No início de janeiro, a Society for Psychical Research (SPR), tradicional instituição britânica fundada em 1882 para investigar fenômenos espirituais e paranormais, recebeu uma generosa doação de £ 2 milhões (cerca de R$ 14 milhões) para estudar “a questão da sobrevivência” — isto é, para tentar determinar se a alma humana individual (ou a consciência, ou a personalidade, ou como quer que se prefira chamá-la) sobrevive à morte do corpo.
O doador, Yew-Kwang Ng, é professor emérito do Departamento de Economia da Universidade Monash (Austrália) e autor do livro de 2024 Do We Survive Our Biological Death? A Rational Examination. No livro, ele oferece, como parte de seu corpo de evidências em favor da existência de poderes espirituais, a foto de um garfo que sua prima teria entortado em espiral apenas com a força da mente (o desenho acima é uma cópia da imagem apresentada na obra).
A “questão da sobrevivência” costuma ser vista como religiosa ou metafísica, portanto, fora do alcance da ciência — e por uma boa razão: a ciência lida com fenômenos empíricos e sensíveis, coisas que podem ser vistas, ouvidas, tocadas, sentidas, pesadas, medidas; coisas que deixam traços no mundo objetivo e externo, traços que podem ser identificados e confirmados por observadores independentes.
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Se a alma existe, mas, após a morte do corpo físico, vai para algum reino inefável, à parte do universo material, a questão da sobrevivência é cientificamente intratável; tudo o que podemos fazer, deste lado do Grande Mistério, é acreditar (ou não). Para ter significado científico, a “questão da sobrevivência” precisa se transformar numa “questão de interação”: os espíritos não devem apenas existir, num sentido ontológico ou metafísico, mas, crucialmente, devem agir no mundo, afetar pessoas e objetos, produzir efeitos mensuráveis, deixar rastros observáveis e objetivos.
É por essa razão, e nenhuma outra, que a pesquisa supostamente científica sobre a vida após a morte começa logo após o advento do espiritismo moderno, em meados do século 19. Ali surgia uma doutrina religiosa que afirmava que os espíritos produzem efeitos físicos detectáveis, mensuráveis e reprodutíveis — uma afirmação que abria as portas à investigação científica.
Mas essa linha de investigação nasceu irremediavelmente entrelaçada à fé, ao sentimentalismo e ao sentimento religioso. O estudo das (alegadas) evidências empíricas da sobrevivência logo se tornou o estudo dos médiuns, pessoas que supostamente seriam capazes de canalizar as energias dos entes queridos falecidos para produzir efeitos físicos (mover mesas, bater na madeira, tocar sanfonas e cornetas) ou trazer mensagens do Além. Os médiuns que criavam efeitos físicos, como levitações ou a materialização de fantasmas, porém, logo se tornaram sinônimo de fraude. Apenas os médiuns mentais, aqueles que só traziam mensagens, restaram como objetos “legítimos” de estudo.
Pode-se dizer que, dos anos 1870 até o início da década de 1930, uma sucessão de resultados negativos, farsas, escândalos e algumas descobertas bastante interessantes sobre as falhas e limitações da percepção e da memória (como os experimentos da dupla Davey–Hodgson, que comparavam o que as pessoas diziam ter visto e ouvido numa sessão espírita ao que realmente havia acontecido ali) foi, aos poucos, afastando do campo os pesquisadores realmente interessados em seguir a ciência, deixando apenas os fanáticos, os românticos e os devotos para dar continuidade à “pesquisa”. Na linguagem do filósofo Imre Lakatos, a investigação sobre sobrevivência tornou-se um “programa degenerado”, dedicado sobretudo a inventar desculpas para minimizar fracassos, em vez de encará-los e aceitar o que significavam.
E as pessoas, em geral, deixaram de prestar atenção.
Mas, como a astrologia ou a homeopatia, o campo nunca desapareceu de fato; apenas saiu do radar. E, como a astrologia e a homeopatia, ressurgiu de tempos em tempos, em ondas e modismos. O século 20 viu a moda das Experiências de Quase-Morte (EQMs) nos anos 1970, a moda das pesquisas sobre reencarnação nos anos 1980 e 1990 e, com a publicação do livro The Afterlife Experiments, de Gary Schwartz, em 2002, a pesquisa sobre mediunidade retornou aos holofotes no século 21.
O estudo de médiuns mentais é especialmente desafiador por causa das possibilidades sempre presentes de validação pessoal (o consulente, ou cliente, lendo nas declarações vagas do médium mais do que ele realmente disse) e de vazamento sensorial (o médium obtendo informações sobre o consulente ou o falecido por meios banais, até mesmo desonestos, não sobrenaturais ou paranormais).
