A vida é uma esteira rolante que segue em direção única. No caminho são muitas as estações e às vezes, percebendo ou não, nos fixamos mais em algumas delas. Em certos momentos queremos retroceder, mas isso não é possível. Podemos até voltar a ter comportamentos iguais àqueles de estações anteriores, mas não significa que retornamos e voltamos no tempo, afinal trilhamos uma esteira de mão única e cada estação carrega consigo sua lista de responsabilidades, que nós, os viajantes da esteira, os viajantes da vida, devemos, ou, pelo menos, deveríamos seguir.
A responsabilidade exige que tomemos decisões, o que nem sempre é fácil, porque são momentos em que precisamos controlar as rédeas, assumir o volante, uma tarefa difícil, uma escolha que muitas vezes tememos assumir. Fazer opções não é como lavar uma louça ou pagar um boleto, é eleger comportamentos definitivos e lidar com possíveis consequências de nossas escolhas.
Quando temos uma alternativa, não há necessidade de escolher, mas ainda assim há temor. Duas ou mais alternativas, porém, muitas vezes nos paralisa; e mais, quando optamos por uma alternativa, abrimos mãos de todas as outras, fechamos a porta a algo que julgamos que talvez pudesse vir a ser melhor, o que nos atemoriza muito mais.
As novas gerações crescem achando que podem ser tudo que desejam, mas sentem-se acuadas, pressionadas, intimidadas, quando têm algo concreto a escolher. Por isso, pode ser melhor não fazer escolha do que errar. O problema é que não escolher significa não crescer, exemplo do personagem Peter Pan, daí a denominação de Síndrome de Peter Pan.
Aqui há uma paralisia defensiva que se pode confundir com preguiça, mas, que na verdade, é o medo da escolha, fica mais fácil deixar de assumir algum compromisso para não ser cobrado pela sua execução. Tudo continua ilusoriamente sendo possível, porque nada ainda foi feito, em síntese, é o medo da responsabilidade, o medo de crescer.
É comum tomarmos conhecimento de pessoas que têm trajetória profissional de curtos períodos de emprego e desempregos, ou de pequenos bicos, nada com estabilidade, sem planejamento futuro. Pessoas assim parecem sentir-se seguras e livres ao mesmo tempo, mas não o são, há uma flutuação interna, que não traz estabilidade, nem os prepara para a vida, muito menos lhes dá competência para gerar filhos, porque não se sentem capazes e não se veem como pais.
Quando se fala de Síndrome de Peter Pan está se falando na dificuldade e até mesmo na recusa de assumir a responsabilidade da vida adulta, a dificuldade de crescer. A princípio, não se trata de doença, mas de um desvio de comportamento, observado por imaturidade emocional prolongada, que faz que a pessoa nessa condição seja procrastinadora e evite compromissos profissionais, por meio de eterna fuga do mundo adulto.
Há uma tendência de levar a vida na brincadeira, sem preocupação com prazos ou consequências. Tem dificuldade de manter relacionamentos duradouros, como também de lidar com críticas. Hoje a aparência e o consumo se transformaram nos valores centrais da juventude, alimentando o narcisismo e a fuga da realidade, um comportamento quase pandêmico. Muitos chegam à quarta ou quinta década de vida (e até mais tarde) morando com os pais e dependendo financeiramente deles.
Evitar compromissos e alguma estabilidade gera maior nível de ansiedade e sentimento de solidão. De imediato, deixar de assumir algo pode trazer prazer, mas o futuro vai carregar a angústia de nada ter construído na vida. Apesar de que, inicialmente, não se trata de doença, seus sintomas em muitos casos podem ser sinais de uma doença física ou mental. Por isso, há necessidade de avaliação médica psiquiátrica.
Quando o problema é comportamental, o tratamento psicológico é o mais indicado para que aquela pessoa que se enquadre na chamada Síndrome de Peter Pan compreenda que nunca é tarde para sair da Terra do Nunca.
Fonte: primeirapagina





