Via @portalmigalhas | Uma plataforma de jogos online que se apresenta como “imersiva” e com “milhões de possibilidades de interação”.
Criado em 2006, a Roblox se popularizou especialmente entre crianças e adolescentes, atraídos pela chance de não apenas jogar, mas também criar experiências próprias dentro do ambiente virtual. Hoje, contabiliza mais de 111 milhões de usuários ativos diários em todo o mundo.
No entanto, o sucesso veio acompanhado de polêmicas.
Nos Estados Unidos, a Roblox responde a ações judiciais que apontam falhas na proteção infantil e alegam facilitação de práticas de aliciamento e exploração sexual de menores.
No Brasil, reportagens recentes trouxeram à tona denúncias sobre o uso de mão de obra infantil na produção de conteúdos para a plataforma, revelando um mercado paralelo de exploração de jovens criadores.
O que é a Roblox?
Criada em 2006, a Roblox é uma plataforma digital que combina jogo, rede social e ambiente de criação.
Diferentemente de videogames tradicionais, ele não oferece apenas títulos prontos: cada usuário pode desenvolver suas próprias experiências virtuais e compartilhá-las com a comunidade.
O funcionamento se dá por meio de avatares personalizáveis, que interagem em cenários de aparência semelhante a blocos de brinquedo.
Essas experiências podem variar desde atividades simples, como andar de skate ou adotar um animal de estimação virtual, até universos mais complexos, que envolvem batalhas, simulações de profissões ou mesmo shows de artistas famosos.
Um dos grandes atrativos da plataforma é a possibilidade de monetização.
Usuários podem criar itens e jogos pagos, comercializados com o Robux, moeda virtual da empresa, que em alguns casos pode ser convertida em dinheiro real.
Isso fez da Roblox uma vitrine para milhões de jovens programadores e desenvolvedores amadores.
Exploração sexual e financeira
Em outubro de 2022, uma menor de idade da Califórnia, representada por sua responsável legal, ajuizou ação contra a Roblox, além de outras grandes plataformas digitais – Meta, Snap e Discord.
A acusação sustenta que as empresas facilitaram a exploração sexual e financeira da criança por adultos, que teriam se aproveitado de vulnerabilidades de segurança das plataformas.
De acordo com a petição inicial, a vítima foi aliciada a partir de interações na Roblox, migrando depois para aplicativos externos como Snapchat e Discord, onde predadores a convenceram a enviar imagens sexualmente explícitas. Também houve relatos de exploração financeira, com uso da moeda virtual Robux.
O documento descreve ainda graves impactos à saúde da menina, como dependência das redes sociais, tentativas de suicídio, internações psiquiátricas e abandono escolar.
A ação apresentou diferentes fundamentos jurídicos:
- Responsabilidade objetiva por defeito de design e falha em alertar sobre riscos;
- Negligência das empresas pela ausência de mecanismos adequados de proteção;
- Invasão de privacidade e enriquecimento ilícito; e
- No âmbito Federal, a acusação de violação ao Trafficking Victims Protection Act (TVPA), legislação norte-americana sobre tráfico de pessoas.
Inicialmente ajuizada na Superior Court de São Francisco, a ação foi transferida para a Justiça Federal, na Northern District of California (caso 3:22-cv-07347), a pedido do Snap Inc., com anuência de Roblox, Meta e Discord. As rés negaram falhas em suas políticas de segurança e apresentaram defesas preliminares.
- Veja a inicial (em inglês).
O caso marcou uma das primeiras grandes ofensivas judiciais contra a Roblox nos Estados Unidos, antecipando a série de litígios semelhantes.
Louisiana x Roblox Corporation
Recentemente, em agosto de 2025, a Procuradoria-Geral da Louisiana ingressou com ação judicial contra a Roblox Corporation, alegando que a plataforma de jogos online teria criado um ambiente propício para a atuação de predadores sexuais.
A petição, assinada pela procuradora Liz Murrill, sustenta que a empresa priorizou “crescimento, receita e lucro em detrimento da segurança infantil”, deixando crianças e adolescentes expostos a riscos previsíveis.
Segundo Murrill, a Roblox estaria “repleto de conteúdo nocivo e de predadores infantis”, a ponto de justificar, inclusive, a defesa do fechamento da plataforma no Estado.
Como exemplo, o documento cita o condado de Livingston, onde autoridades relataram casos de adultos que, utilizando tecnologias de alteração de voz, se passavam por crianças para aliciar vítimas. Apesar da gravidade das denúncias, não foram registradas prisões diretamente vinculadas ao jogo.
A inicial destaca a ausência de mecanismos eficazes de verificação de idade, permitindo que adultos criem perfis falsos de menores.
Embora a Roblox afirme adotar políticas de tolerância zero contra exploração infantil, a procuradora argumenta que não há processo robusto de comprovação etária no momento do cadastro.