Como escreveu a psicóloga Amy Tanner (1870–1956) em sua obra cética clássica Studies in Spiritism (1910), as únicas mensagens mediúnicas que deveriam ter valor de evidência são aquelas cujo conteúdo é preciso, objetivo, verificável e certamente desconhecido tanto do médium quanto do consulente no momento da interação — por exemplo, o conteúdo de uma carta secreta ou de uma senha deixada lacrada pelo suposto comunicante, enquanto ainda estava vivo. Nem mesmo Leonora Piper (1857–1950), até hoje internacionalmente considerada o “melhor caso” a favor da realidade da mediunidade mental, foi bem-sucedida sob tais condições.
Nas últimas duas décadas, cerca de uma dúzia de estudos sobre mediunidade mental, conduzidos com o objetivo expresso de evitar vazamento sensorial e limitar o escopo para validação pessoal, foram publicados. Uma meta-análise — procedimento estatístico que tenta destilar uma conclusão geral a partir de um conjunto de pesquisas, para ver para que lado pende o peso das evidências — concluiu que os dados “são consistentes com a hipótese de que alguns médiuns são capazes de adquirir informações sobre pessoas falecidas por meios desconhecidos ou anômalos” (Sarraf et al., 2020). Outra, porém, ao agregar apenas os estudos mais bem controlados (Rock et al., 2021), determinou que “ao longo dos 200 testes nos oito experimentos publicados, a tendência mostrou que os médiuns tiveram desempenho no nível esperado por mero acaso, o que, por sua vez, não sustenta a plausibilidade nem da sobrevivência da consciência, nem do psi de agentes vivos”.
(“Psi de agentes vivos” é a hipótese de que o médium não se comunica com os mortos, mas lê a mente do consulente ou de outras pessoas, ou tem algum outro superpoder mental que é independente da agência dos mortos.)
Essa tendência — quanto melhor o estudo, menos impressionantes os resultados, até que, na presença de controles adequados, o suposto efeito cai a zero — é típica. Ela pode ser encontrada em estudos sobre medicina alternativa, e sobre várias ideias pseudocientíficas. Aparece, por exemplo, em pesquisas recentes sobre mediunidade mental realizadas no Brasil.
Um estudo, que tomou o cuidado de limitar as oportunidades de validação pessoal e de vazamento sensorial baseado tanto na leitura quente (quando o médium levanta um dossiê prévio sobre o consulente) quanto na “pescaria” (quando o médium “joga verde” para plantar ideias e sentir reações), não encontrou traço de poder mediúnico (Freire et al., 2022). Mas em outra pesquisa, que deixou abertas tanto a possibilidade de pescaria quanto a aplicação generosa da validação pessoal, o médium testado impressionou os autores (Silva et al., 2023). Ambas as investigações foram conduzidas pelo Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
O filósofo americano William James (1842–1910), talvez o mais sofisticado dos intelectuais a se colocar entre os primeiros defensores da pesquisa sobre a vida após a morte (ainda que favorecesse a interpretação do “psi de agentes vivos”), costumava usar a metáfora do feixe de gravetos para defender conclusões baseadas em uma abundância de evidências fracas: “Gravetos fracos fazem feixes fortes; e quando os relatos se agrupam em tipos consistentes que apontam cada um numa direção definida, tem-se a sensação de estar diante de tipos genuinamente naturais de fenômenos”, escreveu ele um ano antes de morrer, num ensaio em que oferecia ao público curioso um balanço de suas décadas de pesquisa paranormal.
Esse ainda é um dos principais argumentos dos defensores atuais da “ciência” do além: que o estado atual das evidências pode muito bem ser, a rigor, inadequado, mas que o simples número de exemplos, casos, instâncias, crenças, hábitos culturais etc., baseados numa vida futura, é forte indicador de que há algo sólido ali — basta procurar um pouco mais.
A melhor resposta ao argumento do “feixe” de James veio de Amy Tanner: “Não importa quantos gravetos sejam amarrados juntos, o feixe nunca será forte, se cada graveto individual estiver quebrado em vários pontos”.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de “O Livro dos Milagres” (Editora da Unesp), “O Livro da Astrologia” (KDP), “Negacionismo” (Editora de Cultura) e coautor de “Pura Picaretagem” (Leya), “Ciência no Cotidiano” (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, “Contra a Realidade” (Papirus 7 Mares) e “Que Bobagem!” (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com
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Fonte: abril






