Pouco mais de um mĂŞs apĂłs anunciar a prĂ©-candidatura ao Palácio do Planalto, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) redobrou a postura afirmativa. Amparado pela pesquisa Quaest que indicou crescimento nas intenções de voto e apĂłs resistir Ă s pressões por eventual recuo, o senador está focado agora em encerrar as especulações sobre alternativas no campo da direita e da centro-direita e buscar que chamou de “unidade com todo mundo” dentro desses espectros polĂticos.
Nesta quinta-feira (15), Flávio reafirmou de forma categĂłrica que seguirá na disputa presidencial de outubro, classificando a decisĂŁo como irreversĂvel. Disse agir por delegação expressa do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e descartou qualquer cenário de substituição. “É uma coisa sem volta”, afirmou, ao sustentar que nĂŁo há “outra possibilidade de candidatura” em discussĂŁo.
A declaração foi feita em BrasĂlia, apĂłs visita ao pai na SuperintendĂŞncia da PolĂcia Federal, horas antes da transferĂŞncia dele para cela especial na Papudinha. Flávio ampliou o alcance polĂtico do discurso, enfatizando que quer construir um amplo arco de alianças. “Vou continuar fazendo a minha parte e buscar a unidade com todo mundo [direita e centro-direita]”, disse.
O senador tambĂ©m tratou de desarmar ruĂdos internos. Negou fissuras com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e com o governador de SĂŁo Paulo, TarcĂsio de Freitas (Republicanos), vistos por parte do CentrĂŁo como alternativas a ele. Segundo Flávio, o movimento em curso Ă© de convergĂŞncia em torno de seu nome, ainda que respeitando o “tempo de cada um” para formalizar apoio.
As especulações tinham surgido nos Ăşltimos dias apĂłs Michelle curtir uma postagem de TarcĂsio que mencionava a necessidade de um “novo CEO” para o Brasil. O governador afirmou se tratar sĂł de “um desabafo” contra o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele reiterou apoio a Flávio e reforçou que seu projeto segue concentrado na reeleição em SĂŁo Paulo.
Flávio tambĂ©m pediu cautela: “Ele (TarcĂsio) já declarou que vai me apoiar, entĂŁo, nĂŁo vamos pressioná-lo. Confio na lealdade dele”. O senador argumenta que “o palanque de SĂŁo Paulo, com um governador bem avaliado e com entregas, como TarcĂsio, Ă© o sonho de qualquer candidato”, enaltecendo a aliança.
Depois desse episĂłdio, o governador de SĂŁo Paulo deu uma demonstração mais enfática de apoio Ă candidatura de Flávio na quinta-feira (15). TarcĂsio ressaltou que já disse que “ele Ă© o meu candidato”.
“Pra mim o Flávio é um grande nome. Já falei que ele é o meu candidato”, afirmou. “A direita vai estar unida em torno de um nome. E o meu nome é o Flávio”, enfatizou.
Pesquisas servem tanto para incentivar quanto para questionar candidatura
A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (14) animou apoiadores de Flávio, ao revelar avanço de seis pontos percentuais na intenção de voto dele apĂłs pouco mais de um mĂŞs de prĂ©-campanha. No cenário sem TarcĂsio, o senador subiu de 26% para 32%, reduzindo a distância para Lula, que manteve os 39%.
Para analistas, o resultado evidencia competição direta entre Flávio e Lula no primeiro turno e possĂvel teto para o desempenho do presidente. O levantamento ouviu 2.004 entrevistados entre 8 e 11 de janeiro. A margem de erro estimada Ă© de dois pontos percentuais para mais ou para menos. A sondagem está registrada no TSE com o protocolo BR-00835/2026.
Na pesquisa do Instituto Paraná, divulgada em 26 de dezembro de 2025, os números do segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro mostram empate técnico, dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais. Lula tem 44,1% das intenções de voto e Flávio, 41%.
