Um experimento científico realizado no Golfo do Maine, nos Estados Unidos, testou se o aumento da alcalinidade do oceano pode ampliar a absorção de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera. Cerca de 62 mil litros de uma solução diluída de hidróxido de sódio foram liberados em alto mar durante a pesquisa.
A operação foi autorizada pelo governo federal norte-americano e ocorreu no segundo semestre do ano passado. A água ganhou uma forte coloração rosa, mas o tom não veio do produto usado para alterar a química marinha. Os pesquisadores adicionaram rodamina à solução para acompanhar sua dispersão.
Como funcionou o experimento
Durante cinco dias, a equipe monitorou a área tratada com satélites, drones e equipamentos subaquáticos. Sensores também mediram pH, temperatura e salinidade para registrar as mudanças provocadas pela intervenção.
A estratégia avaliada consiste em elevar a alcalinidade da água. Em determinadas condições, isso pode favorecer a conversão do carbono dissolvido em bicarbonato, uma forma mais estável e comum no ambiente marinho. Com essa mudança, o oceano poderia retirar mais CO₂ da atmosfera.
O objetivo, portanto, não é apenas remover carbono já presente na água. A proposta é modificar temporariamente sua química para aumentar a capacidade natural de absorção do oceano.
Por que a alcalinidade é importante?
Os oceanos já absorvem uma parcela significativa das emissões de dióxido de carbono geradas pelas atividades humanas. Esse processo ajuda a reduzir parte do CO₂ presente na atmosfera, mas também aumenta a acidificação dos mares.
A acidificação pode dificultar a formação de estruturas calcárias e afetar organismos marinhos, incluindo corais e moluscos. Por isso, os pesquisadores estudam formas de alterar esse equilíbrio químico sem provocar impactos ambientais adicionais.
O aumento da alcalinidade marinha segue justamente essa linha. Ao modificar a composição química da água, a técnica pode criar condições mais favoráveis à absorção de carbono atmosférico.
Por que a água ficou rosa?
A rodamina foi usada como um marcador visual. Como a substância aplicada era diluída e se espalhava pelo ambiente marinho, o corante ajudou os cientistas a identificar sua trajetória e medir como a área tratada se expandia.
O acompanhamento combinou observações aéreas com medições feitas diretamente na água. Dessa forma, foi possível comparar a região modificada com áreas próximas e avaliar a evolução das condições físicas e químicas.
De acordo com os resultados preliminares apresentados pela equipe, a solução se dispersou dentro do comportamento previsto pelos modelos usados antes do teste. O pH também voltou à faixa esperada após a intervenção.
Animais foram afetados?
Uma das principais preocupações era verificar se a alteração química causaria danos aos organismos marinhos. Nas análises realizadas após a aplicação, não foram identificados efeitos negativos nos organismos avaliados.
Bactérias, integrantes do plâncton e larvas de lagosta expostas à solução não apresentaram alterações de saúde atribuídas ao experimento. Ainda assim, os resultados não significam que a técnica esteja pronta para aplicação em grande escala.
Desafio é ampliar a técnica com segurança
O teste ocorreu em uma área delimitada e durante um período curto. Uma operação voltada para reduzir uma parcela relevante das concentrações globais de CO₂ exigiria volumes muito maiores de material e intervenções em áreas extensas do oceano.
Esse cenário criaria desafios relacionados à produção, ao transporte e à aplicação das substâncias. Também seria necessário acompanhar continuamente os possíveis efeitos sobre ecossistemas, pesca e outras atividades econômicas ligadas ao mar.
Uma alteração química em escala muito maior poderia produzir efeitos que não aparecem em um experimento limitado. Por isso, o estudo no Golfo do Maine deve ser visto como uma etapa inicial da pesquisa sobre remoção de carbono do oceano, e não como uma solução definitiva para o aquecimento global.
O que o estudo pode revelar
A experiência levou uma hipótese estudada em laboratórios e modelos computacionais para uma situação real de mar aberto. Os dados obtidos podem ajudar a avaliar se o aumento da alcalinidade é uma alternativa segura e eficaz para ampliar a retirada de carbono da atmosfera.
Antes de qualquer aplicação em escala muito maior, porém, serão necessários novos estudos para entender os efeitos de longo prazo, os custos da operação e os riscos ambientais associados à técnica.
Fonte: cenariomt