O texto também aponta fragilidades nos sistemas de moderação e bloqueio: apesar da proibição formal de compartilhamento de imagens, vídeos e dados pessoais nos chats, os filtros seriam facilmente contornados, abrindo espaço para o contato indevido entre usuários.
Além disso, os autores da ação sustentam que a Roblox, cuja base de usuários é majoritariamente composta por crianças e adolescentes, teria negligenciado medidas de segurança compatíveis com esse público.
Entre as críticas estão:
- Exposição a predadores online, sem monitoramento adequado;
- Falhas de moderação, permitindo circulação de conteúdos impróprios, inclusive de natureza sexual;
- Microtransações pouco transparentes, que induzem menores a gastos excessivos sem consentimento dos pais;
- Exploração de trabalho infantil digital, com estímulo à criação e comercialização de jogos por crianças, sem garantias de remuneração justa.
A ação fundamenta-se em legislações de defesa do consumidor, normas de proteção à infância e dispositivos de responsabilidade civil. Entre os pontos centrais, estão:
- Violação do dever de cuidado, por expor menores a riscos previsíveis;
- Práticas comerciais enganosas, diante da falta de clareza sobre o funcionamento da moeda virtual Robux;
- Enriquecimento ilícito, pela apropriação desproporcional da receita gerada por jogos desenvolvidos por crianças;
- Descumprimento da COPPA (Children’s Online Privacy Protection Act), lei Federal de proteção à privacidade infantil.
Na ação, os demandantes requerem que a Justiça determine:
- mudanças estruturais na moderação e nos sistemas de segurança;
- adoção de mecanismos claros de consentimento parental;
- indenização financeira às famílias prejudicadas;
- participação mais justa de criadores menores nos lucros da empresa.
Veja a íntegra da petição (em inglês).
O que diz a empresa?
A empresa divulgou nota rebatendo as acusações. Classificou como falsas as alegações de que colocaria usuários em risco deliberado e destacou que milhões de pessoas utilizam diariamente a plataforma de forma segura.
Segundo a companhia, “nenhum sistema é perfeito e maus atores se adaptam para escapar da detecção, inclusive levando usuários para outras plataformas”, mas a Roblox afirma investir continuamente em tecnologia de moderação, com ferramentas de inteligência artificial e equipes dedicadas que atuam 24 horas.
A empresa ressaltou que, somente no último ano, lançou mais de 40 novos recursos de proteção, incluindo controles parentais atualizados, filtros de chat mais rigorosos e etiquetas de maturidade de conteúdo.
A Roblox também implementou um sistema de estimativa de idade por vídeo-selfie, que busca evitar falsificação de identidade e liberar recursos conforme a faixa etária.
Entre outras medidas, a empresa destacou:
- proibição de compartilhamento de imagens diretas e restrições de mensagens privadas para usuários com menos de 13 anos;
- monitoramento por IA e equipe especializada, com remoção de conteúdos impróprios em questão de minutos;
- colaboração com autoridades, incluindo comunicação direta com o FBI e o NCMEC – National Center for Missing and Exploited Children, para denúncia imediata de casos suspeitos;
- envio de 24.522 relatórios ao NCMEC em 2024, o que representou 0,12% do total recebido pela entidade;
- parcerias com mais de 20 organizações globais de proteção infantil e participação em iniciativas internacionais, como a Tech Coalition, o Lantern e o projeto ROOST, voltados ao compartilhamento de tecnologias e práticas de segurança.
A empresa afirma que 64% da base de usuários já tem 13 anos ou mais, mas reforça que suas políticas permanecem “propositadamente mais rígidas do que as encontradas em redes sociais e outras plataformas de conteúdo gerado por usuários”.
“Segurança é um dos desafios mais importantes da indústria online hoje”, diz a nota, acrescentando que a Roblox “está comprometida em ser uma das plataformas mais seguras do mundo” e continuará inovando para garantir um ambiente positivo aos usuários.
O caso Schlep
Nos Estados Unidos, a suspensão da conta do youtuber Michael “Schlep” pela Roblox gerou forte repercussão.
Conhecido por realizar operações para identificar supostos predadores sexuais na plataforma, Schlep afirma que suas ações levaram à prisão de seis suspeitos.
Sua motivação pessoal estaria ligada a um passado traumático: entre os 12 e 15 anos, ele próprio teria sido vítima de grooming, quando adultos conquistam a confiança de menores com presentes e interações virtuais para, em seguida, explorá-los sexualmente.
Apesar da notoriedade de seus vídeos, que somam mais de 200 mil inscritos no YouTube, a resposta da empresa foi de confronto.
Ao bani-lo, a Roblox alegou que investigações feitas por usuários poderiam expor vítimas, comprometer autoridades e atrapalhar apurações em andamento.
“Mesmo vigilantes bem-intencionados podem colocar usuários em risco”, afirmou Matt Kaufman, executivo de segurança da companhia.
A medida resultou em reação imediata da comunidade.