Esse levantamento foi realizado entre os dias 18 e 22 de dezembro, com 2.038 eleitores entrevistados em 163 municĂpios de todas as 27 unidades da Federação. O estudo tem grau de confiança de 95%.
Candidatura pegou centro-direita de surpresa e forçou novas negociações
O anĂşncio da prĂ©-candidatura de Flávio Bolsonaro, em 4 de dezembro de 2025, apĂłs indicação do pai, Jair Bolsonaro, pegou de surpresa lĂderes da centro-direita e da direita que trabalhavam para TarcĂsio se candidatar Ă PresidĂŞncia como nome de consenso dos dois grupos, Ă espera apenas de um gesto do ex-presidente.
Na ocasiĂŁo, Flávio afirmou que aceitava a missĂŁo para dar continuidade ao legado do pai e que representava o projeto de um campo polĂtico”. LĂderes da centro-direita, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), e da direita, como o pastor Silas Malafaia, reagiram inicialmente com desconforto Ă notĂcia.
Desde a prisão em regime fechado de Jair Bolsonaro, em 6 de dezembro, após três meses silenciado, a expectativa inicial era de retração ainda maior da sua influência. Mas o efeito foi oposto. Sua decisão de indicar Flávio não só o manteve no jogo eleitoral, mas ainda preservou protagonismo à direita.
A leitura predominante nos bastidores Ă© a de que a direita e a centro-direita caminhem ao menos para um acordo de cavalheiros: ainda que mais de um nome dos dois grupos disputem a PresidĂŞncia no primeiro turno, todos serĂŁo crĂticos ao presidente Lula e se unirĂŁo todos no segundo turno contra o PT.
Influência de Bolsonaro dita negociação com o centro, que acena com candidato
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, avançou nos Ăşltimos dias o movimento em torno da possĂvel prĂ©-candidatura do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PR), Ă PresidĂŞncia . Em encontros recentes, incluindo jantares e reuniões em SĂŁo Paulo, Kassab deu aval ao paranaense para viabilizar sua candidatura e encomendou pesquisas internas para aferir sua competitividade.
O PSD tambĂ©m avaliou que, diante da indefinição em torno de TarcĂsio e da aposta da direita em Flávio Bolsonaro, a legenda precisa se posicionar com protagonismo prĂłprio. Ratinho Jr. sinalizou prontidĂŁo para “aceitar o desafio” de disputar o Palácio do Planalto, caso seu nome seja escolhido pelo partido, construindo um discurso que critica a atual polarização ilustrada pelas figuras de Lula e Bolsonaro.
Para o cientista polĂtico Ismael Almeida, em vez de funcionar como um apelo para que partidos como Republicanos, PP, UniĂŁo Brasil e PSD abraçassem já a candidatura de Flávio, a escolha de Bolsonaro colocou a centro-direita em posição de desvantagem para a direita, que Ă© dominante no voto majoritário em escala nacional.
Ele vĂŞ o capital polĂtico de Bolsonaro como eixo das negociações, antes dominadas pela escolha prĂ©via de TarcĂsio por parte dos partidos do centro. “Os centristas já sabem que o trem já saiu da estação. Agora tentam subir na locomotiva e chegar na cabine do piloto para tentar participar da condução”, ilustra.
Flávio procurou lĂderes da centro-direita e prometeu abertura ao diálogo
Flávio iniciou ofensiva para reduzir resistências, procurando dirigentes da centro-direita e mostrando perfil conciliador. Disse estar aberto ao diálogo e que quer construir uma candidatura agregadora. As resistências iniciais se ancoravam devido à sua elevada rejeição apontada por pesquisas eleitorais.
Apesar disso, a candidatura Flávio se consolidou com levantamentos que indicavam transferência expressiva de votos de Jair Bolsonaro para o filho 01 e desempenho competitivo em simulações de segundo turno. Esse impulso na largada foi usado para tentar esvaziar a ideia de a candidatura ser só um balão de ensaio.
