A rotina de manter a casa limpa, preparar comida, cuidar dos filhos, dar atenção a familiares e manter o lar funcionando parece algo natural, quase automático. Mas você já parou para pensar em quanto tempo, energia e dedicação essas atividades exigem? E que, muitas vezes, elas não são reconhecidas como “trabalho”? Esse conjunto de tarefas faz parte do que especialistas chamam de economia do cuidado, e ela tem muito mais a ver com a sua casa do que você imagina. Compreender a economia do cuidado é o primeiro passo para valorizá-la e construir relações mais justas e conscientes dentro e fora de casa.
Conheça a especialista
Andressa Oliveira é arquiteta e urbanista especialista no cultivo de plantas em casa e com experiência em projetos arquitetônicos e de interiores.
O cuidado tem valor, mesmo sem salário
A economia do cuidado engloba todas as atividades voltadas à manutenção da vida e da rotina da casa: cuidar da casa, dos filhos, de idosos, de pessoas doentes, fazer comida, limpar, acolher, organizar. Elas podem ser remuneradas, como no caso de babás, cuidadoras profissionais e instituições que oferecem serviços de cuidado, mas, na maioria das vezes, são exercidas gratuitamente por familiares dentro de casa. São essenciais para o funcionamento da sociedade, mas raramente recebem o devido valor.
Na prática, a realização de tarefas domésticas demanda organização, planejamento, habilidades técnicas, esforço físico e emocional. Cozinhar, por exemplo, envolve pensar no cardápio, fazer compras, preparar os alimentos e limpar. Tudo isso é trabalho. Mas, por ser feito dentro de casa e muitas vezes com afeto, acaba sendo invisibilizado.
Diversos estudos da ONU Mulheres e da OIT (Organização Internacional do Trabalho) apontam que a economia do cuidado funciona como uma engrenagem invisível que sustenta outras áreas da economia. Afinal, sem alguém para cuidar do cotidiano, poucas pessoas teriam condições de trabalhar fora, estudar ou produzir.
Quem cuida mais dentro de casa?
A responsabilidade pelo cuidado dentro de casa ainda recai, majoritariamente, sobre as mulheres. Segundo dados do IBGE, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados com pessoas, quase o dobro do tempo gasto pelos homens, que é de 11 horas.
A ONU Mulheres destaca que, em média, as mulheres do mundo todo realizam 2,5 vezes mais trabalho doméstico não remunerado do que os homens. Esse desequilíbrio tem consequências diretas, principalmente na vida das mulheres: menos tempo livre, mais sobrecarga mental, dificuldades para avançar na carreira e impactos na saúde física e emocional.
Valorizar o cuidado muda a rotina e as relações
Encarar o cuidado como uma tarefa coletiva e essencial, e não como uma atribuição exclusivamente feminina, é um passo importante para promover relações mais equilibradas e saudáveis, tanto na sociedade quanto dentro de casa. Dividir as tarefas, respeitar o tempo de quem cuida e valorizar esse trabalho ajuda a melhorar a qualidade de vida de todos. Além disso, abrir esse diálogo contribui para aliviar o sentimento de culpa de muitas mulheres que se sentem sobrecarregadas por não “darem conta de tudo”.
Como tornar o cuidado mais justo no dia a dia
- Divida as tarefas: cuidar da casa, dos filhos ou de familiares não deve ser responsabilidade de uma só pessoa. Conversar sobre a rotina e distribuir as tarefas de forma justa é um passo importante.
- Agradeça e reconheça: um “obrigado” sincero, um elogio ou até uma ajuda oferecida a quem cuida pode fazer toda a diferença.
- Ensine e incentiva as crianças: desde cedo, é possível mostrar que a casa é responsabilidade de todos. Incluir filhos nas tarefas domésticas, de forma leve e compatível com a idade, contribui para formar adultos mais conscientes e colaborativos.
- Fale sobre o tema: conversar sobre a economia do cuidado, mesmo que de maneira informal, ajuda a mudar percepções e construir uma nova cultura dentro e fora do lar.
- Inclua momentos de pausa: quem cuida também precisa ser cuidado. Reservar um tempo para o autocuidado, o lazer ou o descanso ajuda a manter o equilíbrio emocional e evita a exaustão.
A casa é mais do que paredes e decoração: ela é feita de cuidado, tempo e dedicação. Valorizar o cuidado é uma forma de reconhecer esse esforço que sustenta não apenas os lares, mas a sociedade como um todo. Isso pode – e deve começar – dentro de casa. Então, veja dicas para dividir as tarefas domésticas de forma justa e transforme sua rotina com mais consciência e equilíbrio.
Fonte: tuacasa