Hashtags como #FreeSchlep e #BoycottRoblox se espalharam pelas redes. O episódio intensificou a pressão sobre o CEO David Baszucki e acabou citado até mesmo pela Procuradoria da Louisiana, como exemplo de supressão de iniciativas de denúncia.
Trabalho infantil
Enquanto nos Estados Unidos o debate se concentra na vulnerabilidade de menores diante de predadores online, no Brasil a Roblox passou a ser alvo de questionamentos de outra natureza.
Em 2024, o Ministério Público do Trabalho em São Paulo abriu inquérito civil para apurar suspeitas de exploração de crianças e adolescentes em atividades de programação de jogo.
A apuração ganhou força com denúncias do portal Repórter Brasil, que revelou o cotidiano de jovens desenvolvedores engajados na criação de conteúdos para a Roblox.
Embora muitos enxerguem a atividade como diversão ou uma oportunidade de aprendizado, os relatos mostram dedicação de horas diárias em busca de remuneração por meio do Robux, a moeda virtual do jogo.
Poucos, no entanto, conseguem converter o saldo em dinheiro real, a própria empresa informou que, entre 80 milhões de usuários, apenas cerca de 16,5 mil foram efetivamente pagos.
Especialistas e procuradores ouvidos pelo portal alertaram que a ausência de sofrimento ou a aparência de lazer não descaracterizam a configuração de trabalho infantil.
Para a procuradora Luísa Carvalho Rodrigues, da Coordinfância/MPT, “não é porque é algo divertido que deixa de ser trabalho, caso estejam presentes os requisitos de uma relação laboral”. A preocupação se intensifica porque, segundo dados oficiais, 58% do público da Roblox tem até 16 anos.
Em parecer obtido pela imprensa, a Coordinfância destaca que crianças e adolescentes atuam no desenvolvimento de experiências virtuais “na esperança de obtenção de lucros com a aquisição da moeda virtual do jogo e sua posterior conversão em dinheiro real”.
Parte desses ganhos, contudo, permanece com a própria plataforma, que se beneficia diretamente da produção juvenil.
A Roblox, em manifestação encaminhada ao MPT em 2023, negou a existência de vínculo trabalhista com usuários, afirmando que se trata apenas de um espaço de interação e criação de jogos.
Procurado pelo Migalhas, o MPT informou que o inquérito que apura denúncias de exploração de trabalho infantil na Roblox segue em andamento e está sob sigilo.
Em nota, a instituição destacou apenas que “vem atuando em casos de trabalho por plataformas digitais”.
Felca e a adultização
Além das denúncias específicas envolvendo a Roblox, o debate sobre a proteção da infância no ambiente digital ganhou contornos ainda mais amplos no Brasil após a repercussão do vídeo “Adultização”, do youtuber Felca
Embora não trate da Roblox, a gravação viralizou ao expor como algoritmos e lógicas de monetização das redes incentivam a sexualização precoce de menores.
Com mais de 50 minutos, o vídeo detalha como algoritmos das redes identificam preferências e podem inundar o feed de um pedófilo com imagens de crianças em trajes inadequados.
Para Felca, a lógica de engajamento acaba transformando jovens em produto, criando um ciclo em que exposição gera lucro para plataformas e influenciadores.
As denúncias tiveram efeitos concretos: na Paraíba, a Justiça suspendeu os perfis do influenciador Hytalo Santos, acusado de explorar adolescentes em vídeos sexualizados.
Pouco depois, Hytalo e seu marido, Israel Nata Vicente, foram presos preventivamente sob suspeita de exploração sexual e econômica de menores, além de trabalho infantil irregular.
Ministro Rogerio Schietti, do STJ, manteve a prisão, destacando a gravidade das condutas e a proteção integral conferida pela Constituição às crianças e adolescentes.
No plano político, o caso desencadeou o chamado “efeito Felca”.
Em menos de uma semana, mais de 30 projetos de lei foram apresentados no Congresso, prevendo desde restrições à monetização de vídeos com participação de menores até a criminalização da “adultização digital” como forma de violência psicológica.
O governo também anunciou que enviará ao Legislativo um projeto de regulação das big techs, reforçando o alinhamento entre as denúncias de Felca e a necessidade de normas mais rígidas para proteção da infância online.
Encruzilhada global
O caso da Roblox, somado a episódios recentes no Brasil e no exterior, evidencia que a infância está sob ameaça em múltiplos espectros: da exploração sexual e financeira à adultização e ao trabalho infantil disfarçado de lazer digital.
Não se trata de um problema localizado, mas de um fenômeno global que atravessa fronteiras e plataformas, exigindo respostas firmes e coordenadas.
A tarefa de proteger crianças e adolescentes nesse ambiente complexo não poderá ser assumida apenas por uma empresa ou por um setor: será necessária a atuação conjunta de todos os Poderes, além da sociedade civil e das próprias famílias, para construir mecanismos capazes de assegurar a proteção integral prevista em lei e resguardar o futuro das novas gerações.