Em 11 de dezembro, TarcĂsio confirmou apoio a Flávio, dias apĂłs endossar a decisĂŁo de Jair Bolsonaro, e lembrar das candidaturas presidenciais de outros governadores da centro-direita. Em todas as ocasiões, ele destacou a prioridade comum de “derrotar o PT” e de unificar o campo conservador.
Nesse novo contexto, Ciro Nogueira, um dos comandantes da federação UniĂŁo Progressista (PP-UniĂŁo Brasil), passou a atuar para reorganizar o bloco de direita e centro-direita. Ele reclamou por nĂŁo ter sido ouvido sobre a escolha do PL por Flávio, mas agora diz que a candidatura TarcĂsio está descartada.
Sugestão de Zema como vice revela interesses na candidatura de Flávio
Em 23 de dezembro, Ciro chegou atĂ© a surpreender ao afirmar que preferia “mil vezes o Flávio ao TarcĂsio”, declaração lida por aliados tambĂ©m como reflexo direto de ruĂdos nas disputas do PP em SĂŁo Paulo e do cálculo eleitoral regional. O dirigente tratou de focar-se nos acertos com Flávio.
Paralelamente, Gilberto Kassab propĂ´s o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), como vice na chapa de Flávio, antes de investir na candidatura prĂłpria do PSD Ă PresidĂŞncia. No fim de dezembro, Kassab disse que Zema “agregaria Minas e daria equilĂbrio Ă chapa”, sinalizando negociação para buscar o apoio do PL ao PSD mineiro.
No estado, o candidato de Zema para o governo do estado é seu vice, Mateus Simões, que recentemente trocou o Novo pelo PSD.
A ideia de Zema como candidato a vice-presidente foi reforçada por Ciro Nogueira ao jornal O Globo, em 3 de janeiro, ao endossar essa como a melhor opção, destacando a força combinada nos maiores colĂ©gios eleitorais do paĂs: SĂŁo Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Zema, porĂ©m, acabou por descartar essa hipĂłtese. Flávio, por sua vez, disse que nunca convidou Zema para compor chapa, atĂ© porque este Ă© um dos Ăşltimos alvos da construção da candidatura presidencial.
Nogueira defende que Flávio fale aos eleitores de centro para atrair os indecisos que fogem da polarização entre Bolsonaro e Lula. Ele condenou a fala do senador de que, caso eleito, poderia nomear o irmão e ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) como o seu ministro das Relações Exteriores.
Para especialistas, dirigentes partidários se orientam pelo pragmatismo
Segundo Elton Gomes, professor de CiĂŞncias PolĂticas da UFPI, a centro-direita explora de forma pragmática a tendĂŞncia de deslocamento do eleitorado para a direita, o que dá um caráter instrumental Ă candidatura de Flávio Bolsonaro no retrato atual da disputa pela PresidĂŞncia no Brasil.
Embora Lula tenha força como lĂder carismático da esquerda e chance real de vitĂłria, ele pode ser derrotado pela direita e, mesmo reeleito, tende a continuar sem maioria no Congresso. “LĂderes cobrarĂŁo algo em troca do apoio a Flávio, mas tĂŞm poucas opções no paĂs fortemente polarizado”, diz.
Gomes acrescenta que partidos dispõem de pesquisas internas, com dados não conhecidos das pesquisas públicas, que provavelmente indicam maior viabilidade de Flávio, sustentada pelo antipetismo e pela capacidade de Bolsonaro transferir votos mesmo preso, “talvez até mais do que Lula em 2018”.
Já Leandro Gabiati, diretor da consultoria polĂtica Dominium, avalia que atĂ© 4 de abril, prazo para a desincompatibilização de autoridades que disputarĂŁo cargos eletivos, o cenário seguirá aberto. Ele ressalta que “a polĂtica nĂŁo comporta certezas absolutas”. Assim, será preciso aguardar o avanço do calendário eleitoral para afastar de vez a chance da candidatura de TarcĂsio.
Fonte: gazetadopovo





