envolvidos nos atos na Praça dos Três Poderes.
O deputado fez na caminhada referências a presos do 8 de janeiro, como Débora dos Santos (Débora do Baton), Coronel Naime e Clériston da Cunha, o Clezão, que morreu após apelos para receber tratamento médico.
Analistas veem na caminhada símbolo de retorno de grandes protestos de rua
O ex-deputado e ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol, colunista da Gazeta do Povo, acredita que o maior mérito da caminhada é dar o exemplo de que é possível ao povo protestar em público, “apesar de todo o medo”.
Para o cientista político Paulo Kramer, a marcha traz reflexos em várias frentes, como o despertar da sociedade para a violação de direitos humanos de Bolsonaro, cujo estado de saúde é precário, e unificar a ação da direita.
Fonte: gazetadopovo






