Duas instituições públicas de ensino superior reconheceram, em manifestações oficiais recentes, o uso de corpos de pessoas que viveram em hospitais psiquiátricos em atividades acadêmicas de cursos da área da saúde. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) publicou uma carta pública nesta segunda-feira (18), seguindo posicionamento semelhante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que já havia se retratado no mês anterior.
No documento, a UFJF admite responsabilidade institucional em um período considerado sensível da história da saúde pública no Brasil. A universidade destaca que práticas de segregação social, justificadas sob a lógica da segurança coletiva, resultaram em isolamento, violações e tratamentos desumanizantes direcionados a pessoas que não se enquadravam em padrões sociais estabelecidos.
O texto também ressalta que o estigma associado ao chamado contexto manicomial foi historicamente reforçado por critérios sociais como gênero, classe, raça e orientação sexual, contribuindo para a exclusão de indivíduos classificados como “loucos” e tratados como incapazes ou perigosos.
A instituição lembra ainda o caso do Hospital Colônia de Barbacena, frequentemente citado em estudos e obras sobre saúde mental no Brasil. Estimativas apontam que dezenas de milhares de pessoas morreram no local ao longo do século XX, muitas delas sem identificação formal, sendo registradas como indigentes.
De acordo com levantamentos históricos mencionados pela universidade, parte desses corpos foi destinada a instituições de ensino médico. No caso da UFJF, registros indicam que o Instituto de Ciências Biológicas recebeu 169 corpos entre 1962 e 1971, utilizados em aulas de anatomia humana.
Como forma de reparação simbólica, a UFJF afirma que pretende ampliar ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, além de incentivar pesquisas históricas sobre possíveis vínculos institucionais com esse período. Também está entre as propostas a criação de um espaço de memória dedicado ao tema.
A universidade destaca ainda que, desde 2010, mantém um programa de doação voluntária de corpos voltado ao ensino de anatomia, baseado em consentimento formal e normas éticas atuais, com foco no respeito à dignidade humana.
Em linha semelhante, a UFMG também reconheceu sua participação indireta nesse contexto histórico e formalizou pedido público de desculpas. A instituição afirmou que o reconhecimento é acompanhado de medidas de preservação da memória e integração do tema em atividades acadêmicas.
Entre as ações citadas pela UFMG estão iniciativas em parceria com grupos ligados à luta antimanicomial, restauração de registros históricos e inclusão do tema em disciplinas da Faculdade de Medicina. A universidade reforça que atualmente adota um sistema de doação voluntária de corpos, vigente desde 1999, com base em princípios éticos e legais.
No campo cultural, o tema da saúde mental e da institucionalização psiquiátrica também aparece em obras literárias e estudos acadêmicos. Um dos exemplos mais conhecidos é o conto O Alienista, de Machado de Assis, que aborda de forma crítica os limites entre normalidade e loucura.
Outra referência importante é o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, que desenvolveu métodos humanizados de tratamento e utilizou a arte como ferramenta terapêutica. Seu legado pode ser conhecido em instituições dedicadas à preservação da história da saúde mental no país.
Fonte: cenariomt




